MIGUEL NICOLELIS: A “Brain Net” do Americano em Frangalhos e o Risco de Convulsão e Desintegração dos EUA

Internacional, Geopolítica, Economia, Política

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Por PolitikBr I Brasília, Em 25/04/2026, 19h:52, leitura: 13 min

Editor: Rocha, J.C.

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O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, professor da Duke University, radicado nos EUA há 37 anos, jamais havia testemunhado algo semelhante. Os Estados Unidos que ele conheceu em 1989 — um país onde as pessoas acreditavam no sistema, confiavam no presidente, e se uniam em torno de ideias comuns — não existe mais. A “brain net” americana, o mecanismo neural que sincroniza a atividade elétrica de milhões de cérebros em torno de valores compartilhados, está em frangalhos. “Hoje não tem a brain net lá”, diz Nicolelis. Não tem”. A brain net foi fragmentada. Você não consegue consenso absolutamente nenhum.”

A guerra contra o Irã, as ameaças genocidas de Trump, a humilhação do vídeo “Trump, cala a boca” — tudo isso é sintoma de uma doença mais profunda. Uma doença que pode levar os Estados Unidos à desintegração como federação, a uma nova guerra civil, e ao fim do sonho americano.

Há 57 dias os Estados Unidos e Israel se lançaram em uma guerra contra o Irã sob falsos pretextos. Os objetivos declarados — mudança de regime, fim do programa nuclear de enriquecimento de combustível nuclear, fim do programa de mísseis avançados, abandono do apoio à grupos armados de resistência ao sionismo, como o Hesbollah, o Hamas, os Houthis e outros, e mais recentemente, a re – abertura do Estreito de Ormuz — não foram alcançados.

As bases americanas por todo o Oriente Médio, em especial no Golfo Pérsico, foram destruídas. Caças F-35, F-15, drones Reaper, e outras aeronaves de combate, foram abatidas. As defesas aéreas iranianas continuam ativas. E o Irã agora – algo que era livre – cobra um pedágio de US$ 1,00/barril de petróleo que passa por Ormuz, pois é o “Dono do Portão”.

Mas a derrota estratégica americana é apenas a ponta do iceberg. O que está em curso é o colapso da própria sociedade americana. E para entender esse colapso, é preciso ouvir quem testemunhou a sua evolução por quase quatro décadas.

O que é a “Brain Net”?

O doutor Nicolelis, um dos mais importantes neurocientistas do mundo, descobriu em laboratório o mecanismo pelo qual uma “brain net” se forma: a sincronização da atividade elétrica dos cérebros dos elementos de um grupo social. Isso acontece em macacos, pássaros, peixes — e em seres humanos.

A diferença é que, em outras espécies, a sincronização ocorre por recompensas tangíveis: comida, sobrevivência. Em humanos, a sincronização pode ocorrer por abstrações.

“Nós somos a única espécie, provavelmente, que sincroniza numa “brain net” a partir de abstrações. É uma ideia. Uma narrativa. Um deus, uma ideologia, infelizmente um preconceito. Isso é capaz de por milhões de pessoas juntas.”

A “brain net” dos Estados Unidos, no passado, era forte. Os americanos acreditavam no sistema. Acreditavam no presidente. Acreditavam que o governo não mentiria. Durante a primeira Guerra do Golfo (1990), o país inteiro se uniu — mesmo que por razões não corretas — porque confiava na palavra do comandante-em-chefe.

Essa confiança foi destruída.

A Fragmentação: Quando o Cientista Chamou o Gráfico de “Fake”

Nicolelis relata – O FIM DO SONHO AMERICANO – Miguel Nicolelis – um episódio que ilustra a fragmentação. Ele mostrou a um colega cientista americano um gráfico do economista ganhador do Prêmio Nobel Joseph Stiglitz, que mostrava o crescimento da desigualdade nos Estados Unidos.

“Falaram, ‘não, essa curva é mentirosa, isso não é. Cientista! O cientista virou pra mim e falou, ‘não, você tirou isso. Isso é fake’.”

O cientista não contestou a fonte. Contestou a própria ideia de que o gráfico poderia ser verdadeiro. A verdade se tornou uma questão de crença, não de evidência.

Eu falei, ‘não, o Stiglitz é um dos maiores economistas do país, ganhador do Prêmio Nobel, publicou no livro dele’. Você tá louco? Eu tirei da fonte do cara.”

A reação do colega é um sintoma do colapso da “brain net”: quando a realidade é contestada não por falta de evidência, mas por inadequação à narrativa de quem a recebe.

O Fim do Sonho Americano: Da Classe Média à Insolvência

Nicolelis descreve a transformação econômica dos EUA como um fator central da fragmentação.

“A geração pós-guerra, que foi para as universidades nos anos 50, nos anos 60… eles tiveram casa, tiveram uma vida muito razoável. E os filhos deles não estão tendo perspectiva nenhuma.”

A dívida estudantil nos EUA é uma bolha de trilhões de dólares. Os jovens saem da faculdade com dívidas de US$ 300 mil a US$ 500 mil — o preço de uma casa.

“Se os pais não ajudarem, e é muito raro os pais ajudarem, o moleque sai com uma dívida de 300, 500 mil dólares. E a inadimplência é gigantesca.”

Enquanto isso, em 2008, os bancos foram salvos com trilhões de dólares. As pessoas que perderam as suas casas — não as casas de praia, não as casas de montanha, mas a casa onde moravam — não foram salvas.

“Nesse instante, o americano… o número de sinais ‘vende-se’ numa vizinhança de professores universitários. Os caras tinham perdido a casa que moravam.”

A classe média americana, que foi a base da “brain net” do pós-guerra, está em frangalhos. E a “brain net”, sem uma base social sólida, se fragmentou.

As Tensões Regionais e o Separatismo nos EUA

A fragmentação da “brain net” não é apenas econômica e política. Ela tem raízes profundas em tensões regionais e identitárias que nunca foram completamente resolvidas.

O separatismo sulista nunca morreu. Embora a Guerra de Secessão (1861-1865) tenha sido vencida pelo Norte, o espírito de independência do Sul nunca foi totalmente erradicado. Estados como o Texas, a Carolina do Sul e o Mississippi mantêm, em diferentes graus, movimentos separatistas que ganham força em momentos de crise nacional.

O Texas, caso emblemático: O Texas é o caso mais avançado. O “Texas Nationalist Movement” tem como objetivo declarado a independência do estado, e pesquisas mostram que o apoio à secessão varia entre 20% e 30% dos texanos — um número significativo. O estado tem a sua própria rede elétrica (isolada do resto do país), a sua própria cultura, e uma economia gigantesca.

A Califórnia e o “Calexit”: O movimento “Calexit” ganhou força após a eleição de Trump em 2016. A Califórnia, um estado democrata em um país polarizado, tem a quinta maior economia do mundo. O argumento secessionista californiano é que o estado seria mais próspero e mais alinhado com os seus valores fora da federação.

Movimentos menos conhecidos: Além do Texas e da Califórnia, há movimentos separatistas no Vermont (segunda república de Vermont), no Alasca, no Havaí (soberania nativa), e até propostas de recriação do “Noroeste Americano” (Cascadia) unindo partes de Oregon, Washington e a Colúmbia Britânica canadense.

Enquanto o governo federal se mantiver forte e a “brain net” se mantiver estiver intacta no imaginário do americano, esses movimentos continuarão sendo expressões marginais e com poucas chances de prosperarem, na direção de uma ruptura da federação. Mas quando a “brain net” se fragmenta, como agora — quando a confiança no governo federal desaparece e as economias regionais começam a pensar em autossuficiência — o separatismo ganha nova vida.

O fim da União Soviética pegou o mundo de surpresa. Até poucos anos antes do colapso, os analistas ocidentais consideravam a URSS estável. Ninguém previu a desintegração — até ela acontecer.

O que os analistas não perceberam foi que a “brain net” soviética já havia se fragmentado. As repúblicas bálticas, a Ucrânia, a Geórgia, os estados da Ásia Central — todos já haviam, em seus imaginários, “deixado” a URSS muito antes de declarar independência formal. Quando o governo central fraquejou, a fragmentação foi rápida e irreversível.

Rivalidades Regionais e Identitárias: O Caldo de Cultura da Fragmentação

Além do separatismo organizado, há uma aversão visceral entre os segmentos da heterogênea identidade americana, o que alimenta a fragmentação social.

O Norte vs. o Sul: A Guerra de Secessão não foi esquecida. Para muitos sulistas, o orgulho confederado — personificado em bandeiras, estátuas e nomes de escolas — é uma forma de resistência cultural à hegemonia do Norte. Para muitos nortistas, o Sul é percebido como atrasado, racista e ignorante. A polarização eleitoral (estados vermelhos vs. estados azuis) coincide em grande parte com essa linha de fratura histórica.

O Litoral vs. o Interior: As elites da Costa Leste (Nova York, Boston, Washington) e da Costa Oeste (São Francisco, Los Angeles, Seattle) são frequentemente vistas pelos habitantes do “coração do país” (o meio-oeste e o sul) como desconectadas da vida real. Em contrapartida, as elites costeiras veem o interior como um território de ignorância e fanatismo religioso. Essa divisão não é apenas política — é cultural, econômica e até linguística.

A Rivalidade Religiosa: Os EUA são um país profundamente religioso, mas a religiosidade é segmentada. Os evangélicos (cerca de 25% da população) são uma força política poderosa e tendem a ser republicanos. Os católicos (cerca de 20%) estão mais divididos, mas se inclinam para os democratas. Os judeus (cerca de 2%) são majoritariamente democratas. Os muçulmanos (cerca de 1%) também. Os “nones” (sem religião, cerca de 25%) são mais jovens, mais urbanos e mais democratas.

As diferentes comunidades religiosas não apenas votam de forma diferente — elas se desprezam em alguns casos. O sionismo cristão, que apoia Israel por razões teológicas (acelerar o Armagedom), – apesar de abertamente os sionistas desprezarem e perseguirem os cristãos em Israel, inclusive atacando igrejas católicas e assassinando fiéis, à sangue frio, na faixa de Gaza – é visto com suspeição por judeus e católicos liberais. O evangelicalismo trumpista é visto por muitos não-evangélicos como uma forma de fascismo religioso.

A Divisão Racial: A questão racial nos EUA nunca foi resolvida. O movimento Black Lives Matter, a reação branca a ele, a tensão em torno de esculturas confederadas e do ensino da história racial nas escolas — tudo isso são expressões de uma ferida aberta que não cicatriza.

A Polarização Urbano-Rural: As cidades votam majoritariamente em democratas. O campo vota majoritariamente em republicanos. A disparidade não é apenas política — é de estilo de vida, de valores, de visão de mundo. Os habitantes do campo sentem que as cidades os desprezam; os urbanos sentem que o campo os oprime com o seu poder eleitoral desproporcional.

Quando uma sociedade está fragmentada dessa forma — por região, por religião, por raça, por urbanização — a “brain net” não tem chance. Não há narrativa unificadora que possa agradar a todos. Não há valor compartilhado que possa sincronizar cérebros tão diferentes.

A Brain Net em Frangalhos: O Que Vem Depois?

Nicolelis não está pregando a desintegração. Está testemunhando uma realidade que já está em curso. A “brain net” fragmentada já não consegue mais sustentar a coesão nacional. A única questão é quanto tempo levará para que a fragmentação neural se transforme em fragmentação política — e se essa transformação será pacífica ou violenta.

Ele testemunhou a unidade americana em momentos de crise. Após o 11 de setembro, o país se uniu — mas a união foi baseada em uma mentira (as armas de destruição em massa do Iraque). Quando a mentira foi exposta, a “brain net” começou a se fraturar.

“O cara do laboratório do lado veio pra mim e falou: ‘você tinha razão, os caras mentem’. Aí isso começa lentamente.”

A fratura explodiu em 2008, quando os bancos foram salvos e as pessoas não. E agora, com Trump, a fratura se tornou abismo.

“O americano começa a descobrir que os dois partidos são quase idênticos. Que não tem nenhum partido defendendo o Little Guy.”

Uma pesquisa recente mostrou que 21% dos republicanos já querem o impeachment de Trump. Tucker Carlson, o maior propagandista de Trump, se voltou contra ele. Marjorie Taylor Greene, a sua aliada mais fiel, foi humilhada por ele.

A brain net está em frangalhos.

Sem Brain Net, Não Há Federação

A história mostra que as federações desmoronam quando a confiança mútua desaparece. A União Soviética se desintegrou quando as suas repúblicas perderam a fé no centro. A Iugoslávia se fragmentou em uma guerra civil brutal quando as tensões étnicas foram politizadas. A Tchecoslováquia se separou pacificamente quando as diferenças se tornaram irreconciliáveis.

Os Estados Unidos, como federação, dependem da existência de uma “brain net” compartilhada — uma crença comum de que vale a pena permanecer unidos. Quando essa crença se fragmenta, a federação começa a se desfazer.

Nicolelis não prevê explicitamente a ocorrência de uma nova guerra civil. Mas a sua descrição do colapso da “brain net” — a incapacidade de sincronização, a desconfiança generalizada, a fragmentação da realidade — é a descrição de uma sociedade que está se preparando, consciente ou inconscientemente, para algo grande.

O Sonho Americano Acabou

Nicolelis chegou aos EUA em 1989, acreditando no sonho americano. Ele viu um país onde as pessoas acreditavam no sistema, onde o presidente era respeitado, onde a verdade era um valor compartilhado.

Esse país não existe mais.

O país que eu encontrei quando eu cheguei em 89 não existe mais. Eu tô testemunhando isso.”

A guerra contra o Irã é um sintoma. A humilhação de Trump é um sintoma. As ameaças genocidas, os recuos, as mentiras — tudo isso é sintoma de uma sociedade que perdeu a sua capacidade de se entender como coletividade.

A “brain net” está em frangalhos. O sonho americano acabou. E o que virá depois — uma federação mais frouxa? Uma guerra civil? A desintegração? Dependerá de se a sociedade americana conseguirá ou não reconstruir uma “brain net” baseada na verdade, e não na mentira.

Como escreveu Victor Hugo: “A queda é a fornalha, a decadência é o fogo lento.”

Os Estados Unidos estão no fogo lento. Nicolelis, que testemunhou a ascensão e a queda do sonho americano, nos lembra que o fogo lento é mais doloroso do que a queda. A queda é um momento. A decadência é um processo.

E nós estamos assistindo a ele em tempo real.

Este artigo não é sobre a guerra contra o Irã. É sobre o que a guerra revelou. Não é sobre Trump. É sobre o que Trump acelerou.

Esse artigo foi baseado em:

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