O Alasca como fronteira do declínio americano
“Goldfinger” se refere ao vilão Auric Goldfinger, um dos principais antagonistas da saga James Bond, conhecido pelo filme e livro com o mesmo nome, Goldfinger.
PolitikBr comenta a repercussão internacional do encontro entre Donald Trump e Vladimir Putin no Alasca, na visão do analista em geopolítica Pepe Escobar, que concedeu uma entrevista ao podcast Dialogue Works. O tão aguardado evento no Alasca foi muito além de um simples gesto diplomático. O que se viu foi a tentativa desesperada do presidente de um país em decadência, tentando manter alguma relevância global, frente a uma Rússia vitoriosa no campo de batalha ucraniano e a um BRICS cada vez mais fortalecido na arena geopolítica e econômica.
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Por PolitikBr I Brasília, Em 20/08/2025, 10h:32 Leitura: 6 min
Nas cinzas do velho mundo unipolar, uma cena dramática aconteceu: Alasca. Numa mesa, um estadista forjado em décadas de calculismo e pragmatismo, Vladimir Putin, encara um personagem quase caricatural do capitalismo insano e volátil dos EUA, Donald Trump — o “Goldfinger” da política americana, um empreendedor agressivo, gangster e vigarista, que tem no ouro e na fotografia midiática sua obsessão maior. O duelo foi mais do que simbólico, a materialização do confronto entre um bloco emergente que desafia a hegemonia global e o Império do Caos, desesperado para não perder o controle do tabuleiro geopolítico.
Urso, Dragão, Elefante, Tucano e Rouxinol Contra Goldfinger
O Brasil, Rússia, China, Índia e Irã — os cinco BRICS — são personificados não por simples animais, mas por símbolos nacionais e ancestrais: o urso russo, o dragão chinês, o elefante indiano, o tucano brasileiro e o rouxinol persa (referência poética do Irã). Um quinteto que, mesmo entre divergências internas, constrói uma arquitetura econômica, política e de segurança que ameaça o domínio unilateral estadunidense. Eis o contraponto ao renovado ímpeto unilateral de Trump chamado “Goldfinger”, um anti-herói movido pelo lucro imediato, pela ganância e por um projeto pessoal de poder que depende de fotografias triunfantes e manobras públicas.
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O Alasca, Apesar do Encontro Cordial, Foi um Celeiro de Tensões
Não foi mera coincidência que a cúpula entre Trump e Putin tenha se dado no Alasca, que foi palco de uma mini cúpula em março de 2021 entre os EUA e a China, e que expôs a arrogância e a desorganização americana. Naquele episódio, a representação chinesa, liderada por estrategistas experientes como Yang Jiechi, destronaram publicamente os diplomatas americanos Blinken e Sullivan, deixando claro que a era da passividade asiática havia acabado. Agora, o desafio foi mais amplo: o confronto direto entre a Rússia e os EUA, com a sombra do BRICS e a redefinição da ordem global impondo uma nova dinâmica.
Putin foi ao Alasca não para negociar concessões rasas, mas para reafirmar as exigências de segurança para a Rússia, que culminaram em fevereiro de 2022 com a chamada “operação especial russa”, e também, de forma indireta, para defender todo um bloco (BRICS) que está construindo alternativas ao sistema financeiro predominante: moedas locais, ouro e uma arquitetura geopolítica que escapa das garras do dólar americano. Trump, em contrapartida, tentou e tenta jogadas desesperadas, buscando o que pode vender como vitória — um acordo que leve ao fim das hostilidades, apesar do custo que isso signifique para os ucranianos.
A Decisão no Campo de Batalha é a Única Saída?
A ofensiva russa na Ucrânia avança sem pausas, e a expressão “campo de batalha” não está vazia de significado. Para Moscou, a reivindicação clara é a soberania sobre as quatro regiões principais (Luhansk, Zaporozhye, Kherson e todo o Donbass) e a manutenção dessas como parte do “cinturão de segurança” estratégico da Rússia. Há até a hipótese, razoável, de estender este cinturão até Odessa e Kharkov, criando uma zona de amortecimento crucial para a segurança russa. Qualquer acordo preliminar terá que reconhecer estas realidades geográficas, demográficas e militares.
No plano diplomático, a Rússia não aceita que a sua segurança seja colocada à mercê das ambições da OTAN, que segue uma política declarada de “guerra eterna” contra Putin e seu bloco, conforme definido no programa OTAN 2030. Nesse cenário brutal, qualquer possibilidade de negociação só faz sentido se incluir não apenas a Ucrânia, mas uma redefinição completa das esferas de influência na Europa e na Eurásia.
Os “Chihuahuas” Europeus e o Estado Profundo
Enquanto Putin representa o projeto geopolítico do BRICS, Trump está diante da instabilidade interna americana: um deep state hostil, o que inclui o poderoso lobby armamentista americano, um partido republicano dividido e seu grupo de suporte interno – MAGA – também dividido (caso Epstein), onde as agendas russófobas e xenófobas convergem contra qualquer aproximação com Moscou. Somam-se a isso os “chihuahuas europeus”, satélites impotentes da OTAN que desejam guerra eterna guiada pelo complexo industrial-militar americano.
Trump, portanto, não está apenas negociando com Putin, está sob intensa pressão doméstica que limita qualquer movimento real. Seu maior objetivo prático e simbólico é um acordo para “retomar negócios no Ártico” — petróleo, gás e investimentos para gigantes como Exxon e Chevron, que antes das sanções já atuavam com a Rússia naquela região. Porém, convencer Putin e o Kremlin de abrir espaço para investimento americano na indústria estratégica russa é uma tarefa difícil, que só poderá acontecer em um horizonte de normalização muito mais amplo — e não no curto prazo.
BRICS: Uma nova Ordem Econômica e Geopolítica
Antes da reunião entre Putin e Trump, Putin fez questão de ligar para seus parceiros do BRICS. Ele não representa sozinho seus interesses, mas os do BRICS, uma aliança que vai além das relações de comércio e financeiras entre seus membros com suas próprias moedas; e com um compromisso crescente contra intervencionismos econômicos externos. As sanções americanas contra a Rússia, a Índia, a China e o Brasil, os pesos-pesados do grupo, revelam a intensidade dessa disputa geoeconômica.
A imposição de sanções ao BRICS vem resultando em retaliação ainda “soft”, mas severa, que ameaça a própria economia americana. O Brasil busca diversificar mercados na Ásia, a Índia permanece firme comprando petróleo russo, e a China nunca abandonará sua aliança estratégica. O jogo do ouro e das moedas locais no eixo BRICS é o que realmente move as peças nesse tabuleiro.
Desdobramentos
O encontro no Alasca marcou o início de uma longa série de conversas para redefinir estruturas de poder, segurança e economia globais — no entanto, as condições são duras. Trump, já no comando pela segunda vez da Casa Branca, entrou sem cartas na mesa, cercado por inimigos internos e aliados frágeis, tentando desesperadamente uma foto de paz que nem ele mesmo sabe se pode concretizar.
Putin representa um bloco coeso, estratégico, cuja posição no campo de batalha e na diplomacia é clara e irrevogável. O BRICS estão construindo a sua própria ordem, indiferente às ameaças do Ocidente.