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Por PolitikBr I Brasília, Em 13/12/2025, 18h:13, leitura: 10 min
O cenário político é repleto de promessas, interesses disfarçados e ilusões. Às vezes, uma cena se desenrola de forma tão perfeita que captura a essência de uma relação: a do engano sofisticado.
Em julho de 2025, um movimento parecia a grande vitória da extrema-direita brasileira nos bastidores internacionais. Donald Trump sancionou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes através da Lei Magnitsky. O gesto era claro: um recado de apoio aos aliados bolsonaristas; uma tentativa de blindar Jair Bolsonaro das ações judiciais e uma pressão descarada sobre o Judiciário brasileiro. Era a resposta a meses de lobismo intenso de figuras como o deputado Eduardo Bolsonaro e o influenciador Paulo Figueiredo. A sensação era de triunfo. Mas a política internacional, especialmente sob a batuta de um pragmático como Trump, não se move por lealdade ideológica, e sim por cálculo de interesses.
Ontem (12/12) o cenário virou de cabeça para baixo. Com o mesmo ímpeto com que aplicou, Trump retirou as sanções contra Moraes e a sua esposa; assim como contra a empresa de advocacia do casal e seus bens, por ventura existentes nos Estados Unidos.
O que se viu então foi o despertar brusco de quem percebe, tardiamente, que caiu em um elaborado “Conto do Paco” – aquele golpe antigo em que a vítima, atraída pela promessa de um pacote valioso, entrega o que tem de real em troca de nada.
A reviravolta não foi um acaso, mas o epílogo lógico de uma estratégia que, desde o início, servia mais aos interesses dos Estados Unidos do que aos do bolsonarismo. Figuras-chave do movimento não esconderam a sensação de terem sido instrumentos descartáveis.
Nos bastidores, lideranças classificaram o desfecho como “péssimo” e “aterrador”. Em tom de desabafo, um deputado do PL chegou a afirmar que “Trump nos usou”. O comentário sintetiza a frustração de quem investiu tanto capital político em uma cruzada internacional que, no fim, foi revertida por uma simples canetada de quem eles consideravam aliado.
O deputado Bibo Nunes (PL-RS), por sua vez, declarou estar “profundamente chocado”. A decepção, porém, expos a ingenuidade – ou tolice se você quiser chamar assim – de quem acreditou que laços ideológicos superariam a realidade da geopolítica.
A sanção dos Estados Unidos, em seu cerne, nunca foi sobre o ministro Alexandre de Moraes, Elon Musk, ou a democracia maculada, aos olhos da extrema direita tupiniquim. Ela fez e faz parte de uma guerra geopolítica em curso, envolvendo os interesses estratégicos dos Estados Unidos e do BRICS; em especial, os da China, da Rússia, do Irã e do Brasil.
A anulação de parte das sanções econômicas contra o Brasil e a anulação da sanção contra Moraes são resultados palpáveis das negociações que vem sendo conduzidas entre o Brasil e os Estados Unidos; e que envolve complexas negociações comerciais e diplomáticas. Não é por outra razão que Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, nos Estados Unidos, tentaram evitar que os negociadores do Brasil se encontrassem com Marcos Rubio e demais personalidades da governança Trump.
Eles sabiam, de antemão, que se esses entendimentos prosperassem, como aconteceu, primeiramente que Trump saberia da versão brasileira sobre a natureza dos processos contra o ex-presidente, condenado, Jair Bolsonaro e, em segundo lugar, já era esperado que o presidente Lula, um hábil negociador, assim como o vice Geraldo Alckmin, iria reverter e até anular o jogo que os dois indivíduos vinham patrocinando, em conluio com os mais radicais da extrema direita americana, contra o Brasil e o judiciário.
E não deu outra: a “química” rolou entre os dois líderes e os extremistas, lá refugiados, ficaram sem pé e nem chão. Eles perceberam a real insignificância de suas ações e o que eles representam, quando interesses nacionais se fazem presente. Um clássico caso de arrogância. Para dizer o mínimo.
A Cruzada Bolsonarista: Um Esforço Construído Sobre Areia
Para entender a dimensão da queda é preciso revisitar a construção da esperança. A inclusão de Alexandre de Moraes na lista da Lei Magnitsky foi apresentada como uma conquista monumental. Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo se posicionaram como arquitetos dessa pressão internacional, atuando nos corredores de Washington para criminalizar a figura do ministro perante o mundo. A acusação era a de que Moraes promovia uma “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro, usando o STF para fins políticos. A narrativa era vendida como uma batalha épica pela liberdade contra a tirania judicial.
Essa campanha, no entanto, tinha um vício fatal, de origem: a Lei Magnitsky, criada para punir violações graves de direitos humanos e atos de corrupção, foi distorcida de sua finalidade original. Até mesmo Bill Browder, o ativista que inspirou a lei, considerou sua aplicação contra Alexandre de Moraes como política e injusta. O uso da lei foi um claro exemplo de “instrumentalização política”. Parte de uma “cartilha autoritária de Trump” para intimidar opositores e proteger aliados.
A condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão, em novembro, foi o evento que começou a rachar as fundações dessa estratégia.
Com o ex-presidente efetivamente condenado, o principal objetivo tático da sanção – intimidar o STF para evitar a condenação – se tornou obsoleto. A pressão internacional perdeu sua razão de ser prática. Em vez de um trunfo, a sanção se tornou um problema diplomático desnecessário para os EUA, um obstáculo na reaproximação com o governo Lula, que desde o início tratou o caso como uma afronta à soberania nacional.
O Pragmatismo de Trump e o Resgate da Soberania Brasileira

Enquanto a extrema-direita brasileira celebrava uma vitória simbólica, o presidente Lula e o chanceler Mauro Vieira conduziam uma diplomacia silenciosa, porém firme. O discurso foi constante: não se admite que um presidente estrangeiro puna autoridades brasileiras no exercício legítimo de suas funções constitucionais.
Essa posição não era apenas retórica. Encontros bilaterais, conversas telefônicas e uma reunião em Kuala Lumpur, na Malásia, marcaram a “atuação forte do Itamaraty”, que buscou convencer Washington de que a motivação original das sanções já não se sustentava.
O cálculo de Trump, por sua vez, sempre foi econômico e estratégico. A sanção e o “tarifaço” eram duas faces da mesma moeda: pressão máxima para forçar concessões favoráveis aos EUA.
Uma vez que o Brasil não cedeu às intimidações e que a condenação de Bolsonaro se concretizou, manter a punição a Moraes trazia mais prejuízos do que benefícios. Impedia uma relação diplomática mais fluida com o maior país da América do Sul, – uma enorme potência agrícola, industrial e econômica – em um momento de reconfiguração global. A decisão de recuar foi, portanto, um movimento pragmático, não ideológico.
O líder do Partido Liberal (PL) na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante, resumiu bem ao dizer que Trump “tem interesses americanos em primeiro lugar“. A ironia é que, ao agir em defesa dos próprios interesses, Trump desmontou a principal arma internacional do bolsonarismo. Só os tolos e os ingênuos pensariam que Trump, ou qualquer outro líder, agiria diferente.
A Reação Amarga e a Lição Não Aprendida
A nota conjunta de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, após a revogação da sanção contra Moraes, é a confissão da frustração e do autoengano. Eles “receberam com pesar” a notícia e se mostraram incapazes de culpar seu aliado; atribuindo a decisão à “falta de coesão interna” no Brasil e à “falta de unidade política” para sustentar a ofensiva.
Há de se notar que o raciocínio da dupla inverte a lógica: a culpa pelo fracasso de uma manobra internacional seria da sociedade brasileira, que não se uniu em torno de um projeto que buscava deslegitimar sua própria Suprema Corte. Eles agradecem a Trump pelo “apoio” e encerram com um melancólico “Que Deus abençoe a América, e que tenha misericórdia do povo brasileiro”. Patético.
A Democracia Fortalecida
A anulação da Lei Magntisky contra o ministro Alexandre de Moraes expõe uma contradição profunda no núcleo do bolsonarismo: a falácia de um falso nacionalismo exacerbado em discurso que, na prática, buscou subordinar a soberania do país ao julgamento e aos interesses de uma potência estrangeira.
O Brasil, através de seu Presidente e de suas instituições, defendeu com sucesso o princípio de que as decisões de Estado são tomadas com base em interesses nacionais legítimos, em obediência à Constituição Federal, e não em alinhamentos ideológicos momentâneos ou em pressões de facções políticas domésticas. A democracia brasileira, como afirmou Lula, saiu fortalecida.
Trump e o Conto do Paco
O “Conto do Paco” aplicado por Trump aos extremistas tupiniquins foi magistral. Os bolsonaristas foram levados a acreditar que possuíam um aliado poderoso incondicional e que o “pacote” das sanções contra o Brasil era um tesouro que traria a redenção de Jair Bolsonaro. Para isso, investiram seu capital político, sua credibilidade e trabalharam meses “contra o Brasil e as autoridades do judiciário”.
No momento da troca, quando a geopolítica exigiu, Trump simplesmente entregou o embrulho vazio e reteve os ganhos reais – o poder de barganha e a demonstração de força. A vítima, iludida pela ganância do ganho político fácil, ficou apenas com a nota de agradecimento e a dolorosa percepção de que foi usada. A lição, dura, é que na política internacional não há almoço grátis, e muito menos para aqueles que confundem um golpe de estelionato com uma parceria estratégica.
Esse artigo foi baseado em:
- “Trump nos usou”: a sensação dos bolsonaristas após a queda das sanções a Moraes
- Lula diz que fim de sanção a Alexandre de Moraes é bom para o Brasil
- A reação de Eduardo e Figueiredo ao fim da Magnitsky contra Moraes
- Estados Unidos retiram Moraes e esposa da lista de sanções da Magnitsky
- O Abuso Por Trump do Uso da Lei Magnitsky contra Adversários – PolitikBr
- Alexandre de Moraes: O Herói da Democracia Brasileira – PolitikBr



