“VAMOS EMBORA, COM OU SEM ACORDO”: Trump Anuncia a Debandada da Guerra

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Por PolitikBr I Brasília, Em 06/04/2026, 19h:32, leitura: 13 min

Editor: Rocha, J.C.

O mesmo presidente que prometeu “vitória em quatro dias” e depois “fazer voltar o Irã à Idade da Pedra” agora anuncia: os Estados Unidos vão embora. Em duas ou três semanas. Com acordo ou sem acordo. E quem depende do petróleo do Golfo — europeus e asiáticos — “que se entenda com o Irã”. A declaração, reproduzida pela CNN Brasil neste domingo (05/04), é o atestado de derrota mais explícito de toda a guerra. Resta saber se é uma decisão real ou mais uma manipulação de mercado. Mas uma coisa é certa: se essa notícia tem fundamento, Israel estaria em vias de ser abandonado à própria sorte. E isso não parece ser o caso, até porque Israel é agora a única base avançada dos EUA no Oriente Médio.

Há 41 dias, Donald Trump lançou os Estados Unidos em uma guerra de agressão contra o Irã em apoio a Israel. O pretexto era uma “ameaça nuclear iminente aos Estados Unidos” que nunca existiu. O objetivo declarado, que mudava a cada semana, incluía “mudança de regime”, “desarmamento” e “abertura do Estreito de Ormuz pela força”. Nada disso foi alcançado.

Nesse domingo que passou, no 40º dia, Trump disse que os EUA vão embora, isto é, dar por terminada a guerra contra o Irã. A questão é se é possível acreditar em qualquer coisa que o Presidente dos Estados Unidos fala.

A notícia, divulgada pela CNN Brasil, é baseada em declarações da Casa Branca e do próprio presidente. O resumo é este:

  • Os EUA vão encerrar a guerra em duas a três semanas, independentemente de haver um acordo com o Irã ou não.
  • Quem depende do petróleo e do gás do Golfo — especialmente os europeus — “que se responsabilize pela crise”, que Trump e Netanyahu criaram.
  • Os EUA não estarão mais lá para ajudar os aliados que dependem da energia da região.
  • O ressentido secretário de Defesa, Pete Hegseth, colocou em dúvida se os EUA agiriam em defesa da Europa em caso de ataque — questionando o Artigo 5º da OTAN. Trump recebeu um NÃO dos aliados europeus para entrar nessa guerra insana e sem propósito, a não ser atender aos interesses mesquinhos de Israel.

A declaração foi um terremoto geopolítico. Mas, como tudo o que vem de Trump, carrega ambiguidades e mentiras, o que ele declarou pode ser uma decisão real, fruto do desespero; pode ser mais uma manipulação de mercado, destinada a acalmar os investidores antes da abertura dos mercados na segunda-feira. O histórico do presidente sugere que ambas as hipóteses são plausíveis.

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Para entender por que Trump está dizendo isso agora — seja verdade ou blefe — é preciso olhar para o quadro que se desenhou nos últimos 40 dias.

No campo militar, a realidade é implacável. Como revelou o analista em geopolítica e ex-inspetor de armas da ONU, Scott Ritter, os EUA não controlam os céus do Irã. Caças F-35, F-15, helicópteros e drones reaper foram abatidos pelo Irã. As defesas aéreas iranianas continuam ativas. E, mais grave: não há um plano de guerra. “Estamos fazendo tudo isso enquanto avançamos”, disse Ritter. “É uma piada trágica.”

No campo econômico, os números são aterradores. O preço da gasolina nos EUA chegou a US$ 4 – 6 por galão — a última vez que isso aconteceu foi em 2022, e naquela ocasião custou ao ex- presidente Joe Biden a sua popularidade. Mas o número mais perigoso está no mercado de títulos: o rendimento dos títulos do Tesouro americano de 10 anos está girando em torno de 5%. Esse nível de juros sinaliza perda de confiança na capacidade dos EUA em honrar o serviço da sua, já insustentável, dívida de US$ 40 trilhões. A cada 1% de aumento nos juros, o serviço da dívida aumenta em centenas de bilhões de dólares por ano.

No campo diplomático, a Europa já está agindo por conta própria. O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que é “irrealista” abrir o Estreito de Ormuz pela força. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, reuniu mais de 40 paísesexcluindo os EUA — para discutir como reabrir a rota. A França, o Japão, Omã, a Índia e o Panamá já cruzaram o Estreito com a permissão do Irã. Apenas navios ligados aos EUA e a Israel continuam barrados.

No campo político, a base de Trump está se voltando contra ele. A renúncia do diretor de Contraterrorismo Joe Kent foi um terremoto – O IMPÉRIO RACHADO: Chefe Antiterrorista dos EUA Renuncia e Denuncia a Mentira da Guerra. Mais de 9 milhões de pessoas foram às ruas nos protestos de 28 de março. As pesquisas mostram a aprovação de Trump na casa dos 33% a 38%. E as eleições de novembro se aproximam.

O New York Times publicou que Trump comete crimes de guerra no Irã e se regozija. “Terça-feira será o Dia das Usinas de Energia e o Dia das Pontes — tudo ao mesmo tempo — no Irã. Não haverá nada igual!!!” . O Presidente assim se revela um sociopata dos mais cínicos e covardes.

A publicação ainda destaca que não se tratam de alvos com possível uso militar. O próprio presidente afirmou que atingiria “cada uma” das usinas de energia do país, “provavelmente de forma simultânea”. Após um ataque a uma ponte nas proximidades de Teerã, ele celebrou nas redes sociais: “Há muito mais por vir!”. Segundo as autoridades iranianas citadas no texto, o bombardeio deixou ao menos 13 mortos e 95 feridos. O Secretário Hegseth deve ter ficado eufórico com mais essa mortandade de civis“SUAS MÃOS ESTÃO CHEIAS DE SANGUE”: O Papa Rebate a Teologia da Guerra de Trump e Hegseth.

Trump, que sempre se viu como o “negociador”, está fazendo as contas: sair agora, mesmo sem acordo, pode ser menos doloroso do que continuar e assistir à implosão da economia americana, a derrota militar e o término, na prática, de seu mandato – com um provável impeachment – se ele perder as eleições de novembro.

“Quem Precisa de Petróleo Que Se Entenda com o Irã”

A frase mais reveladora de Trump — reproduzida pela CNN — é também a que mais expõe a sua visão de mundo: outros países que dependem do petróleo e gás do Golfo “que se responsabilizem” e “criem coragem para buscar o seu próprio petróleo, pois os Estados Unidos não estarão mais lá para ajudá-los”.

Mas há um problema: os EUA também dependem do petróleo global, que é uma commodity. O preço da gasolina nos postos americanos é afetado pelo preço do barril no mercado internacional.

Se o Estreito de Ormuz continuar bloqueado para os navios que abastecem o mercado global — mesmo que indiretamente — o preço do petróleo nos Estados Unidos seguirá elevado, independente se o produto é importado ou não. E o preço da gasolina, e dos produtos derivados da cadeia produtiva do petróleo, vão continuar subindo.

Trump pode até dizer que não se importa com os europeus. Mas ele se importa com os eleitores americanos que estão pagando US$ 4 a 6 por galão. E se o preço subir mais ainda, o partido republicano perderá as eleições de meio de mandato.

A respeito dessa provável derrota em novembro, já se fala que Trump pode tentar um golpe de Estado – Trump está tramando golpe de estado, diz historiador dos EUA e professor da Universidade de Yale – , à semelhança do que foi tentado quando da derrota para Joe Biden e, da mesma forma que tentou o extremista Jair Bolsonaro, no Brasil, ao ser derrotado, nas eleições de 2022, pelo Presidente Lula.

A Reação Iraniana: Mais Ameaças, Mais Pressão

Enquanto Trump anunciava a retirada, a Guarda Revolucionária Iraniana emitia um comunicado que não pode ser ignorado. O grupo citou nominalmente 18 empresas americanas — incluindo Microsoft, Google, IBM, Tesla e Boeing — que podem vir a ser atacadas no Oriente Médio.

A Guarda Revolucionária afirmou que os funcionários e aqueles que vivem em um raio de até um quilômetro das empresas devem deixar a região. É uma ameaça direta à presença econômica americana — e uma demonstração de que o Irã não pretende baixar a guarda só porque Trump anunciou que vai embora.

A Casa Branca respondeu que está “pronta para impedir qualquer tipo de ataque do Irã”. Mas a pergunta é óbvia: com que bases? Com que mísseis? Com que tropas? A mesma administração que não conseguiu controlar os céus do Irã agora promete proteger escritórios da Microsoft e da Google no Oriente Médio?

A Hipótese da Manipulação de Mercado

Aqui, é preciso fazer uma pausa e considerar a possibilidade mais óbvia: Trump está mais uma vez blefando.

O padrão já é conhecido. Trump ameaça, o mercado reage, Trump recua, o mercado reage novamente. Os investidores que acompanham os seus movimentos já aprenderam a não acreditar em nada do que ele diz até que vejam ações concretas.

O anúncio de que os EUA vão embora “em duas ou três semanas” — um prazo genérico, sem data definida — pode ser exatamente isso: destinado a acalmar os mercados e fazer o preço do petróleo cair; e dar a Trump a aparência de que ele está “resolvendo” a crise que ele próprio criou.

Não custa lembrar que Trump, na semana passada, disse que os EUA atacariam o Irã com “força extrema” nas próximas duas ou três semanas. Agora, diz que os EUA vão embora nas próximas duas ou três semanas. A contradição é evidente. Mas para Trump, contradições não são problemas.

Portanto, é possível que, no próximo pronunciamento, Trump mude o tom novamente. Pode ser que anuncie mais “três semanas” de bombardeios. Pode ser que invente uma nova “negociação” com o Irã. Pode ser que simplesmente ignore tudo o que disse ontem.

Uma coisa é certa: não dá para confiar em uma única palavra que sai da boca de Trump.

O Que Está em Jogo

Se Trump realmente cumprir o que disse — se os EUA realmente se retirarem da guerra em duas ou três semanas, com ou sem acordo, mas sem a celebração de um Plano de Paz como exige os iranianos — as consequências serão imensas, mas não definitivas:

  1. O Irã sairá vitorioso. Terá resistido à maior potência militar do mundo por mais de um mês, terá estabelecido um novo regime de passagem no Estreito de Ormuz (com pedágio de US$ 2 milhões por petroleiro), terá demonstrado capacidade de abater ativos militares americanos ao abater os mais avançados caças, como o F-35, o F-15 e helicópteros Black Hawk, além de ter destruído praticamente todas as bases militares americanas por todo o Golfo Pérsico. O Irã ainda terá consolidado a sua posição como potência militar regional dominante. em desafio direto à Israel. Até porque ele já deve ter estabelecido a capacidade de dissuasão nuclear que tanto os EUA e Israel temiam – Idas e Vindas: Trump Anuncia Força Extrema Contra o Irã nas Próximas 2 ou 3 Semanas.
  2. Israel ficará isolado. Sem o escudo americano, Israel terá que lidar sozinho com o Hezbollah, o Hamas, os Houthis e o Irã. As suas defesas aéreas estão exauridas. O seu exército está à beira do colapso e a sua população está exausta. A última cartada de um “ataque nuclear contra o Irã” parece não amedrontar os iranianos. E nós sabemos o porquê.
  3. A Europa terá que negociar diretamente com o Irã. Sem os EUA, os europeus serão forçados a reconhecer o Irã como o “guardião do Estreito” e a aceitar as suas condições para a passagem de navios.
  4. O preço do petróleo continuará alto. Mesmo que o Estreito reabra para os navios europeus e asiáticos, o controle iraniano sobre a rota significa que o preço do barril não voltará aos níveis anteriores à guerra. A inflação global continuará pressionada.
  5. A credibilidade americana estará em frangalhos. Os aliados dos EUA no mundo inteiro — da Ucrânia a Taiwan, da Arábia Saudita ao Japão — terão assistido a um presidente que prometeu “proteger” os seus aliados e depois os abandonou no momento mais crítico.

A Debandada do Império

A declaração de Trump — “vamos embora, com acordo ou sem acordo” — é um atestado de derrota, se cumprido. Entretanto, se trata de um provável blefe.

Como atestado de derrota, será a confissão mais honesta de toda a sua presidência: a guerra não pode ser vencida. Os caças estão sendo abatidos. As defesas iranianas continuam ativas. Não há plano. A economia está à beira do colapso. O único caminho é sair.

Como blefe, é uma tentativa de manipular os mercados, de dar a Trump a aparência de controle, de comprar tempo. Mas blefes funcionam apenas enquanto o adversário não os descobre. E o Irã já descobriu que os EUA não têm mais cartas para jogar.

A história, como sempre, é mais teimosa que a propaganda. E a história já está escrevendo o epitáfio desta guerra: uma mentira contada por um presidente desmiolado, executada por um secretário de Guerra fanático, e paga com o sangue de soldados americanos e civis iranianos.

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