SCOTT RITTER: O Bloqueio de Trump é uma Piada

Scott Ritter a Daniel Davis: “O bloqueio de Trump – em Omuz – é uma piada.

Internacional, Geopolítica, Economia

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Por PolitikBr I Brasília, Em 15/04/2026, 19h:31, leitura: 8 min

Editor: Rocha, J.C.

Donald Trump ameaçou impor um bloqueio naval ao Irã. Disse que iria “estrangular” a economia iraniana, impedir a passagem de petroleiros, forçar Teerã a se render.

Scott Ritter, ex-oficial de inteligência do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, consultor em segurança energética, é um dos mais credenciados para explicar porque o bloqueio naval anunciado por Trump é uma impossibilidade logística.

Os navios de guerra americanos não podem se aproximar do Estreito de Ormuz — os mísseis e drones iranianos os afundariam. Em mar aberto, a marinha dos EUA não tem navios suficientes para patrulhar uma área tão vasta. E, como o jornalista Elijah Magnier confirma, petroleiros iranianos e chineses já estão cruzando o estreito sem impedimentos. O “bloqueio” que devia ser o golpe final – na distorcida visão de Trump – é, nas palavras de Ritter, “uma piada”.

A guerra contra o Irã já dura 47 dias. Os objetivos declarados — mudança de regime, fim do programa de mísseis, desmantelamento do programa nuclear iraniano, abertura do Estreito de Ormuz — não foram alcançados. As bases americanas no Golfo foram destruídas. Os caças F-35 e F-15, drones Reaper, helicópteros e outras aeronaves foram abatidos. As defesas aéreas iranianas continuam ativas. A ilha de Kharg continua nas mãos do Irã; e ele lucra, mais do que nunca com a venda de petróleo. E agora cobra um pedágio de US$ 2 milhões/petroleiro – se projeta que o Irã deve ter uma receita de até US$ 80 bilhões/ano -, pela passagem livre por Ormuz, que está fechado somente ao consórcio EUA/Israel e outras nações beligerantes. Antes Ormuz era livre e nenhum pedágio era cobrado.

Encurralado, Trump recorreu ao que sabe fazer: ameaças grandiosas. Desta vez, anunciou um bloqueio naval ao Irã. A ideia, em teoria, era simples: impedir que petroleiros e outros navios saissem do Estreito de Ormuz se tivessem pago os US$ 2 milhões de dólares, no caso de petroleiros, que ele classifica como “extorsão”, enquanto os iranianos veem o “pedágio agora imposto” como fonte financeira para a reconstrução do país, fruto da destruição causada pelos Estados Unidos e Israel.

Trump tenta estrangular a economia iraniana porque não conseguiu alcançar nenhum dos objetivos da guerra de “no máximo 4 dias” que Netanyahu “vendeu pra ele”. Ele delira que pode forçar Teerã a se render, o que é um completo disparate para um povo sancionado e sofrido Há 47 anos. Além do mais, há os corredores ferroviários estratégicos da Ásia Central unindo o Irã à Federação Russa, à China e a outros países da região, por onde o Irã recebe produtos e suprimentos militares e exporta o seu petróleo e gás.

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Esse “bloqueio dos EUA”, não interessa a ninguém. Ele é útil só para afagar o ego ferido de um presidente perdido, prepotente e nem nenhuma substância interior, a não ser tripudiar e mentir sem pudor o tempo todo.

Os “ex-aliados europeus” da OTAN, por exemplo, enxergam esse “arroubo” de Trump como implícita declaração de guerra econômica contra a sua segurança energética. Da mesma forma encara a China.

Está claro que quem mais lucra com isso é o próprio Irã, a Rússia e os Estados Unidos, com as suas imensas reservas de óleo, extraídas via o caro e poluente craqueamento hidráulico do xisto betuminoso. Quem não enxerga isso?

A realidade do “bloqueio”, no entanto, como Scott Ritter explica, é bem diferente.

“Não Podemos Chegar Perto de Ormuz”

Ritter começa a sua análise com um fato que a propaganda americana tenta esconder: a marinha dos EUA não pode se aproximar do Estreito de Ormuz.

“Nossos navios não podem chegar nem perto do Estreito de Ormuz, porque uma vez que chegamos perto — e um bloqueio é um ato de guerra — o Irã afundará esses navios.”

A razão é simples. O Irã investiu décadas no desenvolvimento de um arsenal de mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e drones projetados especificamente para negar o acesso ao estreito. As defesas aéreas iranianas continuam ativas. Os mísseis são aos milhares e incluem desde os de curto alcance, os de médio alcance, os terra-mar, e os de longo alcance (até 5000 Km). A força de drones de ataque e vigilância é numerosa e letal, operando em terceira pessoa e guiados até o alvo com precisão.

Qualquer tentativa de impor um bloqueio próximo ao estreito resultaria na perda de navios americanos — algo que a administração Trump, que já sofreu perdas recordes de aeronaves, não está disposta a arriscar.

“Em Mar Aberto, Não Temos Navios Suficientes”

Se o bloqueio não pode ser imposto perto do estreito, talvez possa ser imposto em mar aberto — no Golfo de Omã ou no Mar Arábico. Ritter explica por que isso também é inviável:

“Quantos navios temos disponíveis? 13 navios. Isso inclui um grupo de batalha de porta-aviões. Isso significa que temos um porta-aviões e seus escoltas. Provavelmente entre três e cinco navios dedicados a isso. O porta-aviões está fazendo as suas coisas, os escoltas estão fornecendo uma defesa aérea. Agora estamos olhando para talvez sete, oito navios no máximo para impor um bloqueio.”

O problema é que o mar é grande. Muito grande. O Estreito de Ormuz é um gargalo, mas uma vez que os navios saem do estreito e entram no Oceano Índico, a área a ser patrulhada se torna imensa. Além do mais, os navios podem navegar próximo da costa do Irã, protegido pelo sistema de defesa iraniano, até entrar no Oceano Índico, através da costa do Paquistão.

Oceano grande, navios pequenos, muitos navios transitando. Não vamos fazer nada.”

E, mesmo que a marinha dos EUA conseguisse posicionar os seus navios, há outro problema: os petroleiros que os EUA mais querem interceptar são os chineses. E a China não vai aceitar passivamente que os seus navios sejam parados.

O que vamos fazer? Abordar um navio chinês? Abordar um navio russo?”

A resposta, implícita, é: nada.

A Confirmação de Elijah Magnier: Navios Cruzam Livremente

Enquanto Trump ameaça, a realidade no terreno é outra. O jornalista Elijah Magnier, em entrevista ao canal de Danny Haiphong, confirmou que petroleiros iranianos e chineses já estão cruzando o Estreito de Ormuz sem impedimentos.

Navios iranianos e outros internacionais conseguiram passar, incluindo aqueles que visitaram portos iranianos. A promessa do bloqueio era impedir esses navios. Mas eles atracaram, carregaram carga em portos iranianos, e pelo menos outros três cruzaram o Estreito de Ormuz.”

Magnier também destacou que a China deixou claro que não tolerará qualquer interferência em seus suprimentos de energia:

“A segurança energética representa a linha vermelha para a China. Portanto, os americanos estão agora encurralados entre a necessidade de impor o bloqueio e a impossibilidade de fazê-lo sem enfrentar a China.”

E parece que Trump esqueceu dos Houthis, que entraram na guerra ao lado do Irã. Hoje (15/04) as autoridades iranianas declararam que se o bloqueio continuar eles irão bloquear as exportações de petróleo – oleoduto da Arábia Saudita – pelo Mar Vermelho.

O Fracasso Anunciado

O bloqueio naval de Trump é, como Ritter disse, “uma piada”. Não porque a ideia seja tecnicamente impossível — embora seja —, mas porque a administração Trump não tem os recursos, a vontade política e o apoio internacional para implementá-lo.

Os navios americanos não podem se aproximar de Ormuz. Em mar aberto, não há navios suficientes. Os petroleiros chineses continuarão cruzando, e a China já deixou claro que não aceitará interferência. Os aliados regionais dos EUA, que já sofreram ataques iranianos, não estão dispostos a arriscar as suas economias por mais um ato estúpido fadado ao fracasso.

Ritter resume:

“O bloqueio é uma piada, uma piada completa. O que vamos fazer? Abordar um navio chinês? Abordar um navio russo? Não temos os recursos para fazer isso.”

E conclui:

“A primeira vez que recebermos resistência, Trump vai encontrar uma razão para dizer: ‘Repensei. Eles entraram em contato comigo, conversaram comigo, e vamos recuar nesse bloqueio.”

A Perda de Influência Americana

O fracasso do bloqueio é apenas mais um sintoma de uma tendência mais ampla: a perda de influência americana na região. Magnier observa que os países do Golfo, que antes dependiam dos EUA para a sua segurança, estão agora reavaliando as suas alianças:

“Os americanos perderam sua influência. A Arábia Saudita, o Bahrein, os Emirados — eles estão olhando para outros parceiros. A China está lá. O Irã está lá.”

Os países do Golfo viram o que aconteceu com as bases americanas na região — todas destruídas ou severamente danificadas. Viram que os EUA não conseguiram proteger os seus próprios ativos, muito menos os de seus aliados. E estão agindo de acordo.

O Império se Desfaz

Trump pode continuar ameaçando. Pode postar no Truth Social sobre “navios de guerra carregados com a melhor munição”. Pode chamar os iranianos de “bastardos loucos”. Mas a realidade é teimosa: o bloqueio é uma piada. E o império que um dia dominou os mares agora assiste, impotente, enquanto petroleiros iranianos e chineses cruzam o estreito livremente.

O que resta, como Ritter disse em outra ocasião, é a verdade: “Somos o mau da história.” E o mundo já percebeu.

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