A base de Al Udeid, no Catar, considerada o principal ponto de projeção militar dos EUA no Golfo, foi atingida por pelo menos seis mísseis iranianos.
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Por Política em Debate I Brasília, Em 23/06/2025, 15h45

O Irã dobra a aposta. Em resposta direta ao bombardeio norte-americano contra instalações estratégicas no território iraniano, o Irã retaliou os EUA: lançou mísseis balísticos contra duas bases militares dos Estados Unidos — uma localizada no Catar e outra no Iraque. A base de Al Udeid, no Catar, considerada o principal ponto de projeção militar dos EUA no Golfo, foi atingida por pelo menos seis projéteis. A outra ofensiva ocorreu em território iraquiano, reforçando a clara mensagem de que Teerã não pretende mais tolerar impunemente os ataques de Washington e seus aliados.
As explosões foram ouvidas à distância na capital catariana, Doha, e o impacto reverberou globalmente. A resposta iraniana não é apenas simbólica: é estratégica. Trata-se de um movimento deliberado para sinalizar aos Estados Unidos — e ao mundo — que o Irã está disposto a escalar o conflito caso sua soberania continue sendo violada sob pretextos de contenção nuclear. Em consequência, o governo do Catar declarou estado de alerta máximo, fechou seu espaço aéreo e emitiu nota condenando o ataque. A embaixada norte-americana em Doha orientou todos os cidadãos americanos a permanecerem abrigados e a evitarem deslocamentos não essenciais. A situação no Golfo Pérsico, já tensa, agora flerta com o colapso total.
Em meio à turbulência, o chanceler iraniano foi recebido hoje por Vladimir Putin, em um encontro carregado de simbolismo e expectativa. Putin condenou veementemente o ataque dos Estados Unidos ao Irã, afirmando que se tratou de uma violação direta da soberania iraniana e das normas do direito internacional. Mais do que palavras, Putin prometeu “ajudar a nação iraniana a defender sua integridade”. Contudo, até o momento, não está claro se essa ajuda envolverá suporte militar direto, o que representaria uma escalada ainda mais perigosa, entretanto legítima, colocando frente a frente os dois maiores arsenais nucleares do planeta. Tanto a Rússia quanto o Irã são aliados estratégicos e cooperam em áreas militares, tecnológicas e energéticas. A China, terceira ponta do triângulo geopolítico, também acompanha de perto cada passo do conflito.

No Brasil, a reação foi firme e alinhada aos princípios diplomáticos da ONU. O governo Lula condenou publicamente o ataque dos EUA ao Irã, alertando para os “danos irreversíveis” que esse tipo de ação pode causar não apenas à paz regional, mas à estabilidade do sistema internacional como um todo. A nota do Itamaraty destaca a importância da autodeterminação dos povos e denuncia o risco de guerra aberta. Vale lembrar que o Brasil, assim como o Irã, mantém um programa nuclear para fins pacíficos, com objetivos exclusivamente energéticos. A tentativa de criminalização do desenvolvimento nuclear em países fora da OTAN é vista por Brasília como um mecanismo de dominação e cerceamento tecnológico, o que aproxima, ainda que discretamente, as posições de Teerã e de Brasília.
No plano maior, o que se desenha é uma ofensiva clara contra o eixo emergente do BRICS. O ataque ao Irã não é apenas um ataque a um Estado soberano do Oriente Médio. É um ataque calculado contra um parceiro-chave da Rússia e da China, ambos empenhados na construção de uma ordem multipolar que desafia a hegemonia norte-americana. Derrubar Teerã, por via militar ou política, é desarticular o triângulo Moscou–Pequim–Teerã. É frear o avanço da Rota da Seda. É sabotar o BRICS de dentro. E talvez, no fundo, seja isso que Washington mais teme: o fim do mundo unipolar.
Neste novo cenário, o Irã não recuou. Dobrou a aposta. Lançou mísseis. Reafirmou sua soberania. Procurou seus aliados. E colocou o Ocidente diante de um dilema: continuar a alimentar o ciclo de violência, ou recuar antes que seja tarde demais.


