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Por PolitikBr I Brasília, Em 12/04/2026, 19h:32, leitura: 11 min
Editor: Rocha, J.C.
As negociações entre os Estados Unidos e o Irã em Islamabad terminaram como qualquer analista minimamente informado já previa: sem acordo. Você não podia esperar outra coisa. Do lado dos EUA e de Israel se tentando um acordo de rendição do Irã de 15 pontos, em todos os aspectos inaceitável para os iranianos. E do lado dos iranianos uma contra proposta de 10 pontos, inaceitável politicamente para os Estados Unidos; mas, racionalmente, os EUA deveriam aceitar os termos do Irã, se quiserem por fim à queda em direção ao abismo da economia mundial. Os EUA devem admitir que foram derrotados.

Após 21 horas de conversas, JD Vance, o vice-presidente americano, anunciou que os iranianos “não aceitaram os nossos termos” – eles já haviam recusado assim que anunciado pelo governo Trump semanas atrás – e que voltaria para Washington de mãos vazias.

Enquanto isso, Donald Trump — que prometeu “vitória” e que “não se importa se há acordo ou não” — assistia a uma luta do UFC em Miami. A imagem é a metáfora perfeita de um império em frangalhos: o vice-presidente negocia desesperadamente enquanto o presidente se distrai.
E a pergunta que fica, levantada pelo jornalista Patrick Henningsen em entrevista a Danny Haiphong, é ainda mais profunda: esta guerra teria sido, na verdade, uma tentativa deliberada de inviabilizar a extração de petróleo e gás do Golfo Pérsico para beneficiar os EUA?, em sua busca da hegemonia pela energia mundial, já que são os maiores produtores de energia? Para tentar conter a China? A hipótese é tentadora, mas a realidade — documentada na Sala de Situação da Casa Branca — é mais simples e mais trágica: os Estados Unidos foram arrastados para esta guerra por Benjamin Netanyahu, em sua obsessão bíblica da Grande Israel, pela via dos assassinatos, da limpeza étnica, da usurpação de territórios, e pela destruição daqueles que eles consideram os seus inimigos. O Irã, hoje, é o principal deles. Amanhã a Turquia; e Trump aceitou isso.
As negociações de Islamabad eram a chance de salvar algo da guerra que deveria durar quatro dias e já dura 44. O cenário era promissor no papel: pela primeira vez desde a Revolução de 1979, representantes de alto nível dos EUA e do Irã se sentavam frente à frente, com o Paquistão atuando como mediador. JD Vance liderava a delegação americana. O presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, liderava a iraniana.
O resultado, após 21 horas de conversas, foi o esperado por qualquer um que acompanha a geopolítica da região: nenhum acordo.
Vance, em uma coletiva de imprensa que durou menos de quatro minutos, anunciou o fracasso. As razões, segundo ele: o Irã não aceitou os termos americanos, especialmente em relação ao programa nuclear. Os iranianos, por sua vez, disseram que os EUA fizeram “exigências irracionais”.
A Farsa da “Vitória”: Trump no UFC Enquanto Vance Negociava
Enquanto Vance negociava – ou tentava impor a vontade dos EUA, como estavam acostumados – em Islamabad, tentando salvar o que restava da credibilidade americana, Donald Trump assistia a uma luta do UFC 327 na Kaseya Center, em Miami, ao lado de membros de sua família e do secretário de Estado Marco Rubio.
A imagem é a antítese da liderança em tempo de guerra. O comandante-em-chefe, que ameaçou provocar um genocídio, isto é, “apagar uma civilização inteira”, que disse que “não importa se há acordo ou não” e que “os Estados Unidos já venceram”, preferiu o entretenimento, em tempos de derrocada estratégica.
Vance, em sua coletiva, tentou minimizar o constrangimento: disse que falou com Trump “meia dúzia, talvez uma dúzia de vezes” durante as 21 horas de negociação infrutífera. Mas a imagem que ficou foi a de um presidente ausente, delegando a seu vice a tarefa de tentar limpar a bagunça que ele mesmo criou.
Trump, antes das negociações, havia dito ao New York Post que navios de guerra americanos estavam sendo “carregados com a melhor munição, as melhores armas já feitas” e que, se não houvesse acordo, “os usaríamos, e os usaríamos de forma muito eficaz”. A ameaça, mais uma vez, era tão grandiosa quanto vazia. O mesmo presidente que prometeu “aniquilar” o Irã agora não conseguia nem fazer o Irã aceitar os seus termos na mesa de negociação.
A Hipótese de Patrick Henningsen: Guerra pelo Petróleo?
O jornalista Patrick Henningsen, em entrevista ao canal de Danny Haiphong, levantou uma hipótese que merece ser examinada. Segundo ele, a guerra contra o Irã pode ter tido um objetivo oculto: inviabilizar a extração de petróleo e gás do Golfo Pérsico para tornar os Estados Unidos o principal ou um dos principais fornecedores globais de energia, e que, dessa forma, o Irã ao atacar e destruir as instalações de petróleo e gás dos países produtores do Golfo estaria, de certa forma, sendo útil à dominância americana no mercado de energia, durante meses e talvez anos.

E que Israel, em conluio com Trump, serviu a esse propósito ao atacar o Líbano, em pleno cessar fogo, matando mais de 2000 pessoas – um genocídio – sabendo que o Irã iria revidar, e que assim a guerra não teria fim e nem haveria acordo em Istambul, por não interessar aos EUA. Nessa lógica, a intenção seria de conter a China pela escassez e preços elevados da energia consumida pelo gigante asiático.
A lógica, na superfície, é sedutora. O Estreito de Ormuz, controlado agora pelo Irã, é o gargalo por onde passa cerca de 20% do petróleo global. Se esse fluxo for interrompido de forma permanente ou por um longo período, os preços do petróleo se manterão acima dos US 100, podendo mesmo alcançar o patamar de US$ 200. E quem tem capacidade de aumentar a sua produção para suprir a demanda? Os Estados Unidos (com o seu petróleo caro e poluente via craqueamento hidráulico do xisto), a Rússia (que já está lucrando com a crise) e a Venezuela (cujo regime, após o “sequestro” de Maduro pelos EUA, estaria agora alinhada com Washington ou, pelo menos, menos propensa a se pautar incondicionalmente ao lado da China e da Rússia). Há uma série de outros produtores, mas nenhum chega perto da capacidade produtiva desses 03 players.

A tese de Henningsen, no entanto, não defende essa tese como um fato consumado. Ele a apresenta como uma hipótese que emerge da observação do padrão de comportamento: a guerra removeu petróleo e gás do mercado global, e os beneficiários naturais são os grandes produtores não afetados pelo conflito.

O problema com essa hipótese é que ela entra em conflito com as evidências documentadas. Até porque se tal tese é sustentável, a guerra entre o consórcio EUA/Israel contra o Irã teria tido claramente o apoio do chamado “Estado Profundo” – dos EUA – , mas segundo o professor John Mearsheimer em WATCH: Prof. John Mearsheimer Warns Of US Aircraft Losses In Iran War | APT isso não aconteceu.
Não houve esse apoio, o que esvazia essa tese como “foco principal” dessa guerra absurda, que está saindo profundamente errada para os Estados Unidos e Israel.
No entanto, em um cenário de ausência absoluta do petróleo e do gás produzido pelos países do Oriente Médio, fruto, por exemplo, de um ataque nuclear de Israel ao Irã, e tendo uma resposta retaliatória também nuclear, tendo como consequência um “inverno nuclear regional”, o ranking de produtores seria como a figura abaixo.

A Evidência que não Pode ser Ignorada: Netanyahu na Sala de Situação
Como documentamos no artigo anterior –REVELAÇÃO: Netanyahu Traçou o Plano de Guerra Contra o Irã na Casa Branca – , baseado na reportagem de Maggie Haberman (CNN) e na análise de Jesse Dollemore, a guerra não foi decidida em Washington por estrategistas americanos. Ela foi decidida em 11 de fevereiro de 2026, quando Benjamin Netanyahu entrou na Sala de Situação da Casa Branca e, diante de Trump e seus conselheiros, traçou os objetivos da guerra contra o Irã.
Os detalhes são arrasadores:
- Netanyahu apresentou um plano que incluía eliminar a capacidade de mísseis balísticos do Irã, conter os seus ataques a vizinhos, minimizar a chance de fechamento de Ormuz, e até cenários de mudança de regime.
- Trump disse “parece bom para mim”.
- O vice-presidente J.D. Vance foi veementemente contra.
- O diretor da CIA chamou os cenários de mudança de regime de “farsa” .
- O secretário de Estado Marco Rubio os chamou de “besteira” .
- Todos foram ignorados. A guerra foi decidida por um líder estrangeiro.
Se o objetivo da guerra fosse econômico — reconfigurar o mercado global de petróleo em benefício dos EUA — não haveria necessidade de Netanyahu ditar os termos na Sala de Situação. Os estrategistas americanos seriam perfeitamente capazes de conceber tal plano por conta própria.
A hipótese de Henningsen, portanto, embora interessante, parece ser um subproduto da guerra, não a sua causa. O caos energético global é uma consequência benéfica para certos setores (big oil, big gas), mas não parece ter sido o motor que impulsionou a decisão de atacar o Irã. O motor foi Netanyahu e a sua obsessão por destruir o Irã, um entrave ao seu projeto da “Grande Israel”.
O Fiasco das Negociações: O que Fica
O fracasso das negociações de Islamabad deixa o mundo em um limbo perigoso. O cessar-fogo de duas semanas, que expira em 22 de abril, está por um fio. Israel, que não reconhece que o Líbano faz parte do acordo, continua bombardeando Beirute. O Irã já reagiu fechando novamente o Estreito de Ormuz.
Vance disse que os EUA deixaram uma “proposta final” sobre a mesa e que agora “veremos se os iranianos a aceitam”. A imprensa iraniana, por sua vez, informou que “a bola está agora no campo da América”.
E Trump, diante do fracasso das negociações, decidiu, de longe, “fechar o Estreito de Ormuz” bloqueando a passagem de petroleiros e outras cargas que, saindo do Golfo, tenham pago a taxa de US$ 2 milhões cobrada pelo Irã. Essa medida é tacitamente o anúncio antecipado de pirataria em águas internacionais. Um completo “nonsense”.
A verdade é que as posições são incompatíveis. Os 15 pontos dos EUA são frontalmente opostos aos 10 pontos apresentados pelo Irã.
Não há meio-termo. E, sem meio-termo, a guerra recomeçará.
O Império em Frangalhos
A imagem que fica do fracasso de Islamabad é a de um império que não sabe o que quer, não sabe como conseguir o que precisa, e é liderado por um presidente que prefere assistir a uma luta de UFC a conduzir as negociações que decidirão o destino de seu país.
Patrick Henningsen tem razão em apontar que o caos energético global beneficia certos atores. Mas, como ele mesmo reconhece, essa pode ser uma consequência, não uma causa. A causa da guerra — como as evidências documentadas mostram — foi a decisão de um primeiro-ministro estrangeiro, tomada na Sala de Situação da Casa Branca, e aceita por um presidente que não tinha estatura para dizer não.
O império não foi quebrado por uma estratégia geopolítica genial. Foi quebrado pela fraqueza de seu líder, pela traição de seus “aliados”, e pela arrogância em acreditar que poderia vencer uma guerra sem plano, sem justificativa, e sem saber como terminá-la. Acreditando nas mentiras e alucinações de Netanyahu.
O pânico em Islamabad é apenas o capítulo mais recente dessa história. O próximo — seja a retomada dos bombardeios, seja o colapso final do cessar-fogo — está por vir.
Esse artigo foi baseado em:
- YouTube (Danny Haiphong): Trump in FULL PANIC MODE in Islamabad, Iran BROKE U.S. Empire | Patrick Henningsen (11/04/2026)
- Reuters: US says no deal so far after Iran did not accept terms (12/04/2026)
- BBC: Iran war: Tehran-US peace talks fail to reach deal as Washington issues ‘final offer’ (12/04/2026)
- Al Jazeera: Iran war live: Vance says no deal reached, US has made ‘best, final offer’ (12/04/2026)
- Indian Express: What can Trump do next as Islamabad talks fail to solve Iran conflict? (12/04/2026)
- DW: US and Iran have not reached an agreement, Vance says (12/04/2026)
- PolitikBr: REVELAÇÃO: Netanyahu Traçou o Plano de Guerra Contra o Irã na Casa Branca (10/04/2026)
- PolitikBr: “VITÓRIA DECISIVA? NÃO INSULTE NOSSA INTELIGÊNCIA” (09/04/2026)
- PolitikBr: A SABOTAGEM ANUNCIADA (09/04/2026)
- PolitikBr: O BUFÃO RECUOU (08/04/2026)
- https://energynow.ca/2026/04/half-the-worlds-oil-comes-from-just-five-countries-visual-capitalist/