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Por PolitikBr I Brasília, Em 05/04/2026, 20h:51, leitura: 10 min
Editado em 06/04/2026, 07:50h
Editor: Rocha, J.C.
O mesmo presidente que prometeu uma guerra de quatro dias, depois disse que a guerra estava vencida, depois anunciou mais três semanas de “força extrema”, agora afirma que os Estados Unidos “controlam os céus do Irã”. É mentira.
O ex-inspetor de armas da ONU e oficial de inteligência dos Fuzileiros Navais, Scott Ritter, expõe a verdade: caças F-35 e F-15 foram abatidos, as defesas aéreas iranianas continuam ativas, e não há um plano de guerra. “Estamos fazendo tudo isso enquanto avançamos”, diz Ritter. “É uma piada trágica.”
Há 38 dias, Donald Trump lançou os Estados Unidos em uma guerra de agressão contra o Irã sob falsos pretextos. A “ameaça nuclear iminente aos Estados Unidos” nunca existiu. O programa nuclear iraniano estava sob monitoramento da AIEA. O próprio Trump havia dito, no ano passado, que o havia “obliterado”.
A guerra nunca foi sobre uma ameaça real. Foi, além do controle do petróleo do Oriente Médio, sobre um projeto teológico, sobre o complexo industrial-militar, sobre a aliança entre o sionismo judeu e o sionismo cristão que vê no Armagedom a pré-condição para a segunda vinda de Cristo.
E agora, no 38º dia, a farsa está se desfazendo. Não apenas no campo diplomático — com a Europa articulando uma saída sem os EUA — mas no campo de batalha real.
Scott Ritter: Quem é o Homem que Está Dizendo a Verdade
Scott Ritter não é um ativista anti-guerra qualquer. Ele é um ex-oficial de inteligência do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA que serviu na Guerra do Golfo e, mais importante, foi inspetor de armas da ONU no Iraque na década de 1990. Ele foi uma das poucas vozes que, antes da invasão de 2003, afirmou categoricamente que o Iraque não possuía armas de destruição em massa. Ele estava certo. A administração Bush mentiu. Milhares de americanos e centenas de milhares de iraquianos morreram por causa dessa mentira.
Ritter sabe como a máquina de propaganda americana funciona. E sabe como a máquina de guerra americana — quando mal liderada — pode levar jovens soldados à morte por uma causa falsa.
Em entrevista ao programa Daniel Davis Deep Dive (05/04), Ritter foi direto:
“Não temos controle sobre os céus. Estamos fazendo tudo a longa distância. E estamos sem mísseis de cruzeiro. Estamos sem as munições de ataque conjunto. Agora temos que entrar. E à medida que entramos, estamos descobrindo que a defesa aérea iraniana está muito ativa. Eles estão abatendo nossos drones. Atingiram um F-35, estão fazendo com que outros aviões abortem missões. Não temos controle dos céus.”
A declaração de Trump de que os EUA “controlam os céus do Irã” é, nas palavras de Ritter, “uma mentira completa”.
Os Caças Abatidos: F-35, F-15, A-10 e Helicópteros
A realidade no terreno é implacável. As defesas aéreas iranianas, que a propaganda americana insistia terem sido “degradadas” ou “destruídas”, continuam operacionais. E continuam abatendo aeronaves americanas.
De acordo com relatos da imprensa internacional, confirmados por fontes iranianas e parcialmente admitidos pelo Pentágono:
- Um caça furtivo F-35 foi abatido no centro do Irã. O governo iraniano reivindica oficialmente a destruição da aeronave. O Pentágono não confirma, mas também não nega categoricamente — o silêncio, neste caso, é revelador. As Forças Armadas do Irã reivindicam a destruição de outro caça furtivo (provavelmente um F-35) e danos significativos a outras aeronaves.
- Um caça F-15 também foi abatido. Imagens desse caça destruído circulam pelas redes sociais.
- Um avião de ataque ao solo A-10 foi abatido nas proximidades do Estreito de Ormuz. O A-10 é uma aeronave de apoio aéreo aproximado, usada para atacar alvos terrestres — a sua perda indica que os EUA estão tentando operar mais perto do território iraniano, e pagando o preço.
- Dois helicópteros americanos foram alvejados durante operações de busca e resgate de um piloto abatido. Os tripulantes ficaram feridos, mas conseguiram escapar . O Irã ainda divulgou imagens de um outro helicóptero abatido.
- Vários drones MQ-9 Reaper foram também abatidos.
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, ironizou a situação:
“A estratégia de Washington foi rebaixada de uma operação de ‘mudança de regime’ para pedidos de ajuda na busca por pilotos perdidos.”
A ironia é cruel: o país que prometeu “destruir” o Irã agora está pedindo — discretamente — que os seus pilotos abatidos sejam resgatados. Se os Estados Unidos pedem isso, é portanto falso – como não haveria deixar de ser – de que um dos pilotos teria sido resgatado por forças especiais americanas.
Nesse programa se revela, a partir de dados divulgados pelos iranianos, que na tentativa fracassada de resgate do piloto, cujo avião foi abatido, os Estados Unidos teriam perdido 04 helicópteros e outros 02 aviões, possivelmente de apoio à operação terrestre, que acabou não dando certo.
“Não Há Plano de Guerra”: A Confissão Mais Aterradora
Talvez a declaração mais embaraçosa de Ritter não seja sobre os caças abatidos, mas sobre a ausência total de planejamento estratégico.
“Não há plano de guerra. Tudo o que estamos fazendo hoje não foi pré-planejado. Estamos fazendo tudo isso enquanto avançamos. Não há plano.”
Ritter, que conhece intimamente o planejamento militar americano, contrasta a situação atual com o que seria necessário para uma operação bem-sucedida:
“O que torna uma unidade militar profissional não é apenas o treinamento das tropas e a qualidade da liderança. É a qualidade do plano. E o plano envolve logística e um monte de outras coisas que simplesmente não estão acontecendo. Estamos literalmente fazendo tudo isso enquanto avançamos. Não há plano.”
A ausência de planejamento significa que os soldados americanos — muitos deles jovens de 18, 19, 20 anos — estão sendo enviados para uma zona de combate sem saber exatamente o que precisam fazer, sem os recursos adequados, sem uma cadeia de suprimentos garantida, e sem uma estratégia de saída.
Ritter complementa:
“Precisaríamos de 900 mil a 1,2 milhão de tropas para derrotar fisicamente os iranianos, se pudéssemos. Não acho que possamos. As 4 mil tropas que temos agora? Os iranianos estão dizendo: ‘por favor, tragam-nos’. Porque 4 mil fuzileiros navais, não importa o quão bem treinados, têm zero capacidade de combate quando se trata de afetar significativamente o resultado desta batalha. Nenhuma. Eles vão todos morrer.”
O alerta de Ritter é sinistro.
O Ultimato Que Ninguém Respeita
Enquanto a realidade no terreno se desfaz, Trump recorre ao que sabe fazer: ameaças grandiosas e prazos vazios.
Depois de prometer “fazer voltar o Irã à Idade da Pedra” em duas ou três semanas, depois de dar um ultimato de 48 horas que expirou sem consequência, depois de estendê-lo para cinco dias para “negociações” que nunca existiram, Trump agora chama os iranianos de “bastardos loucos” e estabeleceu um novo prazo: terça-feira, 7 de abril.
A exigência é a mesma: abrir o Estreito de Ormuz. A consequência da ameaça é a mesma: “o uso da força extrema”. Mas há um problema: o Irã não está mais respondendo aos sucessivos ultimatos de Trump, tal o descrédito do que ele diz. Até porque o Irã já resolveu a questão do Estreito de Ormuz por conta própria.
Mas falando ainda do “último ultimato”, a CNN reportou a pouco, hora de Brasília, que Trump declarou que ” Os EUA vão embora, com acordo com o Irã ou não”, em duas ou três semanas. Vexatório. Esse homem não tem a menor ideia do que fala ou faz. PolitikBr já noticiou isso em vários artigos.
O Irã Libera a Passagem — Para Quem Não é Inimigo
Enquanto Trump grita e ameaça, chama os iranianos de “bastardos loucos” e depois se noticia que ele deve “ir embora em duas a três semanas”, o governo iraniano toma medidas concretas que desmontam a narrativa do “bloqueio total”.
No sábado (4/4), o Ministério da Agricultura do Irã anunciou a aprovação da passagem de navios que transportam ajuda humanitária e insumos essenciais pelo Estreito de Ormuz. A decisão, apoiada pelo governo iraniano e pelas forças armadas, permite a passagem de embarcações que transportem produtos básicos, itens vitais para subsistência e ração animal.
Mais importante: navios comerciais da França, do Japão, de Omã, da Índia e do Panamá já cruzaram o Estreito nos últimos dias.
Três petroleiros operados por uma empresa de Omã, um navio porta-contêineres de propriedade da CMA CGM (França) e um transportador de gás de propriedade da Mitsui O.S.K. Lines (Japão) cruzaram o Estreito desde quinta-feira (2/4).
O navio francês, antes de entrar em águas iranianas, mudou o Sistema de Identificação Automática para “Proprietário França” — uma sinalização clara de sua nacionalidade para as autoridades iranianas. Os petroleiros omanenses fizeram o mesmo.
A mensagem do Irã é clara: o Estreito não está fechado. Está fechado apenas para os Estados Unidos, para Israel e para os aliados beligerantes dos EUA. Para o resto do mundo — incluindo países da OTAN como a França, e o Japão, aliado dos Estados Unidos — a passagem é permitida, mediante as novas regras (pagamento de pedágio de US$ 2 milhões/petroleiro, pagamento em criptomoedas. Antes da agressão americana e israelense a passagem era livre).
O que Trump chama de “bloqueio” é, na verdade, uma operação de controle seletivo que isola os Estados Unidos e os seus aliados beligerantes, enquanto mantém o fluxo de energia para o resto do mundo.
A Piada Trágica
Scott Ritter chama a situação de “piada trágica”. E não é difícil entender o por quê.
- O presidente mente sobre controlar os céus, enquanto os caças americanos são abatidos.
- O presidente dá ultimatos, enquanto o Irã libera a passagem para navios franceses e japoneses.
- O presidente ameaça “força extrema”, enquanto as tropas americanas no terreno não têm um plano de guerra, não têm logística, não têm número suficiente, e estão sendo enviadas para o que Ritter chama de “morte certa”.
- O presidente diz que está negociando, enquanto o Irã nega publicamente qualquer negociação.
E, no meio de tudo isso, americanos estão morrendo. Pilotos estão sendo abatidos. Helicópteros estão sendo alvejados. E o comandante-em-chefe está mais preocupado em parecer forte no Twitter do que em trazer os seus soldados para casa.
Ritter não poupa palavras:
“O que temos é um presidente que abandonou o conceito de lei, o Estado de Direito. Ele diz: ‘Não acredito na lei. Acredito na minha própria moralidade pessoal.’ Problemático. E ele não se importa com o Congresso.”
E sobre Pete Hegseth, o secretário de Guerra que promove cultos de oração no Pentágono pedindo “violência esmagadora”:
“Pete Hegseth seria demitido como oficial de operações de qualquer batalhão em que servisse por metade das coisas que fez aqui. Ele é um desgraçado. Uma desgraça para a profissão que um dia serviu. Uma desgraça para a profissão que ele ostensivamente lidera hoje.”
Esse artigo foi baseado em:
- Daniel Davis / Deep Dive: SCOTT RITTER: We Don’t Control the Skies Over Iran! (05/04/2026)
- Agência Brasil: Navios japoneses, franceses e de Omã cruzam o Estreito de Ormuz (03/04/2026)
- Brasil de Fato: Irã libera passagem humanitária e de nações amigas no Estreito de Ormuz (04/04/2026)
- PolitikBr: “SUAS MÃOS ESTÃO CHEIAS DE SANGUE”: O Papa Rebate a Teologia da Guerra de Trump e Hegseth (05/04/2026)
- PolitikBr: A Volta à Idade da Pedra (02/04/2026)
- PolitikBr: O Comandante do Caos (30/03/2026)
- CNN Brasil: Trump: “EUA vão embora, seja com acordo do Irã ou não” (05/04/2026)

