Política, Nacional, Saúde
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Por PolitikBr I Brasília, Em 19/02/2026, 12h:37, leitura: 4 min
Editor: Rocha, J.C.
Há cenas que, em poucos segundos, sintetizam décadas de fracasso político. O vídeo que circula nas redes sociais, com a pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio e uma interlocutora, é uma delas.
Em um diálogo franco, Tatiana narra o impensável: o Brasil, berço da polilaminina – a substância revolucionária, que tem devolvido os movimentos a pacientes vítimas de traumas medulares –, perdeu a patente internacional do fármaco.
O motivo? Um calote do próprio Estado.
A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), instituição mãe da descoberta, “Durante o governo Temer, teve um brutal corte de recursos” e simplesmente “parou de pagar as patentes internacionais”. O dinheiro acabou. O prazo expirou.
A tecnologia que poderia gerar “zilhões” para o país, agora é de domínio público no exterior. Qualquer laboratório estrangeiro pode copiar, produzir e lucrar, enquanto o criador original, aquele que investiu décadas de cérebro e suor, fica a ver navios – ou a pagar do próprio bolso, como fez a pesquisadora por um ano, para salvar, ao menos, o direito nacional.
Este artigo não é sobre uma descoberta científica, mas sobre o ambiente político que a sufoca. É sobre a crônica de uma morte anunciada: a da soberania nacional sobre as suas inovações.
O Enterro da Patente no Cemitério do Ajuste Fiscal
Para entender a tragédia, é preciso localizá-la no tempo e no espaço. A pesquisadora menciona os “cortes na época de 2015, 2016”, e a interlocutora completa: “Os cortes do governo do Temer, né? 2016.”
O ano de 2015, sob o segundo mandato de Dilma Rousseff, já havia sido marcado por um contingenciamento brutal no Ministério da Educação, com cortes superiores a R$ 11 bilhões, que atingiram em cheio o custeio e os investimentos das universidades federais.
Mas foi a partir de 2016, com a ascensão de Michel Temer à Presidência, e a agenda de austeridade fiscal, foi que o garrote se apertou definitivamente.
A Emenda Constitucional do Teto de Gastos (EC 95/2016), que congelou os investimentos públicos por 20 anos, deu o golpe de misericórdia.
Os dados são implacáveis: o orçamento discricionário (não obrigatório) da UFRJ despencou de R$ 606 milhões em 2015 para R$ 541 milhões em 2016; em 2017, foi a R$ 487 milhões; em 2018, a R$ 430 milhões. Uma sucessão de cortes sucessivos, que inviabilizou, desde a manutenção de prédios até o pagamento de contas de luz e, como agora sabemos, a manutenção de ativos estratégicos, como as patentes internacionais.
Foi nesse ambiente de asfixia orçamentária que a UFRJ, simplesmente, deixou de pagar as taxas de depósito e de manutenção das patentes da polilaminina nos escritórios internacionais. A promissora invenção brasileira, que poderia colocar o país no seleto grupo de detentores de uma tecnologia médica disruptiva, ficou órfã.
O Paradoxo Nacional: Inovamos, mas Não Protegemos
O resultado é um paradoxo de doer. De um lado, temos a potência da ciência brasileira. A polilaminina, desenvolvida pela Dra. Tatiana Sampaio, é uma realidade que transcende os protocolos de laboratório. Dados recentes mostram que 23 pacientes, em nove estados brasileiros, já receberam o tratamento por uso compassivo – além dos 06 já mostrados em A Cruz Que Redime: Polilaminina, a Revolução no Tratamento de Pacientes com Lesão Medular – , com a maioria apresentando resultados positivos na retomada dos movimentos.
Casos como o de um paciente paraplégico que voltou a fazer exercícios em academia apenas 15 dias, após a injeção, correm o mundo, e enchem de esperança quem sofre com lesões medulares. É o triunfo da bioquímica nacional, um orgulho para qualquer brasileiro.
Do outro lado, temos a miséria da gestão estatal. Como bem apontou um comentário no Instagram, “patentes de medicações são ativos estratégicos para o desenvolvimento do país”. Perder uma patente internacional não é um mero erro contábil; é uma rendição estratégica. É abrir mão de royalties bilionários, de poder de barganha comercial e de autonomia tecnológica. Agora, a fórmula está tecnicamente “livre” no exterior. Empresas farmacêuticas de países que investem pesado em P&D podem aperfeiçoar a molécula, produzir o medicamento e vendê-lo ao mundo, sem precisar pagar um centavo ao Brasil pelo conhecimento gerado. Nós arcamos com os custos do desenvolvimento inicial; eles colherão os lucros da comercialização global.
A cena final do diálogo entre Tatiana e a entrevistadora é um misto de estoicismo e resignação. Quando perguntada se podem copiar a tecnologia, a resposta é um simples “Podem“. A UFRJ “não tinha dinheiro, parou de pagar”. O Estado, que deveria ser o guardião do patrimônio nacional, agiu como seu algoz. Ao fazer um “corte de gastos” canetário, ignorou solenemente as “consequências” – aquelas mesmas que Tatiana, no vídeo, lamenta.
Esse artigo foi baseado em:
- https://www.sonoticiaboa.com.br/2026/02/18/polilaminina-20-pacientes-paralisadas-mexerem-experimental-revolucionario
- https://www.sonoticiaboa.com.br/2026/02/18/paciente-paraplegico-faz-academia-15-dias-apos-receber-polilaminina-video
- https://www.instagram.com/reel/DU64k4VjfEL/?igsh=a2NkbHZmejlzbW94
- https://conexao.ufrj.br/2018/09/nota-sobre-orcamento-da-ufrj/
- https://oglobo.globo.com/brasil/educacao/ufrj-pede-140-milhoes-ao-governo-para-terminar-semestre-18033160
- https://prefeitura.ufrj.br/2015/11/situacao-da-ufrj-preocupa-consuni/
- http://www.adunicentro.org.br/noticias/ler/1736/#dat-menu