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Por PolitikBr I Brasília, Em 24/03/2026, 08h:01, leitura: 8 min
Editor: Rocha, J.C.
Prometeu o fim da guerra em quatro dias. Agora está indo para o trigésimo dia. Implora por um cessar-fogo que o Irã recusa. Dá ultimato, ameaça invadir o coração energético iraniano, recua quando o Irã ameaça destruir todo o Golfo. E ainda mente: diz que está negociando, enquanto Teerã nega publicamente. A saga de Donald Trump na guerra contra o Irã é um atestado de desespero, incompetência e, acima de tudo, derrota.
No dia 28 de fevereiro de 2026, Donald Trump anunciou ao mundo que os Estados Unidos e Israel lançavam uma operação cirúrgica contra o Irã. A guerra, prometeu, duraria no máximo quatro dias. Seria uma vitória retumbante, que consolidaria o seu legado e garantiria a sua vitória nas eleições de novembro desse ano.
Passados quase trinta dias, o cenário é o oposto. Israel sangra. As defesas antimísseis americanas e israelenses estão exauridas. O Estreito de Ormuz, por onde escoa um quinto do petróleo mundial, está nas mãos do Irã. E Trump, o belicista que prometia arrasar o inimigo, está encurralado, contradizendo-se a cada dia, recuando de suas próprias ameaças e implorando por uma saída honrosa, que o Irã se recusa a dar sem garantias de longo prazo.
A saga das últimas 72 horas é a mais clara evidência desse colapso.
O Ataque Israelense a Natanz e a Resposta Iraniana em Dimona
No último sábado (21), Israel, agindo por conta própria mais uma vez, bombardeou o complexo nuclear subterrâneo de Natanz, no centro do Irã. O alvo era claro: a infraestrutura de enriquecimento de urânio iraniana.
A resposta iraniana não tardou. No mesmo dia, mísseis hipersônicos iranianos atingiram a cidade israelense de Dimona, no deserto do Neguev, onde se localiza o reator nuclear de Dimona — o coração do programa atômico israelense, onde, acredita-se, as ogivas nucleares do país são produzidas.
O ataque deixou mais de 100 feridos. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) confirmou o ataque e pediu “máxima contenção militar”, especialmente perto de instalações nucleares.
A mensagem iraniana era inequívoca: se vocês atacam nossas instalações nucleares, nós atacamos as suas. Na verdade, houve contenção do lado iraniano. Ele poderia ter atacado diretamente a instalação nuclear. Não o fez. Mas foi um claro aviso: Vocês não tem defesa contra os nossos misseis. A simetria da resposta é um dos pilares da estratégia iraniana: cada golpe é respondido na mesma moeda, com juros.
As Bombas de Fragmentação (Cluster Bombs): A Nova Tática que Está Destruindo Israel
O Guardian, em reportagem publicada nesta segunda-feira (23), revela que o Irã tem utilizado os mísseis de última geração, dotados de ogivas de fragmentação (cluster bombs), em seus ataques contra Israel.
Esses mísseis, como o Khorramshahr – 4, o mais avançado do arsenal iraniano, carregam dezenas de submunições (até 80) que se dispersam para diferentes alvos, no ar, antes de atingir o solo.
Por que isso muda o jogo? Porque interceptar um míssil com ogiva de fragmentação é “fundamentalmente mais difícil” do que interceptar uma ogiva única, explica Tal Inbar, especialista em mísseis. “Para ser eficaz, um (míssil) interceptador precisa atingir o veículo transportador antes da dispersão”. O problema é que o Khorramshahr – 4 é um míssil hipersônico, praticamente impossível de ser abatido pelos sistemas de defesa – já quase exauridos – de Israel e dos Estados Unidos.
Uma vez que as submunições são liberadas, a interceptação se torna virtualmente impossível, mesmo com os sistemas mais sofisticados do mundo. E o custo econômico é brutal: Israel precisa usar dezenas de interceptadores caros para tentar neutralizar um único míssil cluster iraniano.
O resultado está nos alvos destruídos e nas ruas de Israel. Desde o início da guerra, pelo menos 19 mísseis cluster penetraram o espaço aéreo israelense e atingiram áreas urbanas usadas com dupla finalidade, ou que são nós fundamentais no sistema de defesa e de logística israelense. O Irã nos parece que, por força da sua religião, não faz ataques indiscriminados contra alvos civis com o objetivo de aterrorizar a população, como faz, e vem fazendo, tanto Israel quanto os Estados Unidos.
Os vídeos que circulam nas redes sociais mostram o céu noturno sobre Tel Aviv cortado por dezenas de pontos brilhantes que descem em cascata antes do impacto. É a imagem da fragilidade israelense.
O Ultimato de Trump e o Recuo Humilhante
Diante do desastre, Trump recorreu ao que sabe fazer: ameaças grandiosas.
No sábado (21), ele deu um ultimato ao Irã: 48 horas para abrir o Estreito de Ormuz, caso contrário os EUA atacariam “as suas diversas usinas elétricas, começando pela maior”. A ameaça incluía a Ilha de Kharg, o principal terminal de exportação de petróleo do Irã, uma joia estratégica no Golfo Pérsico.
A resposta iraniana, por meio do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), foi tão rápida quanto devastadora:
“Se os Estados Unidos atacarem a cadeia de suprimentos de eletricidade do Irã, também atacaremos a cadeia de suprimentos de eletricidade norte-americana. Todas as empresas de energia na região, que possuem acionistas dos EUA, serão destruídas. As centrais elétricas dos países da região que abrigam bases americanas serão alvos legítimos para nós.”
Em outras palavras: toquem em nossa infra estrutura energética ou em Kharg, e todo o Golfo Pérsico pegará fogo. As refinarias da Arábia Saudita, as plataformas do Catar, os campos dos Emirados — tudo será atingido.
Menos de 48 horas depois, Trump recuou. Em uma postagem em sua rede social, anunciou que “instruiu o Departamento de Guerra a adiar todos e quaisquer ataques militares contra usinas de energia e infraestrutura energética iranianas por um período de cinco dias”.
O pretexto? Trump disse que teve conversas “muito boas e produtivas” com o governo iraniano e que um cessar-fogo estava próximo. Mas a realidade desmentiu o presidente americano.
A Mentira das Negociações: O Irã Desmente Trump Publicamente
Horas após o anúncio de Trump, uma fonte iraniana informou à agência estatal Press TV que não houve contato— direto ou indireto — com os Estados Unidos. Trump teria recuado após ser avisado de que o Irã retaliaria com ataques a usinas de energia de toda a Ásia Ocidental.
Não parece tolice, ou puro caos decisório, sem planejamento, que Trump tenha feito uma ameaça dessa envergadura que não poderia sustentar? É óbvio que sim.
A confirmação veio do próprio ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, que já havia desmentido Trump na semana anterior sobre supostas negociações. Em comunicado, o governo iraniano reiterou: não há negociações em andamento. O que existe, isso sim, são exigências iranianas para um fim definitivo da guerra: retirada das tropas americanas do Golfo, compensações pelos danos causados e garantias de longo prazo de que não haverá novos ataques.
A Economia em Frangalhos e o Cronograma do Desespero
O que explica a guinada de Trump? A economia.
O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, admitiu que os estoques de petróleo durarão apenas mais duas semanas antes que a escassez cause uma ruptura estratégica global. O preço do barril disparou. A gasolina nos EUA já ultrapassa os US$ 6 por galão em muitos estados. A inflação, que os bancos centrais tentavam domar, voltou. E o mercado de títulos, do qual depende os Estados Unidos para sustentar a sua colossal dívida pública de US$ 40 trilhões, está exigindo prêmios de 5% nesse momento. E isso é insustentável para a economia americana.
E as eleições de novembro se aproximam. A base “America First” de Trump, que votou contra as guerras intermináveis, está se revoltando. A renúncia de Joe Kent, diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, foi um terremoto. Agora, as réplicas podem se tornar cada vez mais constantes.
Trump precisa desesperadamente de um cessar-fogo para apresentar como “vitória” antes do pleito. Mas o Irã não tem pressa.
O Belicista Desmiolado e a Derrota Estratégica
O padrão é claro: Trump ameaça, o Irã responde com uma contra-ameaça que expõe a vulnerabilidade americana, e Trump recua, mentindo sobre negociações em curso. para disfarçar o recuo.
A guerra que deveria durar quatro dias, já dura quase um mês. As defesas de Israel estão em frangalhos, as suas cidades são atingidas por bombas de fragmentação que a Cúpula de Ferro não consegue parar, e o seu principal aliado está desesperado para sair do conflito.
O Irã, ao contrário, se consolidou como o “guardião do Estreito de Ormuz”, controla o fluxo energético global, demonstrou capacidade de resposta simétrica e letal, e agora dita os termos para o fim da guerra.
O belicista desmiolado que prometeu arrasar o inimigo, agora mendiga uma saída honrosa.
E a cada dia que passa, fica mais claro: esta guerra, que deveria ser o triunfo de Trump, está se tornando a sua maior derrota.
Esse artigo foi baseado em:
- Correio Braziliense: Mísseis iranianos deixam mais de 100 feridos em cidade de Israel (21/03/2026)
- The Guardian: Breaching the Iron Dome: the Iranian cluster bombs bypassing Israeli air defences (23/03/2026)
- Agência Brasil: EUA suspendem ataques a usinas; Irã diz que Trump recuou após ameaças (23/03/2026)
- Brasil 247: Irã desmente Trump e nega qualquer conversa em andamento com autoridades dos EUA (23/03/2026)
- Drop Site News: Iran Blasts Trump Claims of Direct Talks as False Market Manipulation (23/03/2026)
- PolitikBr: O FANTASMA DE NETANYAHU: Morto, Vivo ou Refém de um Golpe? (22/03/2026)
- PolitikBr: O GOLFO EM CHAMAS: Trump Ordena Israel Parar, Mas o Estrago Está Feito (20/03/2026)
- PolitikBr: O IMPÉRIO RACHADO: Chefe Antiterrorista dos EUA Renuncia e Denuncia a Mentira da Guerra (17/03/2026)