A Crise Tarifária EUA-Brasil e o Desafio do BRICS à Hegemonia Global 

Desde que Donald Trump reassumiu a presidência dos Estados Unidos, o que se viu foi uma escalada agressiva econômica contra o Brasil e outros parceiros do BRICS, um bloco de nações em acelerada expansão em busca da criação e consolidação de uma ordem multipolar, em substituição ao sistema unipolar dominado pelos EUA. A ofensiva tarifária contra o Brasil, oficialmente justificada por Trump como reação à “perseguição judicial” promovida pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil (STF) contra seu aliado, um radical de extrema direita como ele, Jair Bolsonaro, prestes a ser julgado em setembro de 2025 e enfrentar a possibilidade de até 42 anos de prisão, não passa de um instrumento político para tentar desmontar o avanço brasileiro no mercado global e conter o BRICS.

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Por PolitikBr I Brasília, Em 20/08/2025, 18h:55 Leitura: 6 min

O Papel de Eduardo Bolsonaro

No epicentro dessa pressão de Trump, o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, atua como um braço político no exterior, articulando junto a setores republicanos americanos para desacreditar o Brasil e tentar salvar a cabeça do pai, mesmo que para isso seja necessário agir contra os interesses nacionais. Como destacou recentemente o vice presidente e ministro Geraldo Alckmin: “é lamentável que brasileiros continuem trabalhando contra o Brasil”, uma crítica direta à atuação de quem se põe a torpedear a soberania nacional, a favor de interesses familiares e estrangeiros. Se Eduardo Bolsonaro fosse um parlamentar americano e, lá nos EUA, agisse dessa forma, ele estaria preso e sujeito à pena de prisão perpétua ou mesmo a de fuzilamento.

A Tarifa Que Castiga Produtores e Consumidores Americanos

A estratégia tarifária traçada por Trump contra o Brasil e vários outros países do mundo não é isenta de consequências para seus próprios cidadãos. Produtores americanos de soja alertam que estão à beira do precipício financeiro, por conta das barreiras impostas para favorecer a narrativa política anti-Brasil. A China, que antes era responsável por comprar grandes quantidades de soja americana, agora não compra mais. Ela prefere comprar do Brasil, seu aliado fundador do BRICS. Quem ganha é o agronegócio brasileiro. Quem perde é o agronegócio americano. Além do mais, o aumento drástico dos custos de produção da tonelada de soja americana, aliado a escassez de água, reduziu a competitividade do setor, sinalizando uma crise interna no agronegócio dos EUA — Sem a agressiva política tarifária de Trump o cenário seria outro. O viés geopolítico talvez não pesasse tanto, por exemplo, na decisão chinesa em abandonar a soja americana. Portanto, Trump estabeleceu um paradoxo cruel para um governo que se diz defensor do empresariado local. Isso favoreceu o Brasil e mostra a força do BRICS em conter os EUA.

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Ainda mais dramática é a alta do preço da carne bovina, que ultrapassou R$ 150 o quilo no mercado americano, tornando este alimento um luxo inacessível para o trabalhador médio dos EUA, elevando ainda radicalmente o preço dos hambúrgueres. O setor torrefador cafeeiro também sofre, com as marcas tradicionais americanas dobrando de preço, enquanto o Brasil comemora recordes em receitas de exportação, consolida a sua liderança mundial no setor e celebra o estabelecimento de grandes contratos de exportação, de longo prazo, de café arábica para a China e outros mercados, com a cota de café que era antes exportada para os Estados Unidos. Os cafés arábica do Brasil são únicos. O terroir do café brasileiro, isto é, o conjunto de fatores ambientais e humanos que influenciam o sabor e a qualidade dos grãos, tornando cada região produtora única. É mais do que apenas a geografia; inclui clima, solo, altitude, práticas agrícolas e até mesmo a história da região. Não há como o substituir. O americano, assim como todo tomador de café mundo à fora, é fiel ao mix de café de sua marca preferida. Se esse mix muda, o consumidor sente e reclama e, em última instância, pode rejeitar o produto. Mas Trump, como é estúpido, não sabe disso.

OMC: Uma Batalha Diplomática Que Trump Já Perdeu

O ímpeto de Trump em aplicar indiscriminadamente tarifas contra a maioria dos países parceiros de negócios dos americanos teve por objetivo, além do fato do objetivo central em si, destruir a Organização Mundial do Comércio (OMC), assim como ele fez com a USAID. Entretanto, ao invés de retaliar reciprocamente os EUA como está fazendo, por exemplo, o Canadá, o Brasil apelou à OMC acusando os EUA de prática desleal de comércio. O resultado é que diante do impacto econômico e das pressões internas crescentes, os Estados Unidos foram forçados a aceitar a abertura de consultas com o Brasil na OMC. Este movimento, longe de ser um gesto de boa vontade, é um reconhecimento tácito de que a política tarifária adotada por Trump é insustentável — econômica e diplomaticamente. Sentar à mesa da OMC, por si só, já é uma acachapante derrota para Trump.

Ao recorrerem à OMC, americanos e brasileiros se preparam para um confronto jurídico-diplomático complexo, onde o Brasil tenta assegurar a manutenção de seu espaço comercial e proteger seus produtores agrícolas, peça-chave para o fortalecimento do BRICS. É no âmbito dessa batalha que o Brasil reafirma sua posição — não como um mero exportador, mas como uma potência agrícola global, com respaldo de um bloco que não aceita mais as imposições americanas.

O Papel do BRICS na Reorganização Global

O BRICS emerge nesse momento não como uma simples aliança passageira, mas como um bloco estruturado que tem por agenda a promoção do desenvolvimento sustentável, a cooperação diversificada e a soberania dos seus membros. A imposição de tarifas e sanções dos EUA contra o Brasil é também um ataque direto ao projeto de integração promovido pelo BRICS, que aposta na multipolaridade e na diminuição da dependência do dólar americano.

Além do aspecto comercial, a resiliência do Brasil, com o apoio dos países do BRICS, no enfrentamento aos EUA é símbolo do fim do domínio unipolar e da complexa reconfiguração do poder global. A China, a Índia, a Rússia, a África do Sul, o Irã, a Indonésia e demais países parceiros e associados do BRICS, atuam como contrapesos institucionais e estratégicos, fortalecendo um sistema alternativo que desafia o modelo americano vigente, em que sanções econômicas e intervenções políticas se tornam cada vez menos efetivas. O sucesso da Rússia, apesar das milhares de sanções dos EUA e dos países do Ocidente, mostra a força do BRICS. Enquanto nos 03 anos da operação militar especial russa na Ucrânia a economia da Rússia cresceu e se diversificou, os países europeus amargam retrocessos, estagnação e declínio de suas economias.

Impactos e Perspectivas

No plano interno dos Estados Unidos, o custo dessa política tarifária de Trump já é sentido de forma clara. Empresas do agronegócio americano pressionam o governo por alívio tarifário, temendo que a escalada protecionista fortaleça a influência chinesa no Brasil. Essa disputa demonstra que, mais do que barreiras comerciais, está em jogo o controle estratégico sobre mercados vitais — e a capacidade do Brasil de manter sua independência econômica e política.

O consumidor americano, por fim, paga a fatura mais amarga, com preços em alta e acesso restrito a alimentos que antes eram essenciais no cotidiano estadunidense. Enquanto isso, no Brasil, cresce o entendimento de que a soberania comercial passa por resistir a esses ataques e fortalecer relações com o BRICS e outras parcerias estratégicas globais.

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