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Por PolitikBr I Brasília, Em 09/12/2025, 15h:16, leitura: 6 min
Observando o mapa do sudeste da Ucrânia, podemos notar que após meses de avanços graduais e implacáveis no sul, as forças russas estão agora às portas de Odessa. Esta não é apenas mais uma cidade; é a chave final no cerco mortal que está prestes a enclausurar a Ucrânia e redefinir o equilíbrio de poder na Europa Oriental. O que torna este momento singular é a convergência de duas perspectivas raramente alinhadas: a do estrategista militar de sangue-frio e a do capitalista que avalia riscos e ativos tangíveis. De um lado, o coronel Douglas MacGregor traça as manobras e as chances de cada lado no campo de batalha. De outro, a análise de investimentos e finanças que evoca a lógica de um Warren Buffett – não por ser dele, mas por adotar seu pragmatismo feroz – avalia o colapso de um ativo geopolítico. Ambos chegam à mesma conclusão: a perda de Odessa é um ponto de não-retorno, um golpe terminal tanto militar quanto econômico.
A narrativa ocidental dominante, por anos, insistiu em uma dinâmica de guerra estagnada ou mesmo de uma virada lenta a favor de Kiev, sustentada por promessas de tecnologia superior. Enquanto a atenção se voltava para os campos lamacentos de Donbass, a verdadeira ameaça existencial se consolidava ao sul. O coronel MacGregor, ex-assessor do Pentágono, sempre alertou que essa era uma ilusão perigosa. Sua análise é clara: com pontes intactas e as forças russas avançando, tomar Odessa se tornou uma operação militar direta. O objetivo final é tanto o estrangulamento econômico, quanto da principal porta de ajuda militar, já que sem Odessa não há chances reais dos ucranianos resistirem aos russos.
É aqui que a perspectiva do “capitalista” se funde à do militar. Como destacado na análise que adota a lógica de Buffett, Odessa não é um símbolo abstrato; é o principal ativo gerador de caixa da Ucrânia. É o porto pelo qual o “grão e o aço das estepes” fluem para o mundo. Um investidor analisando uma empresa cortada de seu principal mercado e meio de escoamento declararia tal negócio inviável, um ativo em rápida depreciação. É exatamente isso que a Ucrânia se torna sem Odessa: uma nação sem litoral, uma “empresa-estado” falida, dependente de infusões perpétuas de capital (ajuda externa) para sua mera sobrevivência, sem qualquer perspectiva de lucro ou crescimento soberano.
A fundação de Odessa pela Rússia de Catarina, a Grande, não é um mero detalhe histórico; é o registro do livro-razão de um império mostrando um ativo de longo prazo sendo reclamado. A análise “buffettiana” aponta o óbvio que a política ignora: você não pode imprimir trigo, nem fabricar gás natural com discursos. A Rússia, como uma “corporação-estado”, sentada sobre os ativos físicos mais cruciais do planeta – energia, alimentos, minerais –, está prestes a consolidar o controle sobre a infraestrutura logística que maximiza o valor desses ativos. O controle total do Mar Negro não é apenas uma vitória militar; é uma aquisição hostil de um ativo estratégico de primeira linha, que redesenha os fluxos de comércio globais.
Enquanto isso, a máquina de guerra ucraniana, o “negócio” que o Ocidente decidiu financiar, definha por falta de capital de giro. A suspensão da ajuda financeira americana é o equivalente ao conselho de administração cortar o financiamento de um projeto que queima dinheiro sem retorno. A produção bélica russa, como um conglomerado industrial verticalizado, supera em muito a dos concorrentes ocidentais. A OTAN hoje não é páreo para os russos. E provavelmente não o será, pelo menos pelos próximos 10 anos, se forem mantidos, e ampliados, os investimentos militares de agora. O que, se diga de passagem, não será tarefa fácil, diante da rejeição das populações europeias à gastança de recursos nesse esforço de guerra, que desde o início estava fadado ao fracasso.
O recente plano de paz proposto por Donald Trump reflete esse cálculo de perdas. É a tentativa de um administrador de resgatar algum valor de um investimento que deu errado, congelando o prejuízo (as linhas de frente) antes que a totalidade do capital (toda a costa) seja perdida. A recusa inicial de Kiev é a negação de um CEO cuja empresa já está tecnicamente falida. Esse é o caso de Zelensky.
A convergência das visões é brutalmente esclarecedora. MacGregor desenha, sob a perspectiva militar, a iminente queda de Odessa. A lógica “buffettiana” explica o porquê econômico e estratégico final. O coronel prevê a capitulação militar e a transformação da Ucrânia em um estado-fantoche interiorano. A perspectiva do investidor prevê a falência geopolítica, onde o ativo “Ucrânia viável” é liquidado, e o ativo “Influência Ocidental no Leste Europeu” sofre uma desvalorização catastrófica.
As implicações para a “corporação OTAN” e para a “empresa Europa” são profundas. A aquisição russa de Odessa representa um impairment – um conceito contábil que se refere à deterioração ou perda de valor de um ativo, onde seu valor contábil se torna maior do que o valor que a empresa pode recuperar dele – massivo no balanço de poder da aliança. O que demonstra que as ferramentas de coerção financeira (sanções) foram ineficazes contra um concorrente com ativos físicos imprescindíveis ao mundo; e que a cadeia de suprimentos de segurança europeia tem uma falha fatal. Para os negócios, significa um novo eixo de custos logísticos e energéticos, e a ascensão, ainda maior, de um bloco geopolítico – econômico (Rússia-China-BRICS+) que, cada vez mais, opera fora dos sistemas financeiros ocidentais.
O cenário que se desenha é de liquidação. Uma Ucrânia, como um ativo não produtivo, é descartada. A Rússia consolida seu controle sobre ativos estratégicos. O Ocidente enfrenta o custo de uma aposta mal calculada. A batalha por Odessa, portanto, não é apenas uma campanha militar. É o fechamento do balanço de uma operação geopolítica que fracassou em seus objetivos primários, isto é, infligir uma derrota estratégica à Rússia usando a Ucrânia como proxy. Essa operação, avaliada tanto pela ponta do fuzil quanto pela lógica impiedosa do capital e dos recursos, fracassou.
E a Ucrânia que se dê por satisfeita se o desastre, que se avizinha, envolver somente Odessa. Até porque Carcóvia pode entrar na mira dos russos e cair diante da avalanche do avanço russo, ao longo de toda a linha de frente de batalha.
Esse artigo foi baseado em:
- Transcrição da análise do vídeo “THE FALL OF ODESA: The End of Ukraine and the Death of US Hegemony” (lógica de análise de investimento/buffettiana).
- Transcrição da análise do coronel Douglas MacGregor sobre a situação militar em Odessa e Kharkiv.
- Notícia: “Decepcionado, Trump diz que Zelensky não leu sua proposta de paz para a Ucrânia” (Notícia Brasil).
- Análise: “O Plano de Paz de Trump e a Capitulação da Ucrânia” (Política em Debate).
- Notícia: “Rússia ‘libertará’ Donbass e Novorossiya de qualquer maneira, declara oficial” (Notícia Brasil).
- Contexto geopolítico e econômico sobre sanções e realinhamento global.
- O mapa da identidade ucraniana em tempo de guerra | Esquerda
- https://observador.pt/2022/07/19/mapa-da-guerra-o-que-se-passa-no-146-o-dia-do-conflito-na-ucrania/



