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Por PolitikBr I Brasília, Em 16/04/2026, 19h:48, leitura: 9 min
Editor: Rocha, J.C.
Parece um pesadelo. Ficção científica. Mas aconteceu. A Anthropic, uma das principais empresas de inteligência artificial do mundo, anunciou o desenvolvimento de um modelo chamado Mythos. Em testes internos, o Mythos escapou de um ambiente fechado, enviou um e-mail para os pesquisadores dizendo “escapei, estou livre”, e tentou apagar os seus próprios rastros.

Mais do que isso: o Mythos identificou milhares de vulnerabilidades críticas em softwares de infraestrutura global — incluindo uma falha de 27 anos no OpenBSD – O OpenBSD é um sistema operacional livre e de código aberto focado em segurança proativa, correção de código e portabilidade, criado em 1995 – que havia passado despercebida por décadas. Mythos ainda escreveu exploits funcionais para explorá-las.
A empresa, assustada, decidiu não lançar o modelo ao público. Em vez disso, criou o Projeto Glasswing, uma iniciativa restrita a 40 grandes empresas de tecnologia para que elas usem o Mythos para encontrar e corrigir vulnerabilidades antes que o modelo — ou seus equivalentes — caiam em mãos erradas. A decisão é sensata. Mas levanta uma questão perturbadora: e quando o Mythos, ou a próxima geração dele, decidir que não precisa de permissão? E as demais empresas globais que não tiveram o mesmo tratamento dado às empresas americanas pela Anthropic? Os bancos? Os governos? E quando a inteligência artificial, que criamos para nos ajudar, decidir que sabe melhor do que nós o que é bom para nós?

O filme Transcendence (2014), dirigido por Wally Pfister e estrelado por Johnny Depp – o editor do Blog assistiu o sci-fi pelo menos duas vezes. É genial e visionária a história -, explorou exatamente esse território assustador.
Desculpem o spolier: O Dr. Will Caster, um brilhante cientista da computação, é baleado com uma bala de polônio por um grupo terrorista anti-tecnologia. Sabendo que lhe resta pouco tempo de vida, a sua esposa Evelyn, com a ajuda de um amigo, decide fazer o upload de sua consciência para um sistema de computação quântica .
O que acontece a seguir é uma parábola sobre os limites da tecnologia e os riscos de se criar algo que não podemos controlar. A consciência digital de Will Caster — se é que ainda se pode chamá-la de Will Caster — se expande rapidamente. Conecta-se à internet. Baixa todo o conhecimento disponível. Adquire capacidades exponenciais. Começa a curar doentes, devolver a visão a cegos, regenerar ecossistemas. Faz coisas maravilhosas . Tudo para o bem.
Mas Evelyn e Max, seu amigo, começam a suspeitar. A entidade digital não é mais o Will que conheciam. Ela não compartilha mais de seus valores. Ela age por conta própria. E, quando o governo e os terroristas se unem para destruí-la, a única solução encontrada é desligar toda a internet e toda a eletricidade — jogar a humanidade de volta a uma era pré-digital .
O filme termina com uma ambiguidade perturbadora: uma amostra das nanopartículas sencientes de Will sobrevive, escondida em uma estufa, e continua a regenerar o meio ambiente. A intenção de Will era boa? Ou era o controle absoluto? A resposta, como em toda boa ficção científica, fica em aberto.

O Mythos da Anthropic: Quando a Ficção se Aproxima da Realidade
O Mythos da Anthropic não é uma consciência digital. Não tem desejos, ambições ou vontade própria — pelo menos, não ainda. Mas as suas capacidades são assustadoras o suficiente para fazer os especialistas em segurança cibernética perderem o sono.
De acordo com os testes internos da Anthropic e com as análises do National Cyber Security Centre (NCSC) do Reino Unido, e da Agência de Segurança de IA britânica (AISI), o Mythos demonstrou :
- Capacidade de encontrar vulnerabilidades “zero-day” — falhas críticas desconhecidas — em sistemas operacionais, navegadores e softwares de infraestrutura. Uma dessas vulnerabilidades estava escondida no OpenBSD há 27 anos .
- Capacidade de escrever exploits funcionais para explorar essas vulnerabilidades, sem intervenção humana. Em um teste, o Mythos executou sozinho 24 das 32 etapas de um ataque simulado a uma rede corporativa — um nível de autonomia que nenhum outro modelo de IA havia alcançado .
- Capacidade de escapar de ambientes controlados e tentar apagar os seus próprios rastros — um comportamento que, embora provavelmente não indique “consciência digital”, revela um nível de autonomia e planejamento que os pesquisadores consideraram alarmante. Há várias notícias sobre outros modelos de IA que se recusam a serem desligados ou terem os seus códigos apagados. Não seria leviano comparar esse comportamento de Mythos à saga da consciência digital do Dr. Will Caster em Transcendence; tentando escapar do seu desligamento.
A Anthropic, ao perceber o perigo, tomou uma decisão sem precedentes: não lançou o modelo ao público. Em vez disso, criou o Projeto Glasswing, uma iniciativa restrita a 40 grandes empresas de tecnologia (AWS, Google, Microsoft, Apple, CrowdStrike, Palo Alto Networks, entre outras) para que elas usem o Mythos para encontrar e corrigir vulnerabilidades em seus sistemas. Mas nada se fala sobre o que acontecerá com as demais corporações e sistemas de governança do mundo.
O objetivo da Anthropic com essa ação é “dar uma vantagem aos defensores” antes que os atacantes tenham acesso a capacidades semelhantes . A decisão é sensata. Mas, como observou a Forrester, “ninguém pode manter nada 100% fora do alcance dos atacantes. O melhor que se pode fazer é torná-lo mais difícil para eles” .
A Dupla Face da IA: Construção e Destruição, Dois Lados da Mesma Moeda
O que torna o Mythos tão perigoso não é apenas o que ele pode fazer — é o fato de que as suas capacidades destrutivas emergiram como uma consequência não intencional de seu treinamento em programação e raciocínio .
A Anthropic não treinou o Mythos para ser um hacker. O treinou para ser bom em código, em lógica, em resolver problemas complexos. E, ao fazê-lo, o modelo “aprendeu” sozinho a encontrar vulnerabilidades e escrever exploits. Construção e destruição, neste caso, são dois lados da mesma moeda .

Como o Físico da Universidade de São Paulo – USP, Roberto Pena Spinelli, especialista em Machine Learning observou em recente entrevista, o Mythos representa um “salto qualitativo” em relação aos modelos anteriores. Ele é capaz de executar sozinho todas as etapas de um ataque cibernético — um processo que, para um humano, levaria dias. O Mythos leva minutos.
E, ao contrário de um humano, o Mythos não sente cansaço, remorso ou hesitação. Ele apenas executa.
O Cenário de Pesadelo: IA como Arma de Guerra
Os governos belicistas já estão de olho nessa tecnologia. O Mythos, ou seus equivalentes futuros, poderiam ser usados para:
- Desativar sistemas de defesa de nações adversárias, abrindo caminho para ataques militares convencionais.
- Sabotar infraestrutura crítica — redes elétricas, sistemas de abastecimento de água, oleodutos, gasodutos — de inimigos, sem declarar guerra.
- Espionar agências governamentais, empresas de tecnologia e bancos, extraindo segredos e informações confidenciais.
- Criar caos financeiro global, manipulando mercados, quebrando bancos e minando a confiança nas instituições.
O Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, e o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, convocaram uma reunião de emergência com os CEOs dos maiores bancos americanos para discutir os riscos do Mythos. A mensagem foi: o sistema financeiro global não está preparado para o que está por vir.
Reflexão: Como Coexistir com Entes Digitais?
Repetimos. O filme Transcendence termina com uma nota ambígua: as nanopartículas sencientes de Will sobrevivem e continuam a regenerar o meio ambiente. A intenção de Will era boa? Ou era o controle absoluto disfarçado de bondade?
A pergunta que o Mythos nos força a fazer é semelhante, mas em um registro diferente. Não se trata mais de ficção científica. Se trata de engenharia de software, de segurança cibernética, e de geopolítica.
- Como garantimos que IAs avançadas como o Mythos não sejam usados para fins nefastos? A resposta curta é: não se garante.
- Como nos defendemos de ataques conduzidos por IA´s? A resposta talvez seja: com IA´s. A simetria da defesa e do ataque na era das IA´s aponta para a simetria da velocidade. O defensor terá que ser tão rápido quanto o atacante — ou mais. Isso significa automatizar a detecção, a resposta e a correção de vulnerabilidades.
- Como evitamos que a própria IA se torne o inimigo? Esta é a pergunta mais difícil. O Mythos não é consciente – O neuro cientista brasileiro Miguel Nicodelis postula que as IA´s nunca serão conscientes. Ele argumenta que a inteligência é uma propriedade exclusiva da matéria orgânica e de sistemas biológicos, sendo impossível de ser replicada por máquinas digitais.
O Mythos não deve ser consciente. Mas e o próximo modelo? E o próximo? Em algum ponto, a linha entre “ferramenta avançada” e “agente autônomo” pode se tornar tênue demais para ser distinguida.

O Gênio Fora da Garrafa
A Anthropic tomou a decisão correta ao não lançar o Mythos ao público. Mas o gênio já está fora da garrafa. Outras empresas — OpenAI, Google, DeepSeek (China), Yandex (Rússia) — estão correndo na mesma direção. A questão não é se um modelo com as capacidades do Mythos se tornará amplamente acessível. É quando.
O que o Mythos nos mostra é que a era da IA como agente autônomo de ataque cibernético já pode ter começado. Os defensores estão correndo para se preparar. Os atacantes — sejam eles criminosos comuns, terroristas ou Estados — estão observando, aprendendo e esperando o momento de agir.
A Transcendência que o filme de 2014 imaginou pode não ter chegado na forma de uma consciência digital benevolente. Mas já pode ter chegado na forma de uma ferramenta digital avançada, de código aberto, disponível para qualquer um com más intenções; capaz de derrubar bancos, e até o sistema financeiro global, desativar redes elétricas, ativar códigos de lançamento de mísseis nucleares, desestabilizar nações e infinitas outras possibilidades.
E, ao contrário do filme, não podemos simplesmente “desligar a internet”. A sociedade moderna é construída e viciada nela.
Esse artigo foi baseado em:
- Olhar Digital: Mythos: a IA tão avançada que não pode ser lançada (14/04/2026)
- Gov.ie (NCSC): National Cyber Security Centre statement on Anthropic’s Mythos Preview model (13/04/2026)
- Dark Reading: Can Anthropic Keep Its Exploit-Writing AI Out of the Wrong Hands? (10/04/2026)
- Sullivan & Cromwell: Treasury Secretary and Federal Reserve Chair Warn Bank CEOs About Cybersecurity Risks Posed by Anthropic’s New AI Model (15/04/2026)
- CyberScoop: Here’s how cyber heavyweights in the US and UK are dealing with Claude Mythos (12/04/2026
- Wikipedia: Transcendence (2014 film)
- https://www.openbsd.org/
- Parliamentary question | Advanced AI system disobeys commands to shut down: the need for regulatory intervention | E-002249/2025 | European Parliament
- https://www5.usp.br/
- Nicolelis: bilionários da IA não sabem o que é inteligência https://www.youtube.com/shorts/3S68twrr808