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Por PolitikBr I Brasília, Em 05/04/2026, 06h:58, leitura: 9 min
Editor: Rocha, J.C.
Nesse Domingo de Páscoa, que celebra a ressurreição de Jesus Cristo. A data mais importante do Cristianismo, publicamos esse artigo. A nossa esperança é que você reflita sobre o que está escrito.
Enquanto o secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, lidera cultos de oração no Pentágono pedindo “violência esmagadora contra aqueles que não merecem misericórdia”, o Papa Leão, neste Domingo de Ramos, foi direto: Deus não ouve as pregações dos que promovem a guerra. “Suas mãos estão cheias de sangue”, disse o pontífice, em uma clara referência à administração Trump. O confronto entre a fé cristã e o nacionalismo cristão beligerante nunca foi tão explícito. E a pergunta que fica é: quem está realmente seguindo a Cristo?

Há um momento, em toda crise, em que a hipocrisia se torna tão evidente que até os mais cegos são forçados a enxergar. Para a administração Trump, esse momento pode ter chegado nessa Semana Santa, que celebra o triunfo de Cristo sobre a morte. Na homilia da Quinta-feira Santa (2 de abril de 2026), o Papa Leão XIV destacou que o gesto de Jesus ao lavar os pés dos discípulos é um convite ao serviço amoroso e à purificação da alma. O pontífice enfatizou que, diante da brutalidade no mundo, os fiéis devem imitar o amor de Cristo, tornando-se servidores.
Como essas palavras devem ter soado para Trump? Um odioso promotor da violência gratuita, ambicioso, e que despreza a vida? E para Hegseth?
Em sua homilia, o Papa Leão, o primeiro pontífice americano da história, olhou para as câmeras e disse o que muitos pensavam, mas poucos tem coragem de falar.
O contexto é a guerra contra o Irã — uma guerra de agressão, iniciada sob falsos pretextos, que já custou dezenas de bilhões de dólares, milhares de vidas e está à beira de uma catástrofe nuclear. Mas a justificativa interna, dentro da máquina de guerra americana, tem um componente que a grande mídia raramente menciona: o nacionalismo cristão e o sionismo cristão.
O Culto da Guerra no Pentágono
Pete Hegseth, o secretário de Guerra (a Secretaria foi renomeada de “Defesa” para “Guerra” neste segundo mandato de Trump — um detalhe que por si só revela a mudança de orientação), tem promovido cultos de oração abertamente beligerantes no coração do poder militar americano.
Em um desses cultos, Hegseth orou:
“Que cada tiro encontre o seu alvo contra os inimigos da justiça e da nossa grande nação. Dê-lhes sabedoria em cada decisão, resistência para a provação que se avizinha, unidade inquebrável e violência esmagadora contra aqueles que não merecem misericórdia.”
A linguagem é a das cruzadas. O inimigo não é apenas um adversário político ou militar — é um “inimigo da justiça”, alguém que “não merece misericórdia”. É uma teologia da guerra santa, revestida de símbolos cristãos.
E Hegseth não está sozinho. Paula White, a conselheira espiritual extremista de Trump, referiu-se ao presidente em termos messiânicos:
“Sr. Presidente, ninguém pagou o preço que você pagou. Quase lhe custou a vida. Você foi traído, preso e falsamente acusado. É um padrão familiar que nosso Senhor e Salvador nos mostrou.”
A associação entre Trump e Cristo é, para qualquer cristão minimamente instruído, uma blasfêmia. Mas para a base trumpista, é um artigo de fé.

O Papa Leão: “Suas mãos estão cheias de sangue”
Foi nesse contexto que o Papa Leão fez uma declaração que reverberou pelo mundo. Em sua homilia o pontífice disse:
“Irmãos e irmãs, este é o nosso Deus Jesus, rei da paz, que rejeita a guerra. Ninguém pode usá-lo para justificar a guerra. Ele não ouve as orações daqueles que fazem a guerra, mas os rejeita, dizendo: ‘Ainda que façam muitas orações, não ouvirei. Suas mãos estão cheias de sangue.”
A referência direta a Hegseth e Trump era inconfundível. O Papa, que já havia criticado a guerra em outras ocasiões, agora apontava o dedo para aqueles que, em nome de Deus, promovem a violência.
O estudioso do nacionalismo cristão Brad Onishi, observou:
“O que eles fazem é escolher passagens específicas – do Evangelho – nas quais a sede de sangue, a falta de empatia e a impiedade são vistas como virtudes. E as apresentam como o caminho a seguir, não apenas para a fé cristã, mas para a nossa nação.”
Onishi lembra que há uma longa tradição de “teoria da guerra justa” no cristianismo — desde Agostinho — que estabelece condições para que a guerra seja moralmente aceitável: último recurso, proteção dos inocentes, busca da justiça. Nada disso se aplica à guerra contra o Irã.
“Não vemos nada disso aqui. Vemos apenas um apetite pela destruição.”
O Sionismo Cristão e a Apropriação da Fé
O fenômeno que Onishi descreve não é novo, mas ganhou força nas últimas décadas. É o chamado sionismo cristão — uma corrente teológica que acredita que o retorno dos judeus à Terra Santa e a criação do Estado de Israel são condições necessárias para a segunda vinda de Cristo e o Armagedom.
Como explica o rabino David Weiss, da organização judaica antissionista Neturei Karta International:

“O sionismo se aproveita da pauta cristã para angariar apoio. Isso é proposital. Os sionistas entenderam, desde o início, que precisavam da simpatia do mundo para criar um Estado. Eles perceberam que, ao se apropriar de símbolos bíblicos, como o nome ‘Israel’ e a estrela de Davi, conseguiriam apoio dos cristãos evangélicos.”
Weiss, que representa os judeus ortodoxos, que rejeitam o sionismo como uma violação da Torá, é categórico: o Estado de Israel não representa o povo judeu. E a aliança entre sionistas judeus e sionistas cristãos é uma instrumentalização perversa da fé.
“Eles usam o sofrimento do Holocausto para justificar roubo, assassinato e ocupação. Meus avós morreram em Auschwitz por seguirem a Torá. Usar as cinzas deles para justificar a criação de um Estado é se rebelar contra Deus.”
Para Weiss, o verdadeiro judaísmo sempre se opôs à criação de um Estado judeu antes da chegada do Messias. E o Irã, ironicamente, é um exemplo de convivência respeitosa entre judeus e muçulmanos.
A Purga no Pentágono: O General Demitido por Questionar a Guerra
Enquanto o Papa falava e os cultos de guerra ecoavam nos corredores do Pentágono, uma notícia passou quase despercebida: o comandante do Exército dos Estados Unidos, general Randy George, foi aposentado precocemente — em plena guerra — pelo secretário Hegseth.
A demissão, oficialmente atribuída a “diferenças estratégicas”, ocorreu após o general George ter manifestado reservas sobre a condução da guerra contra o Irã. O Pentágono não esconde mais: vozes dissidentes são silenciadas. A lealdade ao comandante-em-chefe — e à sua teologia da guerra — é a única moeda de troca aceita.
O episódio é sintomático de uma guinada cada vez mais autoritária. O Departamento de Guerra (antes chamado de Defesa) não existe mais para proteger o país de ameaças externas. Ele agora existe para projetar poder, iniciar conflitos e destruir inimigos — reais ou imaginários.

A Hipocrisia da Cruz
A imagem da cruz — o símbolo máximo do cristianismo — é constantemente usada pela administração Trump para legitimar as suas ações. Há cruzes em palanques, cruzes em patches militares, cruzes nas redes sociais de Hegseth.
Mas que cristianismo é esse?
O Cristo da Bíblia não empunhava espadas. Ele dizia “amai os vossos inimigos”. Cristo se recusou a legitimar a violência mesmo quando foi preso, torturado e morto. Ele ainda pediu a Pedro que guardasse a espada. “Quem vive pela espada, pela espada morrerá.”
O Cristo do nacionalismo cristão americano é outro. É um “Cristo guerreiro“, que abençoa bombas, que justifica a “violência esmagadora”; que ungira Trump como o seu representante na Terra. É um Cristo fabricado à imagem e semelhança dos poderosos — e não tem nada a ver com o Jesus dos Evangelhos.
Brad Onishi captura essa distorção:
“O que eles fazem é pegar passagens específicas nas quais a sede de sangue e a falta de misericórdia são vistas como virtudes. A mensagem do Papa Leão é a mensagem de um Deus crucificado, um Deus que não revida. E isso vai diretamente contra a teologia e a ideologia política de Pete Hegseth.”
A Guerra Como Projeto Teológico
Não se trata mais de geopolítica no sentido clássico. A guerra contra o Irã não é somente sobre tentar controlar toda a produção de petróleo do Oriente Médio. Não é sobre a “ameaça nuclear iraniana aos Estados Unidos” (que nunca existiu). É sobre um projeto teológico: a aceleração do Armagedom, a “purificação” do Oriente Médio, o estabelecimento do “Grande Israel” como pré-condição para a segunda vinda.
É uma loucura? Sim. Mas é uma loucura organizada, financiada, institucionalizada. É uma loucura que tem tanques, mísseis e um orçamento de US$ 2 bilhões por dia. É uma loucura que mata, chacina, em nome de Cristo e em nome do sionismo.
O rabino Weiss, ao ser perguntado sobre a aliança entre a direita brasileira e Israel, fez um alerta que se aplica igualmente aos Estados Unidos:
“Infelizmente, é dessa fonte que eles tiram o seu poder. Apoiar o sionismo não é apoiar o povo judeu, é apoiar um regime criminoso que desrespeita a própria Torá.”
O Sangue nas Mãos
O Papa Leão disse o que precisava ser dito. As mãos de Trump, Hegseth e todos os que promovem esta guerra estão cheias de sangue. O sangue de 165 meninas mortas em uma escola em Minab. O sangue de milhares de civis iranianos. O sangue de soldados americanos enviados para morrer por uma mentira.

E, no entanto, eles continuam a orar. Continuam a invocar o nome de Deus. Continuam a se vestir com os símbolos da fé, enquanto planejam a próxima onda de bombardeios.
Há um nome para isso. Não é cristianismo. É blasfêmia.
O Cristo que os nacionalistas cristãos americanos dizem seguir não os reconheceria. E, como disse o Papa, não ouvirá as suas orações.
Suas mãos estão cheias de sangue. E a história — e Deus — não esquecerão.
Esse artigo foi baseado em:
- MS NOW: ‘Your hands are full of blood’: Pope Leo REBUKES Hegseth’s war prayers (03/04/2026)
- Sputnik Brasil: ‘Sionismo se aproveita da pauta cristã para angariar apoio’, diz rabino sobre aproximação com Israel (21/07/2025)
- PolitikBr: O “ACIDENTE” QUE EXPÔS A VERDADE (03/04/2026)
- PolitikBr: A Volta à Idade da Pedra (02/04/2026)
- PolitikBr: O Comandante do Caos (30/03/2026)