Nesse artigo o PolitikBr comenta a entrevista do coronel Douglas MacGregor ao podcast do professor Glenn Diesen, na qual ele analisa, com franqueza rara, a crise interna dos Estados Unidos, a guerra entre a Federação Russa x Ocidente Coletivo, via a Ucrânia, e as expectativas para o encontro de amanhã (15/08) entre Donald Trump e Vladimir Putin no Alasca.
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Por PolitikBr I Brasília, Em 14/08/2025, 20h:28, Leitura: 5 min
Quem é Douglas MacGregor?
Douglas Abbott MacGregor é coronel reformado do Exército dos EUA, veterano da Guerra do Golfo e ex-conselheiro sênior do secretário de Defesa durante o primeiro governo Trump. Ele ganhou notoriedade como estrategista militar e analista geopolítico, sendo presença frequente em canais como Fox News, mas também figura polêmica por desafiar o consenso de Washington em temas como OTAN, guerra na Ucrânia e política externa americana. MacGregor é conhecido por sua visão realista e crítica às aventuras militares dos EUA, defendendo que o país abandone o intervencionismo e adote uma política de negociações e equilíbrio de forças.
EUA: um Império em Declínio
Na conversa com Glenn Diesen, MacGregor não poupa palavras: os EUA atravessam um processo de declínio acelerado, fruto de décadas de decisões estratégicas equivocadas. Para ele, o principal erro é a incapacidade de Washington de compreender que o mundo mudou — e que o modelo unipolar, no qual os EUA ditavam as regras, não existe mais.
Para MacGregor, os EUA insistir em impor tarifas punitivas a países que deveriam ser parceiros — como a China, a Índia e até o Brasil — só aprofunda o isolamento americano. Em vez de abrir canais diplomáticos e buscar pontos comuns, o governo prefere a coerção econômica, esquecendo que o comércio é um instrumento de estabilidade e não de confronto.
Ele cita que o sistema financeiro americano, altamente dependente do dólar se manter como a principal moeda usada nas transações internacionais, e em função da quase impagável dívida de US$ 37 trilhões, está frágil, com a autoridade monetária enfrentando dificuldades até mesmo em vender títulos do Tesouro de rolagem da dívida de mais longo prazo, enquanto países aliados buscam alternativas econômicas fora da influência dos EUA. Esse esgotamento global da influência econômica, e portanto, geopolítica americana, é um ponto fundamental da análise de MacGregor.
Ucrânia: Derrota Anunciada
MacGregor ressaltou que a guerra na Ucrânia já está praticamente perdida para o Ocidente, com as forças russas dominando o campo de batalha, o exército ucraniano praticamente esgotado e o governo ucraniano funcionando mais como uma fachada do que um poder efetivo. Segundo ele, a resistência ucraniana é muito fraca, a maioria das tropas já foi dizimada, – ele cita mais de 1,8 milhão de combatentes ucranianos mortos – e o apoio ocidental cria apenas a ilusão de continuidade da guerra. Assim, a Ucrânia está em seus “últimos suspiros”, refletindo um colapso iminente e uma vitória russa inevitável.
Para MacGregor a derrota do Ocidente, que ele vê como um coletivo cujo poder e coesão estão em queda, também é evidente na crise de liderança, fragmentação interna e falhas estratégicas, inclusive na postura da OTAN. Ele critica o que chamou de “lista de desejos” do Ocidente, sem uma estratégia clara, pautada na tentativa ideológica de conter a Rússia a todo custo, o que se mostra insustentável.
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O Encontro Trump-Putin: Entre a Retórica e a Realidade
Sobre o encontro de Trump e Putin que ocorrerá amanhã (15/08) no Alasca, MacGregor prevê uma reunião educada, onde Putin manterá firme sua posição histórica, enquanto Trump ouvirá, mas com pouca capacidade real de influenciar o rumo da guerra. Ele acredita que Trump está focado em tentar “lavar as mãos” do conflito, reconhecendo que o projeto na Ucrânia está fadado ao fracasso, e que ele pretende redirecionar sua atenção para outras regiões do mundo, como o Oriente Médio.
MacGregor prevê que Trump poderá, se não houver avanços, sinalizar a posição dos EUA de se afastar das hostilidades, deixando a resolução do conflito nas mãos dos europeus. Putin, por sua vez, deve reiterar a visão russa de garantias de segurança, negligenciada pelo Ocidente desde a dissolução da União Soviética, e manter as exigências anunciadas logo que a guerra começou. Afinal, os Russos são virtualmente os vencedores do conflito. Sobre outros temas, MacGregor especula que negociações futuras, inclusive sobre armas nucleares, podem ser exploradas, mas sem grandes concessões imediatas.
Portanto, para MacGregor, o encontro entre Trump e Putin será um momento de importância estratégica. Embora Trump esteja pressionado internamente e carregue uma retórica imprevisível, MacGregor vê espaço para avanços diplomáticos, especialmente se houver foco em questões práticas como estabilidade nuclear, comércio e reconstrução de relações entre os dois países. Ele alerta, porém, que qualquer gesto de aproximação será ferozmente atacado pelo establishment de Washington, que vive do antagonismo permanente com Moscou.
Neoliberalismo e Guerra Econômica
O coronel também relaciona o enfraquecimento dos EUA à adoção do neoliberalismo como política econômica dominante desde os anos 1980. Essa ideologia, segundo ele, destruiu a base industrial americana, transferiu riqueza para uma elite financeira globalizada e deixou o país vulnerável a choques externos. Hoje, enquanto a Rússia e a China constroem alianças no BRICS e buscam um sistema financeiro alternativo, os EUA estão cada vez mais isolados e dependentes da manipulação do dólar como arma geopolítica — um instrumento cujo poder está rapidamente se esgotando.
A fala de Douglas MacGregor ecoa como um alerta: ou os EUA aceitam negociar e se adaptar à nova ordem multipolar, ou continuarão a perder relevância e influência. A guerra na Ucrânia é apenas um sintoma dessa transição histórica. O encontro de amanhã entre Trump e Putin pode ser uma oportunidade rara de mudar o rumo — ou mais um capítulo perdido no livro do declínio americano.