Geopolítica, Internacional
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Por PolitikBr I Brasília, Em 13/02/2026, 21h:09, leitura: 8 min
Editor: Rocha, J.C.
O mais recente capítulo da novela entre Washington e Teerã, estrelado por um Donald Trump ao estilo “bravata de valentão”, é um desses instantes de revelação.
Enquanto Trump alardeia o envio de “navios grandes, os maiores e os melhores” ao Golfo Pérsico, e insinua que “coisas ruins” podem acontecer, os seus próprios especialistas, generais e estrategistas se engasgam com um copo d’água, ao olhar para o tabuleiro no Oriente Médio.
A fonte primária dessa análise é a esclarecedora entrevista de Scott Ritter — ex-inspetor de armas da ONU e oficial de inteligência dos fuzileiros navais dos EUA — ao canal YouTube de Danny Haiphong; um manifesto que evidencia a vulnerabilidade do gigante americano.
O que Ritter nos apresenta, e que detalharemos, é a anatomia de um império em decadência, que descobriu, tardiamente, que a capacidade de dissuasão iraniana, agora reforçada pelos seus parceiros estratégicos do BRICS: Rússia e China, impede, pela primeira vez na história pós segunda grande guerra, que os Estados Unidos se aventurem em termos militares, como até agora estavam acostumados a fazer.
A Crônica de uma Derrota Anunciada
A narrativa oficial em Washington sempre foi a de que os Estados Unidos possuem um “guarda-chuva” defensivo impenetrável no Oriente Médio. Uma sinfonia de baterias Patriot, THAAD, navios Aegis e a parafernália tecnológica de Israel (Domo de Ferro, Funda de Davi, Flecha 3 – Iron Dome, David’s Sling e Arrow 3), que criaria uma zona de exclusão aérea, que tornaria qualquer ataque inimigo um exercício de futilidade.
Scott Ritter, no entanto, desmonta essa fantasia: “Os iranianos escaparam”. A referência aqui é a resposta do Irã ao traiçoeiro ataque de Israel, em junho de 2025, quando mísseis iranianos, em uma demonstração de força contida, perfuraram o que deveria ser o sistema de defesa mais avançado do planeta, destruindo centenas de alvos estratégicos em Israel, e provando um ponto: a tríade de defesa antiárea de Israel – dos EUA – é irremediavelmente ineficaz ao uso combinado de enxames de drones e mísseis: supersônicos e hipersônicos. O mesmo acontece na Ucrânia, onde as baterias Patriot, combinadas com outros sistemas antimísseis da OTAN, são inúteis, diante dos mísseis Kinzhal e Oreshnik da Rússia.
Nesse momento, no Oriente Médio, estamos testemunhando a correria desesperada dos EUA para realocar baterias de mísseis da Ásia e da Europa para o região. Não se trata de um movimento de força, mas a admissão pública de um vexame.
Ritter é devastador: “Não temos navios suficientes (…) Não temos baterias THAAD ou Patriot suficientes. E mesmo que tivéssemos, elas não seriam boas o bastante para impedir que os mísseis iranianos mais avançados chegassem”.
A Síndrome do Titanic
A peça central desse psicodrama é o porta-aviões USS Abraham Lincoln. Para o imaginário americano, um porta-aviões é soberano. É a prova flutuante da excepcionalidade. Mas Ritter, com a experiência que possui, expõe o que os almirantes escondem: o porta-aviões se tornou um sistema de armas obsoleto, diante da nova geração de mísseis hipersônicos e manobráveis do Irã . Ele é um Titanic esperando por um iceberg. Talvez seja por isso que ele esteja posicionado entre 800 e 1600Km da costa iraniana. Fora do que se considera zona eficaz de combate.
O que aquece os ânimos do Pentágono não é apenas o risco de perder um ativo caro, mas o colapso simbólico que isso representaria. A doutrina americana, como lembra Ritter, é aterrorizante: se um porta-aviões for afundado, a resposta é nuclear.
Nesse cenário hipotético, a perda de um grupo de batalha justificaria a aniquilação de uma cidade inteira. É a síndrome do “perdi, levo todos junto“.
Mas aqui reside a armadilha mortal que se coloca na mesa: se os EUA jogassem uma bomba nuclear em uma cidade chinesa (ou iraniana) em retaliação, o que impediria Pequim e Moscou de retaliarem nuclearmente? Nada. Seria o mesmo que garantir que todos os 380 milhões de americanos morressem, se um porta-aviões fosse perdido. E isso é um risco inadmissível nesse cenário. O que era um instrumento de projeção de poder se transforma, portanto, em uma âncora suicida.
O Limite de 500 Corpos
Há um cálculo macabro que paira sobre o salão oval. Ritter menciona que os iranianos estabeleceram seu “limite de dor” em 500 americanos mortos. Eles entenderam a dinâmica política dos EUA: a chegada aos EUA de centenas de corpos, em sacos plásticos, é o fim de qualquer presidente.
A era das guerras inconsequentes contra adversários desarmados acabou. O Irã, diferentemente do Iraque ou do Afeganistão, pode revidar. E pode revidar com uma precisão que cause baixas em massa.
É por isso que a previsão do PolitikBr no artigo “O Império dos Espelhos” se mantém inabalável: Trump não vai bombardear o Irã.
Trump é um jogador que aposta fichas alheias, nunca as suas. Ele é um “valentão”, como o descreve Ritter, que bate nos mais fracos (Granada, Panamá, Síria com mísseis de mentira), mas recua diante de quem pode revidar à altura. O envio de bombardeiros B-2, F-35 ou mesmo a estreia do B-21 Raider é a coreografia do blefe. A música toca, as luzes se acendem, mas a cortina não sobe.
A Estratégia do Enxame
Há um elemento frequentemente ignorado: a capacidade industrial e tática do inimigo. O Irã aprendeu as lições da guerra moderna. Seja com os Houthis no Iêmen ou com os russos na Ucrânia, a tática da saturação é eficaz. O que ocorrerá se o Irã lançar 2.000 mísseis contra Israel nos primeiros dois dias de uma nova guerra? E mísseis, aqui, são precedidos, como já mencionamos, de centenas, milhares de drones isca, baratos, para esgotar os estoques de mísseis anti aéreos do inimigo.
O que acontece quando você enfrenta uma barragem de 100 drones e 12 mísseis simultaneamente? O sistema de defesa, por mais avançado que seja, trava. Os estoques de mísseis interceptadores (que custam milhões cada) se esgotam.
A doutrina do “tiro por tiro”: se o Irã joga tudo o que tem, e os EUA usam armas nucleares em resposta, o que sobra? Uma nuvem de radiação sobre o petróleo que abastece o mundo e um continente congelado e faminto. A vitória, nesse contexto, é uma miragem radioativa.
O Fator China e Rússia
Para completar o quadro de impotência estratégica, Ritter introduz um elemento que deveria gelar a espinha de qualquer estrategista da OTAN: a transferência de tecnologia e inteligência.
Os russos, após capturarem mísseis Tomahawk americanos, intactos na Síria (graças à guerra eletrônica), repassaram os segredos para os iranianos. Os chineses, por sua vez, têm aprofundado a sua parceria estratégica com Teerã, fornecendo não apenas apoio econômico, mas também tecnologia militar crítica, incluindo radares capazes de detectar até aviões stealth e mísseis antinavio – já citados – e componentes para o programa de mísseis de precisão.
O Irã não é a Coreia do Norte isolada; ele é um nó vital em uma rede que conecta Moscou e Pequim, desafiando a ordem unipolar . Teerã é vital para a multipolaridade na eurásia e no sul global. Ele não pode cair ou ser destruído, sem consequências, diria, existenciais, nas ambições geopolíticas de Moscou e Pequim.
O New START, último tratado de controle de armas entre os EUA e a Rússia, expirou, e a China, com seu programa de modernização acelerado, se recusa a sentar na mesa de jogos em desvantagem numérica. É nesse contexto que o blefe de Trump se insere: um império em decadência, que não pode mais garantir a segurança de suas bases no Oriente Médio, na Europa e na Ásia; que vê seu principal símbolo de poder se tornar um alvo fácil, e que depende de uma dissuasão nuclear que, se acionada, significaria o seu próprio fim.
O Espelho Quebrado
O que a análise de Scott Ritter nesse artigo nos oferece é um retrato, sem retoques, de um império em declínio, que descobriu no espelho a imagem de sua própria fragilidade. O Irã entendeu a psicologia do adversário e construiu uma dissuasão crível, não para conquistar o mundo, mas para garantir a sua sobrevivência.
O “poder dos mísseis do Irã” não choca Trump apenas pelo seu potencial destrutivo, mas porque expõe a verdade incômoda, de que a era das intervenções unilaterais americanas, com porta-aviões navegando impunemente, chegou ao fim.
A correria para reposicionar defesas, a ameaça nuclear como recurso desesperado e a dependência de aliados regionais, que também estão vulneráveis, são os pilares de uma política externa que perdeu o rumo.
No final, não haverá ataque. O custo é impagável, o risco é existencial, e o “valentão”, quando desafiado de verdade, sempre encontra uma desculpa para guardar as armas no armário.
Esse artigo foi baseado em:
- Vídeo: Scott Ritter: Poder dos mísseis do Irã CHOCA Trump e deixa Marinha dos EUA sem defesa. Fonte: Danny Haiphong Português (YouTube). https://youtu.be/lxPBoCkN0OA?si=vmz3rOz6DyCnhwVj
- Artigo Relacionado: O Império dos Espelhos: Trump não vai bombardear o Irã. Fonte: PolitikBr / https://politicaemdebate.org/2026/02/11/o-imperio-dos-espelhos-trump-nao-vai-bombardear-o-ira/
- Contexto e Análise: U.S. Aircraft Carriers Have Become Obsolete Against Iran’s Hypersonic Missiles. Fonte: Rokna.net. https://www.rokna.net/Section-political-23/1206344-aircraft-carriers-have-become-obsolete-against-iran-hypersonic-missiles-negotiations-are-trap
- Contexto e Análise: Why American analysts acknowledged deterrent power of Iran’s missile capability? Fonte: Pars Today. https://parstoday.ir/en/news/iran-i241576-why_american_analysts_acknowledged_deterrent_power_of_iran%E2%80%99s_missile_capability
- Contexto e Análise: China Joins Iran-US ‘War’? Trump ‘STUNNED’ As Xi Throws Weight Behind Tehran’s Nuclear Rights. Fonte: Times of India. https://timesofindia.indiatimes.com/videos/international/chinajoins-iran-us-war-trump-stunned-asxi-throws-weight-behind-tehrans-nuclear-rights/videoshow/127941043.cms
- Contexto Geopolítico: Iran, Russia, China discuss attacks on Iran nuclear sites. Fonte: Mehr News Agency. https://en.mehrnews.com/news/234436/Iran-Russia-China-discuss-attacks-on-Iran-nuclear-sites