Trumpismo associado ao bolsonarismo: a mistura tóxica da onipotência com a incapacidade política

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Por Política em Debate I Brasília, Em 25/07/2025, 16h:10

Uma interessante análise de Roberto DaMatta para o Estadão em que ele mostra a incômoda aliança entre o trumpismo e o bolsonarismo, que é mais do que uma simples afinidade ideológica. Ela simboliza a combinação entre a delirante perspectiva de onipotência política e a completa incapacidade para exercer a arte do governo e da negociação democrática. Essa dupla — Trump nos EUA e Bolsonaro no Brasil — representa o que há de mais corrosivo para as instituições representativas: o poder entendido como absoluto, acima da lei, acompanhado da incapacidade flagrante de lidar com a complexidade da política moderna.

Provavelmente, Donald Trump enxerga em Jair Bolsonaro um líder fraco, facilmente submetido às suas vontades e, por isso, conveniente para seus objetivos estratégicos na América do Sul. Na visão de Trump, Bolsonaro pode funcionar como um aliado útil para conter a progressiva expansão da China na região, onde Brasília tem estreitado laços sobretudo com o bloco do BRICS. Essa relação de subserviência política alimenta o projeto trumpista de minar a influência chinesa em um continente estratégico, econômico e geopoliticamente.

Trump deve ver no bolsonarismo uma possível ferramenta para frear o avanço do BRICS no futuro pós 2026. Bolsonaro, enquanto figura política polarizadora e isolada, oferece a Trump um canal para pressionar o Brasil a se alinhar mais rigidamente com a agenda americana.

Essa dinâmica evidencia uma disparidade clara: Bolsonaro, com sua vulnerabilidade política e dependência dos braços trumpistas, nunca se interessou ou conseguiu articular uma defesa consistente dos interesses brasileiros no cenário internacional. Ao contrário. Por outro lado, Trump, em sua estratégia de confrontação geopolítica, manipula a situação para desgastar o governo brasileiro e fortalecer a narrativa de que o Brasil deve escolher entre o ocidente liderado pelos EUA ou o bloco asiático-centro-sul global dos BRICS.

A subjugação política de Bolsonaro nas mãos de Trump não é mera coincidência, mas parte de um cálculo estratégico norte-americano para manter a hegemonia na região e conter a diversificação e autonomia internacional do Brasil sob influência chinesa e do BRICS. Essa relação simbiótica marca um capítulo de vulnerabilidade externa para o Brasil, amplificada pelas contradições internas do bolsonarismo que perdem terreno para o fortalecimento de outras hegemonias globais.

Esses aspectos estão refletidos em análises recentes que apontam que a postura de Trump em relação ao Brasil, incluindo o imposto tarifário e as declarações de apoio a Bolsonaro contra o Judiciário brasileiro, são parte de uma estratégia ampla e política, não meramente comercial, visando enfraquecer o governo brasileiro alinhado à China, à Rússia, ao Irã e ao restante dos membros do BRICS.

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Contexto histórico: onipotência e incapacidade política no Brasil

Não é de hoje que o Brasil convive com lideranças que se veem acima das regras — vestígios que remontam ao período colonial e que, em vários momentos da história republicana, se manifestaram em chefes autoritários e políticos paternalistas. O que vemos agora é a fusão dessas noções com um populismo midiático e a pulsão autoritária que desafia o regime democrático.

Exemplos práticos da mistura explosiva do trumpismo com o bolsonarismo

  • Negação da ciência: Assim como Trump subestimou a pandemia e questionou as vacinas, Bolsonaro guiou seu discurso por informações alternativas, conspiratórias e negacionistas, colocando vidas em risco e aprofundando a crise sanitária nacional. Em depoimento na CPI da Covid-19, Pedro Hallal, epidemiologista e pesquisador da Universidade Federal de Pelotas, disse que quatro em cada cinco mortes pela doença no país eram evitáveis caso o governo federal tivesse adotado outra postura — apoiando o uso de máscaras, medidas de distanciamento social, campanhas de orientação e ao mesmo tempo acelerando a aquisição de vacinas. Ou seja, de acordo com suas estimativas, pelo menos 400 mil pessoas não teriam morrido pela pandemia das 500 mil mortes naquele momento. Se consideramos o número de 700 mil mortes (subnotificados) ao final da pandemia, o governo Bolsonaro teria sido responsável por 560.000 mortes, isto é, 80% dos óbitos poderiam ter sido evitados. O presidente Lula já fez menção em diversas ocasiões que Bolsonaro foi responsável por 700 mil mortes da pandemia de covid, pelo negacionismo, inércia, e só agiu premido pela calamidade das milhares de mortes. Lula, na verdade, não está errado se considerarmos que as subnotificações atribuídas à covid variaram entre 40 e 50%. Tomando 40% como fator de correção às 700 mil mortes, o número mais próximo do real de óbitos seria de 980 mil. Pela estimativa de Pedro Hallal, 784 mil dessas mortes teriam sido evitadas. Então, a crítica do presidente à Bolsonaro é até suave.
  • Deslegitimação das instituições: Ambos – Trump e Bolsonaro – atacaram sistematicamente as eleições, o Judiciário e o Legislativo, disseminando a ideia falsa de serem vítimas de conspirações para afastá-los do poder—a maquiagem do golpismo travestido de “defesa da nação”. A deslegitimação das Instituições de Estado é a espinha dorsal da estratégia da extrema direita em tomar e se manter no poder: destruir as instituições para as reconstruir na forma que ela – extrema direita – a vê.
  • Radicalização pelas redes sociais: A disseminação de desinformação, fake news e discursos de ódio é uma estratégia central para mobilizar e radicalizar as bases de apoio, criando bolhas de alienação política, recusando o debate racional.
  • Tarifaço e submissão internacional: Enquanto Trump aplica tarifas protecionistas que penalizam setores-chave da economia brasileira, Bolsonaro é acusado junto com seu filho Eduardo de compactuar com as sanções impostas ao Brasil, já que isso lhes favorece em uma hipotética anistia a Jair Bolsonaro, preste a ser condenado a pelo menos 43 anos de prisão por golpismo e crimes associados. Aqui citamos ainda o descaso de um líder que deveria, em primeiro lugar, proteger os interesses nacionais, e não os seus interesses pessoais; além da humilhante submissão política e vassalagem aos EUA.
  • Bravatas e chantagens: Bolsonaro e seus aliados extrapolam o limite quando ameaçam instituições, sugerindo golpes e tumultos, mas não conseguem traduzir isso em poder real de governabilidade — a onipotência retórica sem a substância da negociação política.

Consequências profundas para a democracia brasileira

Essa mistura tóxica mina a confiança popular nas instituições, abala a estabilidade política e intensifica uma polarização que dissolve pontes históricas de diálogo. A onipotência se traduz em autoritarismo simbólico, enquanto a incapacidade se manifesta na paralisia operacional do Estado. O resultado é uma democracia fragilizada, cada vez mais vulnerável à crises institucionais e explosões sociais. É com isso que a extrema-direita sonha todos os dias: quanto pior melhor.

A “política de terra arrasada”

O trumpismo – bolsonarismo adota a estratégia do “tudo ou nada” e da “terra arrasada”, tentando destruir o que não controla, em vez de propor e construir soluções. Se trata só de aceitar o que lhes convém, o que inibe o jogo democrático e a governabilidade, já que o Congresso se vê submetido a um embate de forças em que o discurso supera as ações, e a tentativa de instalar o caos se naturaliza como método.

O trumpismo associado ao bolsonarismo não é apenas um problema político passageiro — é uma ameaça real à democracia brasileira. Eles encarnam a ilusão do poder absoluto, revestido de bravatas, cruamente desprovido da capacidade política para governar, negociar e preservar instituições. A resposta da sociedade e das elites políticas deve ser a reconstrução firme de uma política baseada na responsabilidade, no diálogo e na institucionalidade — única saída para o Brasil superar a crise e retomar seu rumo civilizatório.

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