A DUPLA FACE DE TRUMP: Discurso de Guerra, Negociação de Paz

Internacional, Geopolítica, Economia, Política

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Por PolitikBr I Brasília, Em 21/04/2026, 17h:18, leitura: 9 min

Editor: Rocha, J.C.

No dia 02/05/2026, Politikbr irá migrar para o seu endereço web definitivo: https://politikbr.org. Anotem”

Enquanto Donald Trump berra ameaças de “aniquilação” contra o Irã em seus perfis no Truth Social e em entrevistas à imprensa, a realidade nos bastidores das negociações é drasticamente diferente. A portas fechadas, os representantes americanos adotam uma postura “mais complacente”, admitindo recuos e buscando desesperadamente uma saída para o conflito. É o que revela o cientista político russo Konstantin Blokhin em entrevista à Sputnik. “Uma coisa é o que dizem para a mídia, para o público. Outra, completamente diferente, é o que acontece nas negociações reais”, afirma Blokhin.

Enquanto isso, os países do Golfo Pérsico observam com crescente inquietação: as negociações entre os EUA e o Irã estão priorizando o controle do Estreito de Ormuz e o programa nuclear iraniano, deixando de lado as ameaças que mais afetam a segurança dos aliados regionais — os mísseis e drones iranianos, e os grupos armados apoiados por Teerã.

A percepção é de que os aliados dos EUA do Golfo Pérsico estão sendo abandonados por Washington. E que o controle iraniano sobre a rota energética mais importante do planeta se tornará permanente.

Há 53 dias, os Estados Unidos e Israel lançaram uma guerra de agressão contra o Irã sob falsos pretextos. Agora, enquanto Trump continua a ameaçar publicamente, os bastidores das negociações contam uma história bem diferente.

A Dupla Face: “Uma Coisa para a Mídia, Outra para a Sala Fechada”

O cientista político russo Konstantin Blokhin expõe a contradição central da estratégia americana:

“É preciso distinguir duas coisas. Uma coisa é o que dizem para a mídia, para o público, para toda a comunidade internacional. Outra, completamente diferente, é o que acontece nas negociações reais a portas fechadas. Acho que os EUA serão mais complacentes do que aparentam.”

A análise de Blokhin confirma o que a série do PolitikBr já vem documentando há semanas: Trump precisa “salvar a face” para o público americano, que foi alimentado com a narrativa da “vitória rápida” e da “aniquilação do inimigo”. Mas a realidade no terreno — e na mesa de negociações — é a de um agressor que foi derrotado em seus objetivos, e busca desesperadamente uma saída honrosa.

“Os Estados Unidos estão interessados em cessar as hostilidades, sair do conflito e congelá-lo de alguma forma em posições vantajosas. Todos esses acordos não são uma solução para a questão iraniana. São um congelamento do conflito com uns 50-50, ‘nem para vocês nem para nós’.”

A expressão “congelamento do conflito” é reveladora. Os EUA não buscam mais a “vitória”. Buscam uma pausa — um cessar-fogo que lhes permita reorganizar as forças, reabastecer os arsenais e, provavelmente, tentar novamente no futuro. O problema, como o próprio Blokhin aponta, é que o Irã não aceitará um congelamento que não atenda às suas exigências.

Hoje foi publicado pela Sputnik que um cessar-fogo no Oriente Médio é contagem regressiva para um novo conflito. Basta ver o que aconteceu em junho de 2025 quando os EUA e Israel atacaram o Irã, e depois de 12 dias de guerra, com Israel sendo destroçado pelos mísseis e drones iranianos, Netanyahu pediu aos americanos para intermediar um cessar fogo, que foi aceito pelos iranianos.

As sinalizações que a gente tem indicam uma nova escala pelas idas e vindas [do cessar-fogo] e incertezas em relação ao estreito de Ormuz, ao Líbano, aos países do golfo e os Houthis. Então, é questão de tempo para que novos ataques sejam feitos. Isso, sem considerar que Israel não parou de atacar o território libanês”, disse o mestrando em estudos estratégicos internacionais e pesquisador do Núcleo de Pesquisa sobre as Relações Internacionais do Mundo Árabe (NUPRIMA), Rafael Firme.

Leia ainda:

O Alívio das Sanções e a Permanência do Controle de Ormuz

As negociações entre os EUA e o Irã, que deverão continuar em Islamabad, – mas que, em função da apreensão do navio iraniano, em ato de pirataria pelos americanos, pode não acontecer – estão priorizando dois temas principais: o enriquecimento de urânio iraniano e o controle do Estreito de Ormuz.

O que isso significa, na prática, é que os EUA parecem dispostos a aceitar:

  • Que o Irã continue enriquecendo urânio (o que, como John Mearsheimer já apontou, é o direito do Irã sob o TNP)
  • Que o Irã mantenha o controle efetivo do Estreito de Ormuz, inclusive com a cobrança de pedágio

O que os EUA não estão mais exigindo — ou, pelo menos, não estão priorizando — é o desmantelamento do programa de mísseis iranianos e o fim do apoio do Irã à grupos como o Hezbollah, o Hamas e os Houthis. Até porque eles sabem que isso não será aceito pelo Irã.

Os Países do Golfo: Abandonados e Inquietos

A mudança de prioridades nas negociações está causando crescente inquietação entre os países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). Para eles, a ameaça iraniana não se resume ao controle de Ormuz. Ela inclui mísseis capazes de atingir as suas capitais, drones que já bombardearam as suas infraestruturas energéticas, e grupos armados que atuam em todo o Oriente Médio.

A percepção dos aliados dos EUA no Golfo é que Washington está disposto a ignorar essas ameaças, em troca de uma solução rápida para a crise energética global. Um alerta do presidente russo Dmitry Medvedev cristalizou esses temores, ao sugerir que Ormuz se tornou a principal arma estratégica de Teerã — uma espécie de “arma nuclear” geográfica de potencial inesgotável.

Fontes iranianas confirmam essa leitura, afirmando que o país se preparou durante anos para um cenário de fechamento do estreito e que agora o utiliza como instrumento de dissuasão. Uma delas descreveu Ormuz como um ativo “valioso e inestimável”, impossível de ser retirado do Irã por estar enraizado em sua geografia.

“O tabu sobre seu uso foi quebrado. O estreito é como uma espada já desembainhada.”

O Que os Países do Golfo Querem

Segundo diplomatas ouvidos pela Reuters, os países do Golfo pedem cautela a Washington quanto ao alívio das sanções ao Irã, insistindo que as principais ameaças — mísseis e grupos armados apoiados por Teerã — permanecem sem solução.

As economias do Golfo já absorvem os custos da guerra, desde ataques à infraestrutura energética até o aumento de seguros e rotas alternativas vulneráveis. A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait e o Bahrein — todos foram atingidos por ataques iranianos, em resposta aos bombardeios americanos e israelenses. Afinal, admitindo eles ou não, ao abrigarem bases militares americanas, de onde partem forças para ataque ao Irã, eles se tornaram alvos legítimos.

E agora, quando as negociações começam a se concentrar quase que exclusivamente em Ormuz, devido ao impacto econômico global, os países do Golfo sentem que as suas vulnerabilidades estão sendo ignoradas em favor de prioridades externas.

A disputa sobre Ormuz não diz respeito apenas ao controle físico do estreito, mas a quem define as regras de passagem. Essa mudança reflete uma transição de normas internacionais estáveis para arranjos baseados no poder.”

A Convergência com a Série

Este artigo se conecta diretamente com várias peças anteriores da série:

  1. A DUPLA FACE DE TRUMP — Já documentamos como Trump ameaça publicamente (“apagar uma civilização inteira”) enquanto os seus negociadores recuam a portas fechadas. A análise de Blokhin confirma que essa dualidade é uma estratégia deliberada para “salvar a face”.
  2. O PEDÁGIO DE HORMUZ — O controle iraniano sobre o estreito, com a cobrança de US$ 1,00 por barril de petróleo transportado, já foi estabelecido pelo parlamento iraniano. As negociações agora estão apenas reconhecendo uma realidade que já existe no terreno.
  3. O ABANDONO DOS ALIADOS — Os países do Golfo, que foram arrastados para esta guerra ao lado dos EUA, agora estão sendo abandonados. As suas infraestruturas energéticas foram parcialmente destruídas, as suas economias sofrem, e Washington parece estar disposto a fechar um acordo que legitima a hegemonia iraniana sobre a rota energética mais importante do planeta.
  4. A DERROTA AMERICANA — O “congelamento do conflito”, que Blokhin descreve, é a definição clássica de um impasse após uma derrota. Nenhum dos objetivos de guerra foi alcançado. O Irã está mais forte do que antes. E os EUA estão desesperados para sair.

O Império Negocia a Própria Derrota

A imagem que emerge das duas reportagens da Sputnik é a de um império que perdeu a guerra e agora tenta negociar as condições da própria derrota.

Trump continua a berrar ameaças para a mídia, porque precisa manter a ilusão de força para o seu eleitorado. Mas, à portas fechadas, os seus negociadores admitem que não há saída militar. Eles buscam um “congelamento” que lhes permita salvar as aparências — enquanto o Irã consolida o seu controle sobre o Estreito de Ormuz, e mantém os seus programas de enriquecimento de combustível nuclear, e de mísseis intactos.

Os países do Golfo, que confiaram na promessa americana de proteção, agora assistem, impotentes, à sua própria marginalização.

O império da pirataria não apenas perdeu a guerra. Perdeu a confiança de seus aliados. E a história, como sempre, não esquecerá.

Esse artigo foi baseado em:

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