Mais uma Chacina: caem os peões, poupam-se os chefões. Aqueles que moram em mansões, que vivem no “asfalto”.
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Por PolitikBr I Brasília, Em 29/10/2025, 20h:13, Leitura: 5 min
O Rio de Janeiro amanheceu mais uma vez coberto pelo cheiro acre da morte. A megaoperação policial no Complexo da Penha, ordenada pelo governador Cláudio Castro, já contabiliza 134 mortos — o maior massacre da história do estado.
O governo Castro tenta vender a chacina como “combate ao crime organizado”, mas é, na verdade, um ato de extermínio, uma demonstração de força que transforma vidas humanas em estatísticas e caixões em palanque político.
O massacre da Penha não é um episódio isolado, mas o retrato fiel de uma política de segurança pública falida e cínica, que há anos substitui inteligência por balas e investigação por execuções sumárias.
As forças policiais, amparadas por um discurso de “tolerância zero”, entram nas comunidades não para prender, mas para matar. O comportamento dos agentes, relatado por moradores e denunciado por organizações de direitos humanos, mostra uma disposição explícita ao confronto — estimulando um ambiente de guerra onde a reação dos traficantes se torna inevitável.
E como em toda guerra, os primeiros a morrer são sempre os peões do sistema: jovens pobres, pretos e periféricos. Os verdadeiros donos do tráfico, os que financiam, lavam e lucram com a droga, vivem longe dali — em coberturas da Zona Sul, mansões da Barra. No asfalto. São eles os que se beneficiam da engrenagem, blindados pelo poder econômico e pelas relações políticas que sustentam o crime de terno e gravata.
É uma guerra seletiva, uma guerra com endereço certo.
As câmeras registraram o governador Castro sorridente, elogiando o “sucesso da operação”, enquanto as famílias aguardavam para enterrar seus mortos. Marcelo Freixo disse: o governador “usou os caixões das vítimas como palanque político”.
A palavra “palanque” resume o espírito do governo: sangue como marketing, cadáveres como discurso, violência como moeda eleitoral.
O ministro Guilherme Boulos classificou a operação como “pirotecnia com sangue”, denunciando o uso midiático e calculado da morte como símbolo de poder.
De fato, se trata de uma encenação violenta, na qual o Estado celebra o extermínio como espetáculo, legitimando o horror sob o pretexto da lei e da ordem. A Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio) reagiu com indignação, exigindo explicações formais.
Se o propósito fosse de fato “desbaratar a quadrilha”, o resultado esperado seriam prisões estratégicas, apreensões, informações sobre as redes de comando — e não mais de cem corpos de soldados rasos, que nada sabem sobre os grandes esquemas – até porque são peões desse mega esquema criminoso – e que apenas sustentam o tráfico na ponta da miséria.
A operação, propositalmente como admitiu o governador, foi deflagrada sem comunicação ou pedido de auxílio ao Ministério da Justiça, o que fez o presidente Lula ficar “estarrecido” ao ser informado do massacre.
O episódio pode, ainda, ter sido amplificado por uma frase do presidente, dita dias antes:
“Toda vez que a gente fala de combater as drogas, possivelmente fosse mais fácil a gente combater os nossos viciados internamente. Os usuários são responsáveis pelos traficantes, que são vítimas dos usuários também.”
Embora Lula tenha se retratado rapidamente, o estrago estava feito. A extrema direita se agarrou à fala como combustível para tentar ressuscitar a velha bandeira da “segurança pública”, como se não fosse durante o governo Bolsonaro que se permitiu o registro de milhares de CAC´s (colecionador, caçador, atirador) com facilitação, sem precedentes, ao acesso de munição e armas de guerra quase sem controle. Grande parte desses armamentos foram, na verdade, parar na mão de traficantes e milicianos, que tentam infestam o Rio de Janeiro. Os mesmos fuzis AK-47 e AR-15 apreendidos nessa operação.
Recentemente se noticiou que um CAC recebeu mais de R$ 1,6 milhão para fornecer armas ao Comando Vermelho. De acordo com uma planilha encontrada no WhatsApp do traficante Luiz Carlos Bandeira Rodrigues, o Da Roça, a facção gastou mais de R$ 5 milhões em apenas um mês em armamentos. O material lista a compra de 44 mil cartuchos de calibres 7,62 e 5,56 e 14 fuzis — entre eles, um calibre .50, capaz de atravessar blindagens e derrubar aeronaves.
A chacina no Complexo da Penha foi o palco ideal para essa reedição discursiva da Segurança Pública, como se ela não fosse prioridade absoluta do governo Lula, da Polícia Federal e das forças de segurança — e Cláudio Castro, se prestou ao papel de protagonista. Ele que é o “patinho feio” da extrema direita.
O que se viu foi um horrendo jogo político. O sangue da favela virou instrumento eleitoral. A extrema direita enxergou no caos uma oportunidade de recolocar o medo no centro do debate, instrumentalizando o sofrimento humano como narrativa para 2026. Lula, que lidera as pesquisas, se tornou o alvo ideal.
A imprensa internacional não poupou críticas. Jornais estrangeiros classificaram a operação como “o pior dia de violência da história do Rio”. O mundo assistiu estarrecido ao espetáculo de barbárie que o governador do Estado do Rio insiste em chamar de “segurança pública”.
O massacre do Complexo da Penha expõe assim a falência ética de um Estado que mata em vez de governar. É a materialização de uma política que confunde autoridade com brutalidade e justiça com vingança. O resultado é um ciclo interminável de dor, medo e exclusão — um sistema que não combate o crime, mas o reproduz, porque extermina os pobres e preserva os poderosos.
Essa tragédia ultrapassa o limite da segurança pública. Ela desnuda o colapso moral de uma elite política que usa a violência como instrumento de poder, transformando o Estado em máquina de matar e a população periférica em alvo permanente.
Enquanto Cláudio Castro posa como herói e seus apoiadores celebram a “vitória contra o crime”, 134 famílias choram seus mortos. E o país, anestesiado, corre o risco de aceitar a barbárie como norma e não exceção.



