Idas e Vindas: Trump Anuncia Força Extrema Contra o Irã nas Próximas 2 ou 3 Semanas

Internacional, Geopolítica, Economia

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Por PolitikBr I Brasília, Em 02/04/2026, 20h:05, leitura: 15 min

Editor: Rocha, J.C.

O mesmo homem que prometeu vencer a guerra contra o Irã em quatro dias, e que depois declarou que a guerra já estava vencida, agora anuncia que os Estados Unidos continuarão atacando o Irã, com “força extrema”, durante as próximas duas a três semanas, mencionando o objetivo de “levá-los de volta à Idade da Pedra”.

Será que Trump pensa que os Iranianos ficarão assistindo a destruição do seu país sem amplificar ao extremo a destruição que vem causando tanto a Israel quanto ao restante do Golfo? Sim. Até porque os ativos militares americanos no Golfo foram todo ou quase todo destruído. Então, essas menções bombásticas são tamanhas, que já não podem ser mais deslizes. É método.

Trump parece tentar manipular, de alguma maneira, os mercados com essas ameaças. Ora dá 48 horas para destruir a infra estrutura do Irã. Depois 5 dias, depois 10 dias e, agora ele diz que vai continuar por mais 2 a 3 semanas – lembrando que ele enviou um plano de 15 pontos para um cessar fogo, e que foi rejeitado pelo Irã – ; e o que ele consegue é derrubar as bolsas, manter o preço do GNL e do petróleo em tetos insustentáveis para a economia mundial, e que, se traz algum benefício, traz à Rússia e ao próprio Irã.

Enquanto isso, a Europa o ignora e articula uma saída própria à disparada dos preços do petróleo, os Houthis entram na guerra ao lado do Irã, e a única certeza que se tem é que Trump não tem a menor ideia do que está fazendo.

No dia 28 de fevereiro, Donald Trump anunciou ao mundo que os Estados Unidos e Israel lançariam uma operação cirúrgica contra o Irã. A guerra, prometeu, duraria no máximo quatro dias. Seria uma vitória retumbante.

No dia 1º de abril — data que, não por acaso, é o Dia da Mentira — Trump voltou ao púlpito do Salão Oval para um pronunciamento à nação. E o que ele disse? Que os Estados Unidos atacarão o Irã com“força extrema” nas próximas duas a três semanas. Que vão “fazê-los voltar à Idade da Pedra, onde pertencem”.

Trinta e quatro dias depois do início da guerra, o presidente que prometeu vitória em quatro dias agora promete… mais três semanas de bombardeios. E, como se a contradição não fosse grotesca o suficiente, ele já havia declarado, repetidas vezes, que a guerra estava “vencida”.

O que está acontecendo? Nada que a série de artigos do PolitikBr já não tenha documentado: um presidente que mente de forma compulsiva, um império em frangalhos, uma estratégia que não existe, e um mundo que já não acredita mais em nada do que sai da boca de Trump.

Duas a Três Semanas: A Contradição como Método

A declaração de Trump é um atestado de desespero. Se a guerra está vencida, por que bombardear por mais três semanas? Se o Irã está “ajoelhado” (outra expressão favorita de Trump), por que é preciso “força extrema”? Se os Estados Unidos controlam o céu, por que o Estreito de Ormuz continua fechado e aviões são abatidos?

A resposta, como analisamos no artigo “O Comandante do Caos”, é que Trump não tem a menor ideia do que está acontecendo. Seus briefings de guerra, segundo revelações, são feitos com “vídeos de coisas explodindo”. Ele confunde termos, altera narrativas em tempo real, contradiz declarações feitas minutos antes.

O jornalista Lawrence O’Donnell sintetizou o absurdo: Trump “soa como uma criança mimada tentando negociar a saída de uma guerra que ele mesmo começou”. E Jesse Dollemore foi mais direto: “Ele não está apto… certamente não é o comandante-chefe”.

A mitomania de Trump — a mentira compulsiva que foge do controle e se torna padrão persistente — não é mais um traço de personalidade. É uma variável geopolítica. Como mostra um estudo da Texas Woman’s University, a mentira comum tem um objetivo claro; na mitomania, as mentiras ocorrem de forma repetitiva, muitas vezes sem ganho evidente. O que ganha Trump ao dizer que a guerra está vencida e, no mesmo dia, anunciar três semanas de bombardeios? Nada. A não ser a confirmação de que não está no controle e que, na verdade, quer iludir o povo americano apostando na desinformação e na mentira. Uma das principais armas de manipulação de massas da extrema direita.

A Europa Diz Não: Macron e Starmer Ignoram Trump

Enquanto Trump ameaça e se contradiz, a Europa tomou uma decisão que, em qualquer outro momento histórico, seria impensável: articular uma saída para a crise do Estreito de Ormuz sem os Estados Unidos.

O presidente francês, Emmanuel Macron, foi direto: “Algumas pessoas defendem a ideia de libertar o Estreito de Ormuz pela força, por meio de uma operação militar, uma posição às vezes expressa pelos Estados Unidos… Esta nunca foi a opção que apoiamos porque é irrealista. Levaria uma eternidade e exporia todos os que passam pelo estreito a riscos”. Bingo. Uma voz sensata. Mas, nas entrelinhas, de desafio e crítica, mais que direta, à abordagem belicista de Trump, em um momento crítico em que o mundo todo percebeu que os Estados Unidos e Israel foram derrotados. E que não há alternativa plausível para o fim dessa insanidade a não ser pela via da negociação e, em termos justos e duradouros para o Irã, como ele exige. Uma quebra de paradigma de poder e da geopolítica, precipitado pela desastrosa guerra de Trump.

A declaração de Macron, portanto, é uma admissão implícita de que a estratégia americana fracassou. E ele é uma das vozes fortes da União Europeia. Se a maior potência militar do mundo não consegue abrir o estreito, e a França diz que é “irrealista” tentar, o que resta? Negociar de boa fé. Será isso impossível para os Estados Unidos? Negociar de boa fé?

O Reino Unido foi ainda mais longe. Keir Starmer anunciou que vai reunir 35 países — excluindo os Estados Unidos — para discutir como reabrir o Estreito de Ormuz. Mais um desafio à Trump. A reunião, que ocorre nesta quinta-feira (02/04), reunirá a França, a Alemanha, a Itália, a Holanda, a Austrália, o Japão, o Canadá, a Coreia do Sul, a Nova Zelândia, os Emirados Árabes Unidos, a Nigéria e outros países.

O convite explícito aos Emirados — que estão se preparando para entrar na guerra ao lado dos EUA — é um movimento complexo. Mas o fator central é inequívoco: os EUA não foram convidados. A Europa está agindo por conta própria.

Trump, como era de se esperar, reagiu com petulância. Em uma postagem nas redes sociais, sugeriu que o Reino Unido “crie coragem, vá até o Estreito e simplesmente TOME” o petróleo. A infantilidade da declaração — como se “tomar” o Estreito de Ormuz fosse uma questão de coragem, e não de capacidade militar — é um reflexo do quanto Trump subestima a complexidade da situação que ele mesmo criou. Quem é mesmo que usou a palavra “infantil”? : Lawrence O’Donnell . Nós já citamos acima, mas não custa repetir:

“soa como uma criança mimada tentando negociar a saída de uma guerra que ele mesmo começou”

Os Houthis Entram na Guerra: Mais uma Frente, Mais um Bloqueio

Enquanto a Europa tenta encontrar uma saída diplomática, o campo de batalha se expande. Os rebeldes Houthis do Iêmen, aliados do Irã, romperam a sua aparente contenção e dispararam dois ataques com mísseis contra Israel no último sábado (28/03) — a sua primeira ofensiva desde o início da guerra.

A entrada dos Houthis na guerra levanta a possibilidade de que o grupo volte a mirar o seu poder de fogo no Mar Vermelho e no Golfo de Áden, como fizeram entre 2023 e 2025, quando atacaram mais de 100 navios mercantes, fazendo explodir os preços dos seguros e fretes e mesmo forçando a busca de novas rotas comerciais, mais longas e onerosas.

Cabe lembrar que os Estados Unidos e alguns dos seus aliados europeus enviaram grupos de batalha para o Mar Vermelho e não conseguiram subjugar os Houthis. Essa força militar acabou se retirando após um acordo.

O Estreito de Bab el-Mandeb, no extremo sul da Península Arábica, é por onde a Arábia Saudita tem enviado milhões de barris de petróleo por dia desde o fechamento de Ormuz. Se os Houthis bloquearem Bab el-Mandeb, dois dos mais importantes corredores marítimos do planeta estarão fechados simultaneamente.

A missão naval Aspides, liderada pela União Europeia, já alertou para o risco. “As capacidades militares dos houthis são atualmente consideradas intactas e substanciais”, disse o grupo.

Nabeel Khoury, ex-vice-chefe de missão da embaixada dos Estados Unidos no Iêmen, foi ainda mais direto: “Tudo o que eles precisam fazer é atingir alguns navios que estejam passando. E isso levaria à paralisação de todo o transporte comercial pelo Mar Vermelho”. Como aconteceu antes.

Israel em Colapso: Quatro Frentes e Um Exército no Limite

Enquanto Trump ameaça, a Europa articula e os Houthis entram na guerra, Israel sangra. O país que se gabava de ter a “melhor defesa aérea do mundo” está sendo atingido diariamente por mísseis iranianos de fragmentação, que a Cúpula de Ferro não consegue interceptar.

Israel luta agora em quatro frentes simultâneas:

  1. Contra o Irã, que atinge seu território com drones e mísseis hipersônicos dotados com cluster bombs.
  2. Contra o Hezbollah, no norte, que mantém pressão constante, e tem destruído dezenas de tanques usando drones. Em que país são fabricados esses poderosos drones? Não é necessário responder. Todos já sabem que é o Irã.
  3. Contra o Hamas, em Gaza, que ainda resiste.
  4. Contra os Houthis, que agora abrem mais uma frente no sul.

O chefe do Estado-Maior israelense já advertiu que o exército pode entrar em colapso a qualquer momento se a guerra continuar. Mais de 90 tanques Merkava foram destruídos em menos de um mês. As reservas de mísseis interceptadores estão no fim. E a população, exausta, já não acredita mais na narrativa da vitória.

A Crise Energética: O Mundo Paga o Preço

O impacto econômico da guerra já é sentido em todo o mundo. O petróleo disparou após o anúncio de Trump. O barril do Brent ultrapassou os US$ 106. A gasolina nos Estados Unidos já passou de US$ 6 por galão em muitos estados.

Mas a crise é muito mais profunda do que o preço na bomba. O vice-primeiro-ministro russo, Aleksandr Novak, observou que esta crise energética é a maior dos últimos 40 anos. O chefe da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, estimou que o mundo está perdendo 12 milhões de barris de petróleo por dia devido ao conflito no Oriente Médio. E Birol afirmou que esta crise é mais grave do que as crises de 1973, 1979 e 2022 juntas. Parabéns mais uma vez senhor Presidente !

A Rússia, como era de se esperar, está lucrando. Os maiores consumidores de petróleo russo — China e Índia — começaram a competir por suprimentos limitados, e o petróleo russo agora está sendo negociado com um “prêmio” em relação ao Brent, em vez do desconto habitual.

Os países do Golfo, por sua vez, aprenderam da pior forma possível que não podem contar com os Estados Unidos para defendê-los. Mais de 90% das bases americanas na região foram destruídas. O pedágio de US$ 2 milhões por petroleiro instituído pelo Irã é um lembrete diário de quem realmente controla o Estreito. Tudo mudou no Oriente Médio graças à Trump e à Netanyahu.

A Tese Nuclear: Postol, Mearsheimer e o Limite do Desespero

Em meio a este caos, uma pergunta permanece no ar: até onde Israel está disposto a ir?

O professor Theodore Postol, do MIT, uma das maiores autoridades mundiais em tecnologia de mísseis e defesa antimísseis, tem uma resposta alarmante. Em entrevista recente, Postol detalhou tecnicamente que o Irã já pode ter a bomba — ou, se não tiver, pode fabricá-la em menos de uma semana.

O Irã possui cerca de 450 quilos de urânio enriquecido a 60%. Em poucos dias, esse material pode ser enriquecido para 90% (grau militar), suficiente para fabricar pelo menos 11 ogivas nucleares de 15 quilotons cada —Theodore Postol: Irã Já Tem Defesa Nuclear Contra Ataque de Israel – o poder de destruição da bomba de Hiroshima. Essas ogivas podem ser montadas em mísseis hipersônicos, contra os quais não há defesa.

Postol vai além: ele simula um cenário em que três ogivas nucleares de baixo rendimento termonuclear são detonadas nos vértices de um triângulo equilátero sobre Jerusalém, com lados de cerca de 1.400 metros. O resultado seria a morte de milhões de israelenses. E ainda sobrariam 8 bombas para atacar outras cidades — Haifa seria provavelmente a próxima.

A pergunta, portanto, não é se o Irã pode responder a um ataque nuclear. É quando responderá. E Postol cita um detalhe crucial: o Islã permite o uso de um artefato nuclear se o país for atacado primeiro por um artefato nuclear. A fatwa que impedia o Irã de buscar a bomba foi sepultada junto com o Aiatolá Khamenei, que os Estados Unidos estupidamente mataram. Ele agora é um “martir” para os Xiitas. Guerras santas são poderosas. Não se pode subestimar isso.

John Mearsheimer, o realista político que enxerga o mundo como ele é, já havia previsto: a única garantia racional de sobrevivência para o Irã, diante de um vizinho nuclearmente armado e hostil (Israel), é buscar a sua própria dissuasão nuclear. Agora, essa dissuasão pode já ser uma realidade.

Se Israel, à beira do colapso, decidir usar armas nucleares táticas contra o Irã, a resposta será imediata, devastadora e, muito provavelmente, o fim de Israel como Estado.

E todo o Oriente Médio mergulharia em um inverno nuclear regional. A consequência imediata? Além das milhões de mortes e de destruição, a interrupção por décadas da extração de qualquer hidrocarboneto que hoje é extraído da região, fertilizantes e etc da cadeia produtiva do petróleo.

E quem lucraria com o apocalipse nuclear? Os Estados Unidos, auto suficientes através da extração onerosa e poluente do fraturamento hidráulico do xisto (shale oil), a Rússia, o Canadá, A Venezuela, o Brasil, a Nigéria, a Guiana e alguns outros países.

Quem é o Desmiolado Afinal?

Trump prometeu uma guerra de quatro dias. Entramos no 34º dia. Prometeu que o Irã estaria “ajoelhado”. O Irã está cobrando pedágio no Estreito de Ormuz e exportando mais petróleo do que antes da guerra. Prometeu que abriria o estreito pela força. O estreito continua fechado, e a Europa — sem os Estados Unidos — tenta negociar uma saída.

O mesmo homem que chamou o Irã de “eixo do mal” agora anuncia que vai fazer “voltar à Idade da Pedra” o país que não conseguiu derrotar em um mês. E, ao fazê-lo, contradiz todas as suas próprias declarações anteriores.

A mitomania de Trump — a mentira que foge do controle — não é mais um problema pessoal. É um problema global. O mundo inteiro está refém das contradições de um presidente que não sabe o que diz, não lembra o que disse e não tem plano para o que vai fazer.

Os únicos que parecem ter algum juízo são os europeus. Macron diz que é “irrealista” abrir Ormuz pela força. Starmer reúne 35 países — sem os Estados Unidos — para tentar uma solução. Trump, isolado, recorre à infantilidade: “criem coragem, vão lá e TOMEM”.

O petróleo dispara. A Rússia lucra. O Irã se fortalece. Israel sangra. E Trump, o comandante do caos, promete mais três semanas de “Idade da Pedra” — sem saber que, no fundo do poço, quem pode estar voltando à Idade da Pedra é o próprio império que ele lidera.

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