Nos anos 1980 e 1990, Silas Malafaia não era o mesmo personagem que hoje ocupa espaços midiáticos como porta-voz do bolsonarismo radical. Em falas públicas registradas à época, chegou a reafirmar que “o Estado é laico e a Igreja não deve se meter em política”, posicionamento que lhe rendeu destaque dentro e fora do meio evangélico. Mais que isso: em disputas presidenciais anteriores, Malafaia chegou a se empenhar pela candidatura de Luís Inácio Lula da Silva contra Fernando Collor, defendendo que o futuro presidente representava uma esperança popular.
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Por PolitikBr I Brasília, Em 21/08/2025, 17h:35, Leitura: 4 min
Da defesa da laicidade ao palanque da extrema-direita
O tempo, contudo, mostraria uma guinada radical. Aquele pastor que pregava equilíbrio institucional e distância entre púlpito e palanque se tornaria um dos maiores símbolos do contrário: a fusão deliberada entre religião, radicalismo ideológico e interesses políticos da extrema-direita no poder.
A metamorfose: do laicismo à cruzada bolsonarista
A partir dos anos 2000, Malafaia passou paulatinamente a ocupar um espaço cada vez mais agressivo no debate público. Se antes defendia a separação entre fé e política, agora transformava seus cultos e programas de televisão em tribunas contra adversários políticos, jornalistas, artistas e defensores de pautas progressistas.
O encontro definitivo entre esse novo perfil e a política se deu nas eleições de 2018, quando Malafaia despontou como um dos mais ativos articuladores evangélicos da candidatura de Jair Bolsonaro, operando como linha direta entre as igrejas neopentecostais e o projeto de poder da extrema-direita.
De aliado estratégico a investigado pela PF
Essa vinculação não terminou com as vitórias eleitorais. Pelo contrário, Malafaia se consolidou como um dos pastores mais próximos de Bolsonaro, servindo como voz de ataque ao Supremo Tribunal Federal (STF) e sustentando publicamente narrativas que buscavam desacreditar o processo eleitoral.
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Agora, em 2025, esse alinhamento lhe cobra um preço. O ministro Alexandre de Moraes, no âmbito das investigações sobre os atos golpistas de 2022, autorizou busca e apreensão em sua residência, além da retenção de passaporte e celular. Malafaia, que já foi defensor da democracia e do Estado laico, figura hoje como investigado por envolvimento em tentativas explícitas de ruptura institucional.
A retórica do vitimismo: “não sou bandido”
Na reação às medidas judiciais, Malafaia lançou mão do discurso do vitimismo. Em vídeos e declarações públicas, afirmou ser alvo de perseguição e repetiu: “não sou bandido” .
A comparação com seu passado é inevitável: aquele pastor que um dia pregava prudência na relação entre fé e poder político, hoje se vê obrigado a justificar seus atos como suspeito em um inquérito de peso histórico, acusado de fomentar ataques às instituições que sustentam a democracia brasileira.
Da afronta ao STF à súplica por orações
Outro contraste salta aos olhos. Durante o auge da retórica bolsonarista, Malafaia fazia ataques e desafios verbais virulentos contra o Supremo Tribunal Federal, em especial ao ministro Alexandre de Moraes, seu alvo preferido. Porém, ao sentir o cerco se fechar, mudou o tom: recuou nas ofensas e passou a pedir “orações dos fiéis” diante do risco real de prisão.
Esse movimento, de valentia agressiva à imploração por apoio espiritual, simboliza o declínio de sua estratégia discursiva. O que antes projetava um pseudo poder de quase intocável, hoje se traduz em fragilidade.
Malafaia e Bolsonaro: do palanque à Justiça
O paralelo entre a trajetória de Malafaia e de Jair Bolsonaro é evidente. Ambos carregaram um discurso “outsider” em nome de valores conservadores; ambos intoxicaram o debate público com ataques sistemáticos às instituições; e, agora, ambos enfrentam as consequências jurídicas dessa radicalização.
Com Bolsonaro prestes a enfrentar julgamento por tentativa de golpe de Estado contra Lula, a condição de investigado de Malafaia reforça a ideia de que a aliança “fé-política” que sustentou o bolsonarismo não só traiu princípios democráticos básicos, mas também está cobrando caro de seus agentes mais proeminentes.
O Resumo da Ópera
A trajetória de Silas Malafaia, do apoio a Lula e à defesa do Estado laico até se transformar em investigado por complô golpista, é mais do que uma contradição pessoal: é o retrato da corrosão que a radicalização política promoveu no espaço religioso.
Se antes Malafaia era símbolo de um tipo de prudência sobre os limites entre púlpito e política, hoje é exemplo de como a instrumentalização da fé pode se tornar perigosa para a democracia. A queda de sua aura de “intocável” — e o risco de acabar, como escreveu um colunista, “dando seus berros na cadeia” — mostra, enfim, que a Justiça brasileira está alcançando aqueles que acreditaram poder esconder a política de destruição institucional atrás de um discurso religioso.