Nacional, Economia
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Por PolitikBr I Brasília, Em 28/01/2026, 18h:56, leitura: 4 min
Editor: Rocha, J.C.
Os Números Dourados
Em janeiro de 2026, o Ibovespa decidiu escrever a sua própria versão da trajetória de sucesso do atual governo, após superar a marca histórica dos 177 mil pontos do principal índice da B3 ( Valor da Carteira Teórica. Cada ponto do Ibovespa equivale a R$ 1,00 ).
Em 27 de janeiro, a B3 fechou acima dos 182 mil pontos pela primeira vez na história, em uma alta de 2,02% que reflete uma sequência vertiginosa de recordes. Os números, de fato, são impressionantes e evoluíram rapidamente.
Enquanto nos primeiros 20 dias do ano ingressaram mais de R$ 12 bilhões de capital estrangeiro, o volume financeiro nesta terça-feira de recorde atingiu a cifra de R$ 31,60 bilhões.
Paralelamente, o dólar comercial, em queda consistente, caiu a R$ 5,2074, seu menor valor de fechamento desde maio de 2024, com uma desvalorização anual acumulada de 5,13%. Este cenário, celebrado como “Efeito Lula“, e alimentado por um fenômeno global apelidado de “Movimento Brasil“, é a consagração de um projeto de estabilidade.
As Raízes do Otimismo
Para compreender a atual onda de otimismo, é necessário desmontar a narrativa simplista e examinar as engrenagens que verdadeiramente movem este fenômeno. A primeira delas é o cenário global desolador combinado com uma política monetária doméstica ainda extremamente rígida.
Enquanto se espera que o Federal Reserve americano mantenha seus juros numa faixa entre 3,50% e 3,75%, a Selic brasileira permanece firmemente ancorada em 15%. Este abissal diferencial de juros, reconhecidamente um dos pilares da atração de capitais, funciona como um ímã de curto prazo para investimentos em renda variável.
A queda do dólar e a alta da bolsa “apontam para muito capital entrando no país” em uma “rotação global para fora dos EUA“.
O Brasil, com a elevada rentabilidade ao capital financeiro especulativo, se torna um destino conveniente e de retorno imediato, mas não necessariamente escolhido por méritos produtivos intrínsecos.
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O Abismo Entre o Financeiro e o Real
O fato de o dólar despencar ante o real, exatamente no momento em que o Ibovespa superava os 183 mil pontos, é um sintoma de que os fluxos financeiros dominam a cena. Uma parcela significativa dos capitais estrangeiros que celebramos não financia novas fábricas ou inovação; é capital volátil que compra papéis na bolsa, buscando ganhos rápidos com a oscilação de preços e o carry trade proporcionado pelos juros estratosféricos.
Enquanto o índice “MSCI Brazil” dispara nas telas de Nova York e o volume financeiro na B3 bate novos patamares, o país vive uma crise eterna: se celebra a riqueza virtual criada no pregão, que beneficia uma ínfima parcela da população, enquanto se perpetua um modelo predatório, onde o combate à inflação se dá via juros abusivos; um verdadeiro confisco da renda dos mais pobres em direção aos mais ricos, isto é, a celebração máxima do nefasto neoliberalismo. O que, por sua vez, estrangula o crédito para investimentos produtivos de longo prazo. É a vitória do rentismo sobre o empreendedorismo produtivo, agora potencializada por um influxo global sem precedentes.
Os Ventos Podem Mudar
O atual momento da economia brasileira é, antes de tudo, um reflexo complexo e contraditório de um jogo global de capitais em fuga dos EUA, de uma conquista de estabilidade ainda incompleta e das limitações históricas do nosso modelo de crescimento.
Os “bons ventos” são reais e sopram com força, impulsionando o Ibovespa a territórios inexplorados e deprimindo o dólar; mas sopram sobre bases arenosas. A dependência de um diferencial de juros insustentável a longo prazo, a atração do capital especulativo e o abismo entre o financeiro e o real são vulnerabilidades profundas que os recordes da bolsa não apagam.
A verdadeira prova de fogo para a política econômica não será medida em pontos do Ibovespa ou em mínimas do câmbio. Ela residirá na capacidade de usar essa janela de credibilidade e influxo de capital, para promover as reformas que transformem este capital financeiro volátil em investimento produtivo duradouro.
O desafio é evitar que o “Movimento Brasil” de hoje, não se torne, amanhã, apenas mais um movimento de saída em massa, deixando para trás a ressaca de uma euforia vazia e as mesmas velhas dificuldades estruturais.
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