Internacional, Geopolítica
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Por PolitikBr I Brasília, Em 22/01/2026, 19h:36, leitura: 7 min
Editor: Rocha, J.C.
Este artigo teve como uma das principais bases de apoio o conteúdo transcrito do vídeo – https://youtu.be/SLE1DryEUS4?si=RdLvtpN7iuF40mW- de autoria atribuída a Lawrence O’Donnell, apresentador do The Last Word na MSNBC, que por razões desconhecidas, foi excluído do YouTube.
Vamos ao artigo:
Algo essencial se partiu no coração do poder em Washington. Trump cada vez mais contestado abertamente nos Estados Unidos, viu senadores republicanos, pela primeira vez em anos, não atender as suas ligações. E isso revela que Trump já não exerce o controle absoluto sobre seu partido, e sobre o aparato institucional do poder americano.
O que está em jogo não é apenas mais uma crise política episódica, mas a implosão gradual da premissa que sustentou o trumpismo desde a sua origem: a crença de que o medo é suficiente para governar.
No centro desse abalo está uma disputa aparentemente técnica, mas profundamente simbólica — a tentativa do Senado de reafirmar os seus poderes constitucionais sobre decisões de guerra, limitando a capacidade do presidente em usar a força militar como instrumento pessoal de intimidação, espetáculo e domínio político.
Para Trump, cuja relação com o poder sempre foi visceral e performática, essa iniciativa não representa apenas um revés estratégico. Se trata de uma ameaça existencial. Ele compreendeu, talvez melhor do que muitos teóricos da política, que a guerra — ou a simples ameaça — concentra poder. O medo silencia dissidentes, dissolve resistências e produz lealdades forçadas.
Sob o pretexto da “segurança nacional” – desculpa usada por Trump para usurpar o poder do legislativo – , se torna possível, fácil, não questionável, o uso do interesse público em favor da ambição pessoal, estratégia com encenação, liderança com coerção.

O que torna esse momento singular é a origem da rebelião. Ela não vem dos democratas, nem da imprensa que Trump aprendeu a demonizar. Ela emerge de dentro do próprio Partido Republicano.
Figuras como o senador Rand Paul decidiram romper o pacto tácito de silêncio e da submissão.
Em uma arena improvável, o senador Paul desmontou, com precisão, os pretextos usados para justificar uma possível escalada militar na Venezuela. Ele questionou a conversão oportunista do combate ao narcotráfico em justificativa para bombardeios. Ridicularizou a ideia de que indiciamentos redigidos em Washington possuam validade universal. Expôs a hipocrisia de criminalizar a posse de armas por líderes estrangeiros, quando a mesma lógica atingiria milhões de cidadãos americanos.
Cada pergunta corroía um pouco mais a narrativa oficial. Se tornava evidente que o problema jamais foram drogas, cartéis ou a legalidade internacional. O núcleo da questão era outro: encontrar qualquer justificativa funcional para o uso da força. Porque a força gera alavancagem. A alavancagem produz domínio. E o domínio — despido de valores, princípios ou coerência — é a única linguagem política que Trump realmente domina. Esse padrão de comportamento explica por que a retórica de Trump frequentemente beira e até ultrapassa o absurdo.
Quando Trump sugeriu, de forma deliberadamente ambígua, a possibilidade de incorporar a Groenlândia pela força aos Estados Unidos, não se tratava de um devaneio isolado, mas de um teste. Um balão de ensaio para medir reações, sondar limites, verificar se o medo ainda poderia substituir a razão – essa é uma das principais estratégias de desestabilização usada pela extrema direita. Ataca e depois recua.
A resposta, contudo, foi reveladora. Os aliados da OTAN reagiram com choque. E dentro do Partido Republicano, o silêncio foi ensurdecedor. A ameaça a um aliado estratégico ultrapassava o limiar do tolerável, mesmo para os mais condescendentes.
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A tentativa de justificar a bravata como necessidade geopolítica frente à Rússia ou à China desmoronou sob o menor escrutínio — sobretudo diante do histórico de complacência e ambiguidade de Trump em relação a esses mesmos regimes. A contradição entre a sua retórica belicosa e a sua prática oportunista se tornou explícita, e politicamente insustentável.
Pressionado por esse desgaste, o Senado começou a reagir. Trump respondeu como sempre: atacando. Chamou de “estúpidos” os senadores republicanos que permitiram o avanço da resolução que limita seus poderes de guerra. Mas o ataque teve efeito inverso. Em vez de intimidar, cristalizou a ruptura. O que se desenha não é um simples conflito procedimental, mas um referendo silencioso sobre a autoridade de Trump dentro do partido republicano.
Os sinais se acumulam. Os movimentos no Congresso para bloquear o uso da força militar contra a Groenlândia surgiram como resposta direta às ameaças vagas do presidente. Ainda que simbolicamente limitadas, essas iniciativas reafirmam um princípio fundamental: a prerrogativa constitucional do Legislativo sobre decisões de guerra. Após anos de submissão, o Congresso começa a redescobrir a sua função.
Essa insubordinação não se restringiu à política externa. Em paralelo, coalizões bipartidárias rejeitaram os cortes orçamentários propostos por Trump à ciência e à pesquisa. Onde ele exigia cortes drásticos — 56% na Fundação Nacional de Ciência, reduções severas na NOAA e na pesquisa básica — um outro traço clássico da extrema direita: a negação da ciência, das artes e da cultura – o Congresso respondeu com estabilidade ou aumento de recursos. Cada uma dessas decisões corrói o mito da inevitabilidade trumpista.
O poder de Trump nunca foi institucional; foi e é psicológico. Ele se sustenta na expectativa da punição, do medo, da humilhação pública, da retaliação eleitoral, e da exclusão do partido. Agora, no entanto, senadores que antes se curvavam passam a hesitar, a silenciar, a adiar compromissos. A incerteza paralisa quem depende do domínio absoluto.
A resolução sobre os poderes de guerra avançou com apoio republicano significativo, algo impensável poucos anos atrás. Mesmo que o texto final sofra ajustes, o recado político já foi dado: o feitiço do medo começa a se dissipar.
O Senado, lentamente, desperta de um longo torpor. Prova disso é que diante desse cenário interno, Tump abandonou a retórica do uso da força militar para anexar a Groenlândia, e a substituiu pela chantagem descarada contra os países europeus, que enviaram um exíguo contingente militar, em reforço à proteção da ilha: Alemanha, França, Reino Unido, Suécia e Noruega; anunciando a imposição de uma tarifa econômica inicial de 10% sobre os produtos e serviços desses países, até que a Europa concorde em entregar – vender – seja o que for – a Groenlândia para ele: Um projeto claramente pessoal de um déspota. Não um projeto estratégico. Quero por que quero. Em resumo.
O legado de Trump começa a se definir menos por suas vitórias do que por suas derrotas. E esta, em particular, é reveladora. Ela expõe um partido que, fraturado, começa a formular a pergunta mais perigosa para qualquer líder autoritário: o que vem a seguir dele? Uma vez colocada, essa pergunta nunca desaparece. Ela corrói lealdades forjadas pelo pavor e as substitui por cálculos frios de sobrevivência política, com viés reativo.
Trump acreditou que o medo era eterno, que a lealdade era permanente e que o poder se sustentava por inércia. O levante silencioso no Senado prova o contrário. O poder raramente colapsa em um único momento espetacular. Ele se desgasta. Primeiro em telefonemas não atendidos. Depois em silêncios constrangedores. Por fim, em votações públicas que restauram — ainda que timidamente — os freios e contrapesos da democracia.
O que se desfaz, diante de nossos olhos, não é apenas uma estratégia política, mas uma ilusão. E Washington, talvez tarde demais, começa a acordar do pesadelo.
Esse artigo foi baseado em:
https://youtu.be/SLE1DryEUS4?si=RdLvtpN7iuF40mW- ( Conta encerrada no You Tube por razões desconhecidas. O Blog fez a transcrição do vídeo atribuído a Lawrence O’Donnell, apresentador do The Last Word na MSNBC, conhecido por suas críticas contundentes a Trump )
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cdxjy4vnz97o
https://jovempan.com.br/opiniao-jovem-pan/comentaristas/eliseu-caetano/congresso-move-proposta-para-bloquear-uso-de-forca-militar-contra-groenlandia-em-meio-a-ameacas-de-trump.html
https://www.folhape.com.br/noticias/trump-critica-estupidez-de-senadores-republicanos-que-votaram-para/460358/