O Império dos Espelhos: Trump Não Vai Bombardear o Irã

Economia, Geopolítica, Internacional

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Por PolitikBr I Brasília, Em 11/02/2026, 20h:57, leitura: 12 min

Editor: Rocha, J.C.

Uma análise das visões de Larry Johnson, John Helmer, Scott Ritter e Douglas Macgregor sobre a farsa da “guerra inevitável” com o Irã

Há um fantasma que ronda Washington. Não é o fantasma do comunismo, nem o do terrorismo. É o fantasma da impotência.

Nas últimas 72 horas, quatro vozes — talvez as mais lúcidas dentro do deserto de mediocridade que é o atual establishment de segurança nacional americano — convergiram para um veredito que a grande mídia ainda insiste em obscurecer: os Estados Unidos não vão atacar o Irã. Porque não podem.

Estamos falando de Larry Johnson (ex-CIA), John Helmer (decano do jornalismo investigativo), Scott Ritter (ex-inspetor da ONU) e o Coronel Douglas Macgregor (ex-assessor do Pentágono). Quatro homens que já vestiram a camisa do Tio Sam, que já estiveram dentro da máquina pública americana, e que hoje, de fora, alertam para o colapso iminente de uma política externa baseada em ilusões e narcisismo estratégico.

O diagnóstico é unânime, ainda que partam de ângulos distintos: não haverá guerra. Haverá teatro.

A FARSA DOS “PROTESTOS” E O FIM DO SOFT POWER

Comecemos pelo que une todos os analistas: a operação de bandeira falsa contra o Irã, que fracassou em janeiro.

Larry Johnson revela o que os jornais não publicam. A visita-relâmpago de Netanyahu a Washington, em 29 de dezembro de 2025, não foi para discutir paz. Foi para coordenar o que viria no dia seguinte: uma “revolução colorida” fabricada pelo Mossad, com o apoio logístico da CIA e do MI6.

Douglas Macgregor detalha a operação com precisão: mais de 40.000 terminais Starlink foram contrabandeados para dentro do Irã. Agentes infiltrados armaram manifestantes legítimos — estes sim, vitimados por uma economia sangrada por sanções criminosas — e tentaram transformar a dor do povo iraniano, em combustível para uma guerra por procuração.

Fracassaram.

E fracassaram por um fator que Washington insiste em ignorar: o eixo Moscou-Pequim-Teerã já não é uma abstração geopolítica. É uma realidade operacional.

Macgregor é taxativo: foram os russos e os chineses que ajudaram os iranianos a rastrear e desativar os 40.000 terminais Starlink.

Enquanto a CIA ainda operava com mapas mentais da Guerra Fria, o Serviço de Segurança Iraniano, municiado pela inteligência russa e pela chinesa, já havia mapeado cada agente infiltrado. O resultado? A “revolução” morreu antes de nascer.

Scott Ritter, com a fúria de quem testemunhou a estupidez americana no Iraque, dispara: “O Irã não é o Iraque. E o mundo de 2026 não é o mundo de 2003.”

A ARMADILHA DOS PORTA-AVIÕES: O COLAPSO DA DISSUASÃO

Se há um símbolo perfeito da decadência imperial americana, ele navega hoje a 1.600 quilômetros da costa do Irã, com medo de se aproximar.

John Helmer oferece, talvez, a análise mais elegante de todo este imbróglio. Ele destila o poder em três variáveis: dinheiro, votos e balas.

Para Helmer, o tripé que sustenta qualquer aventura militar americana está em frangalhos.

O dinheiro fala pela boca do mercado de petróleo. Se Washington estivesse realmente disposto a atacar, o barril já estaria a 150 dólares, à espera do fechamento do Estreito de Ormuz pelos iranianos. Não está. O preço do Brent caiu 5% nos últimos dias. O mercado, que nunca se engana sobre estes eventos, já precificou a paz.

Os votos são o pesadelo silencioso de Donald Trump. As eleições de meio de mandato estão a 16 semanas.

A inflação corrói os salários. Deportações em massa, filmadas em alta definição, não são exatamente o tipo de propaganda que conquista o eleitorado suburbano. 

Trump sabe que uma guerra com o Irã — com corpos voltando em caixões — seria o epitáfio da sua presidência. As balas, por fim, expõem a nudez do rei. 

Larry Johnson, com a sua experiência em inteligência militar, esmiúça os números da vergonha:

“No Mar Vermelho, os EUA tinham dois porta-aviões, cinco destroyers, supremacia aérea absoluta — e enfrentaram os Houthis, um grupo que não tem força aérea nem defesas antiáereas. Resultado? Não conseguiram proteger os navios. Agora querem enfrentar o Irã, que tem mísseis hipersónicos, drones de ataque e cidades subterrâneas de mísseis.”

Scott Ritter complementa: o grupo de batalha do porta-aviões Abraham Lincoln está a 800 quilômetros da costa iraniana. Não é posição tática. É posição de fuga. A distância segura para não ser afundado por um míssil chinês DF-21D, que Pequim já forneceu a Teerã.

“O porta-aviões é um sistema de armas legado. Num combate real contra um adversário moderno, ele é um caixão flutuante.” (Ritter)

O TRIÂNGULO QUE ASSOMBRA WASHINGTON

Aqui chegamos ao cerne da questão, o ponto cego que a inteligência americana se recusa a enxergar: o Irã já não está sozinho.

Em 2025, o PolitikBr publicou um artigo que soava profético: “O ataque dos EUA e de Israel ao Irã é um ataque ao BRICS, ao mundo multipolar”. Naquela altura, alguns nos acusaram de alarmismo. Hoje, a realidade confirma a tese.

Douglas Macgregor revela o que os satélites espiões já captaram, mas que as manchetes escondem:

  1. A China forneceu ao Irã radares 3D capazes de rastrear caças furtivos F-35 e bombardeiros B-2. Forneceu também mísseis antinavio DF-21D, e acesso, em tempo real, à sua constelação de satélites de imagem.
  2. A Rússia não só enviou sistemas de defesa aérea S-400, como está treinando oficiais iranianos em guerra eletrônica — incluindo técnicas para neutralizar o Starlink, aprendidas nos campos de batalha da Ucrânia.
  3. O acordo estratégico Irã-Rússia, finalmente ratificado, criou o arcabouço legal para esta cooperação. Quando Israel bombardeou o Irã em junho de 2025, os russos não podiam intervir legalmente. Agora, podem.

Scott Ritter, que passou anos estudando o complexo militar-industrial soviético e russo, é quem melhor articula a mudança de paradigma:

“O Irã sofre da Síndrome do Cônjuge Agredido. Apanha dos Estados Unidos há 46 anos, e continua voltando, achando que o agressor a ama. Não ama. Os EUA odeiam o Irã. É um ódio visceral. A única saída para Teerã é olhar para o Oriente.”

E é exatamente isso que o Irã está agora fazendo. A viagem de Ali Larijani — figura máxima do Conselho de Segurança iraniano e homem de confiança do Líder Supremo — a Moscou não é um movimento diplomático de rotina. É a consumação de um divórcio com o Ocidente e um casamento estratégico com a Eurásia.

NETANYAHU: O HOMEM QUE GRITA “LOBO” NUMA SALA VAZIA

Se os EUA estão paralisados e o Irã está fortalecido, onde fica Israel nesse cenário?

Larry Johnson oferece uma chave de leitura perturbadora: “Netanyahu não está pressionando Trump para atacar. Ele está pressionando Trump para não atacar. E precisa fingir o contrário, para sobreviver politicamente.”

A lógica é implacável.

  • Israel implorou pelo cessar-fogo na guerra de 12 dias (junho de 2025). Os mísseis iranianos estavam caindo sobre Tel Aviv e Haifa, e o Domo de Ferro se revelou tão útil quanto uma peneira num tsunami.
  • Os militares israelenses sabem que, hoje, uma guerra com o Irã significaria a obliteração da sua infraestrutura crítica. As luzes apagar-se-iam e, como diz Ritter, “nunca mais voltariam”.
  • Netanyahu, encurralado pela sua própria retórica genocida em Gaza e pela corrupção interna, precisa desesperadamente parecer forte. Mas não pode sê-lo.

Portanto, ele finge. Visita Washington. Discursa no Congresso. Chama o Irã de “ameaça existencial”. E, nos corredores, sussurra: “Não façam nada, sem ter certeza de que podem matar o rei.”

Ninguém pode matar o rei. O regime iraniano, com 93 milhões de habitantes, uma burocracia resiliente e um profundo sentimento nacionalista, não colapsará por algumas bombas. Os próprios serviços de inteligência americanos, segundo Macgregor, admitiram a Trump: “Não temos força de fogo suficiente no campo – de batalha – para produzir uma mudança de regime.”

O GRANDE TEATRO: PARA QUE SERVEM AS NEGOCIAÇÕES?

Se a guerra é inviável, por que toda esta coreografia? Por que os bombardeiros B-2 sobrevoam o Golfo? Por que Marco Rubio exige o impossível — o desmantelamento do programa de mísseis balísticos iranianos?

A resposta é tão cínica quanto simples: ambos os lados precisam de uma saída honrosa.

Donald Trump, o presidente que se autoproclama “não um homem de guerra, mas um homem de paz”, não pode simplesmente recolher os porta-aviões e voltar para casa. Isso seria admitir a derrota. A sua base eleitoral, alimentada por décadas de propaganda sionista e excepcionalismo americano, não perdoaria.

O Irã, por sua vez, não quer uma guerra. A liderança iraniana é responsável e sabe que, mesmo vencendo militarmente — no sentido de sobreviver e infligir danos inaceitáveis —, o custo humano seria imenso.

Leia ainda:

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O Ataque dos EUA e de Israel ao irã é um Ataque ao BRICS. Ao Mundo Multipolar

As negociações em Omã, patrocinadas por russos e chineses, servem exatamente a este propósito: construir uma ponte para que Washington possa recuar, sem parecer derrotado. Entretanto, como esperado, se noticiou hoje, que o Irã recusou a exigência do desmantelamento do programa de mísseis balísticos.

O Irã, admitir desmantelar o seu programa de mísseis balísticos ou mesmo reduzir o seu alcance, seria um suicídio, até porque Israel, traiçoeiro, imediatamente se aproveitaria dessa vulnerabilidade.

A única coisa que o Irã está disposto a discutir são aspectos do seu programa nuclear.

John Helmer é o mais direto:

“Trump está em retirada em todas as frentes — Ucrânia, Irã, política interna. A tarefa dos iranianos é encontrar uma maneira de permitir que ele recue sem deixar óbvio que está com o rabo entre as pernas.”

E SE O IMPÉRIO ATIRAR NO PRÓPRIO PÉ?

Apesar de todo este diagnóstico racional, há um fator que nenhum dos analistas pode garantir: a irracionalidade humana.

Douglas Macgregor admite que o Presidente está rodeado por fanáticos — os Bryan, os Rubio, os Graham — que ainda acreditam no mito da invencibilidade americana.

Gente que olha para o Afeganistão (21 anos de guerra, derrota) e vê sucesso. Que olha para a Ucrânia (exaustão de munições, isolamento europeu) e vê “contenção da Rússia”.

Larry Johnson alerta para a pressão do lobby sionista, materializada na figura de Stephen Bryan, um “sionista moderado” que, pela primeira vez em 40 anos de carreira, escreveu um artigo emocional e beligerante contra o Irã.

“Quando um homem racional como Bryan perde a razão, é sinal de que a pressão sobre Trump é imensa.”

Scott Ritter, o mais pessimista dos quatro, não descarta um acidente. O abate do drone iraniano pelo Abraham Lincoln foi um ato de pânico, não de estratégia. Um erro de cálculo, um radar que pisca vermelho, um capitão nervoso, e o Estreito de Ormuz pode virar um barril de pólvora.

O VEREDICTO: O CENÁRIO MAIS PROVÁVEL

Vamos a um exercício: compilar as quatro visões — Johnson, Helmer, Ritter, Macgregor —, e os artigos que publicamos em junho de 2025 sobre o ataque ao BRICS e o medo americano do Irã. Assim podemos arriscar uma projeção para as próximas semanas:

1. CURTO PRAZO (Fevereiro–Março/2026):

  • Ameaças e contra-ameaças continuarão. Os B-2 farão voos intimidatórios. Os iranianos exibirão novos mísseis.
  • As negociações em Omã avançarão lentamente, focadas exclusivamente no programa nuclear (enriquecimento de urânio).
  • Marco Rubio será ignorado. A exigência sobre mísseis balísticos cairá por terra, pois é uma condição de rendição, não de negociação.
  • Não haverá ataque americano. A falta de capacidade militar objetiva e o calendário eleitoral impedem qualquer aventura.

2. MÉDIO PRAZO (2026–2027):

  • Um novo acordo nuclear — JCPOA 2.0 — será assinado. Será menos ambicioso que o de 2015, mas suficiente para aliviar sanções.
  • O Irã continuará a aprofundar os seus laços econômicos e estratégicos com a Rússia e com a China. O exercício naval conjunto no Mar da Arábia (fevereiro/março) será o ponto alto desta integração.
  • Israel, isolado e militarmente incapaz de agir sozinho, recorrerá à guerra cibernética e ao terrorismo (assassinatos de cientistas e de militares graduados). Nada que altere o equilíbrio estratégico.

3. LONGO PRAZO (2028+):

  • O mundo multipolar irá se consolidar em definitivo. O Irã será uma peça estável no tabuleiro eurasiano.
  • Os EUA enfrentarão uma escolha: aceitar a nova realidade ou se aventurar em um conflito de proporções catastróficas — possivelmente o último suspiro do unipolarismo.

O IMPÉRIO DOS ESPELHOS

Os Estados Unidos de 2026 lembram a Rainha Má de Branca de Neve. Todos os dias, perguntam ao espelho: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais poderoso do que eu?”

E o espelho, fabricado pela Lockheed Martin e pela Raytheon, responde: “Não, minha rainha. Vocês são os maiores.”

Mas o espelho mente. O mundo real, lá fora, mudou. Os mísseis hipersónicos não se importam com orçamentos do Pentágono. Os radares 3D chineses não se impressionam com certificados de furtividade. E os 93 milhões de iranianos que marcharam nas ruas em 1979, 2009, 2019 e 2025 não vão depor as armas porque um apresentador de televisão na Casa Branca ordenou.

O Império dos Espelhos está prestes a quebrar. A questão não é se ele atacará o Irã. A questão é se ele terá dignidade suficiente para aceitar o declínio, sem arrastar o mundo para o abismo.

Até agora, os sinais não são animadores. Mas, pela primeira vez, em décadas, o medo não está do lado de Teerã. Está do lado de Washington.

E isso, caro leitor, é o princípio da sabedoria.

Esse artigo foi baseado em:

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