Netanyahu sabota o “Plano de Paz” de Trump para Gaza
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Por PolitikBr I Brasília, Em 16/10/2025, 12h41, Leitura: 5 min
O tão alardeado “plano de paz” entre Israel e o Hamas — mediado por Donald Trump e anunciado como um marco diplomático — começa a desmoronar antes mesmo de sair do papel. A sequência dos acontecimentos revela que o cessar-fogo não nasceu de boa vontade, mas da exaustão política, militar e moral de um Estado que há décadas sobrevive da guerra.
No podcast de Danny Haiphong, o ex-oficial de inteligência norte-americano Scott Ritter foi direto: o acordo foi imposto a Benjamin Netanyahu. O primeiro-ministro não tinha alternativa diante do colapso interno, da crise econômica e do isolamento diplomático crescente. Encurralado entre a queda do próprio governo e a deslegitimação internacional de Israel, Netanyahu cedeu.
Uma rendição disfarçada
Ritter foi categórico: “O Hamas venceu”. O chamado plano de Trump incorporou as exigências centrais do movimento palestino — o fim da ocupação israelense e a libertação de prisioneiros políticos, entre eles Marwan Barghouti, símbolo histórico da resistência e preso há mais de 20 anos. Trump, por sua vez, apenas “embalou e vendeu” o resultado, usando-o como vitrine política interna para conter a erosão do apoio pró-Israel nos Estados Unidos, inclusive entre evangélicos tradicionalmente sionistas.
Para Netanyahu, o acordo não é paz — é sobrevivência. Sua coalizão de extrema-direita se fragmenta; sem ela, perde o cargo e encara a prisão por corrupção. O cessar-fogo, portanto, é um cálculo: adiar o colapso e negociar uma saída pessoal, talvez no exílio. Mas o paradoxo é insolúvel. Sem os radicais — figuras como Ben-Gvir e Smotrich — Netanyahu não governa. Com eles, o acordo implode. Israel se torna prisioneiro da própria retórica: incapaz de coexistir sem dominar, mas condenado a desaparecer se insistir em dominar.
O esvaziamento do mito israelense
A entrevista também nos revela uma verdade incômoda: Israel não vence mais nenhuma guerra. Das ruínas de Gaza à fronteira com o Líbano, de Damasco a Teerã, a lógica expansionista chegou ao limite. O “corredor econômico Índia–Oriente Médio–Europa”, outrora apresentado como trunfo geopolítico, morreu pela insistência israelense na guerra permanente.
“Israel está isolado, dependente 100% do contribuinte americano”, resume Ritter. O país, antes símbolo de modernidade, se tornou um Estado sustentado por bilhões de dólares anuais de Washington. E o eleitorado norte-americano começa a se perguntar — até quando?
A sabotagem previsível
O padrão se repete. Danny Haiphong recorda que Netanyahu já sabotou acordos anteriores, inclusive com o próprio Trump. Dias após o anúncio do cessar-fogo, Israel voltou a bombardear o norte de Gaza, destruindo áreas civis em reconstrução — uma afronta direta ao tratado e à credibilidade do mediador norte-americano.
A justificativa, novamente, foi “autodefesa”. Mas não se trata de defesa: se trata de sabotagem. Uma tentativa de inviabilizar a reconstrução palestina e forçar o colapso do acordo que o próprio Netanyahu foi coagido a assinar. Internamente, ele acena à base extremista. Externamente, testa os limites da paciência de Trump. No fundo, reafirma o mesmo vício: Israel só sabe se afirmar pela negação da paz. Ele vive de intimidar e fazer guerras, assim como os Estados Unidos, que nesse momento intimida e anuncia incursões da CIA, em solo venezuelano, para tentar derrubar Nicolás Maduro. Veremos como ele se sairá.
O pária do Ocidente
Israel se tornou um pária global — odiado pelas populações e sustentado apenas por governos ocidentais cúmplices. “Boa sorte viajando com um passaporte israelense”, ironizou Ritter, prevendo o isolamento cultural e econômico do país. E Ritter tem razão. Quem não odiava o sionismo, agora odeia. Netanyahu conseguiu a proeza de destruir décadas de cultivo de uma boa imagem israelense diante do mundo. E quem venceu foi o Hamas. A causa palestina hoje é mais popular do que nunca.
A imagem de Israel como a “única democracia do Oriente Médio” ruiu sob o peso das imagens de Gaza: crianças mutiladas, hospitais devastados, cidades em cinzas. O paralelo histórico é inevitável. Assim como a França teve de deixar a Argélia, também Israel está sendo forçado a recuar. É a primeira vez em décadas. Mas o preço humano pago pelos palestinos é altíssimo, mas a semente da libertação já germinou. “Barghouti vai sair da prisão e pisar em solo palestino livre”, antevê Ritter. Será? Oremos pelos palestinos e pela paz.
O impasse e o perigo nuclear
Netanyahu é há muito tempo uma figura tóxica — para seu povo e para o mundo.
À beira da prisão, dependente de fanáticos religiosos e rejeitado globalmente, ele vê na continuidade da guerra sua única tábua de salvação. O problema é que ele ainda controla um arsenal nuclear. “Esse é o tipo de homem que comete genocídio”, alertam os analistas, lembrando que, em situação de desespero, qualquer decisão pode ser catastrófica.
Trump, por sua vez, mantém com Netanyahu uma relação mutuamente conveniente — feita de chantagens, afinidades ideológicas e interesses pessoais. Ambos exploram o sofrimento humano como instrumento de poder.
A paz que expõe a farsa
O “Plano de Paz de Trump” não é sinal de vitória, mas de rendição. Israel perdeu sua aura de invencibilidade, sua legitimidade moral e sua autonomia política.
O Hamas, com um custo humano devastador, obteve o impensável: forçar o ocupante a recuar.
Ao bombardear Gaza após o cessar-fogo, Netanyahu apenas confirma que o sionismo não sabe viver sem um inimigo. Quando a paz se torna inevitável, ele a destrói — para justificar sua própria existência.
O cessar-fogo, portanto, marca o início não da paz, mas do desmoronamento do mito israelense.
Esse artigo foi baseado em:
https://www.youtube.com/watch?v=nevTUlIKK_I
trump-autoriza-acoes-da-cia-na-venezuela-e-tensao-regional-cresce.html