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Por Política em Debate I Brasília, Em 25/07/2025, 09h:35
O especialista em relações internacionais Philip Yang, membro sênior do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), defende que a resposta brasileira à tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos nacionais não pode ser apenas econômica, mas deve ser eminentemente política.
Segundo Yang, o Brasil precisa reagir com firmeza adotando uma tarifa espelho de 50% sobre os principais produtos importados dos EUA, sinalizando que o país não aceitará imposições unilaterais que prejudicam sua economia e minam sua soberania. A resposta, para ele, deve transcender o campo técnico e entrar na arena diplomática, deixando claro que o Brasil não ficará refém de chantagens comerciais e pressões protecionistas.
O especialista destaca que a ação do governo Trump contrapõe interesses estratégicos fundamentais e que essa guerra tarifária impacta severamente o agronegócio, um dos setores mais importantes da economia nacional, além de garantir à pauta comercial do Brasil uma pauta de perdas consideráveis. Para Yang, a melhor defesa para o país é a unidade política interna para articular uma retaliação coerente e negociada – o problema dessa abordagem é que tanto Eduardo Bolsonaro, quanto Jair e até Flávio Bolsonaro se alinharam à Trump na questão da tarifa visando salvar o pai da prisão, quase certa, de 43 anos. Além do mais os radicais bolsonaristas do congresso declararam guerra ao Brasil, com o mesmo objetivo de anistiar Bolsonaro – , com o objetivo também de fortalecer as relações multilaterais, sobretudo no âmbito do BRICS e com a China, aliados naturais num contexto geopolítico desafiador.
Ele reforça que essa postura firme do Brasil será uma demonstração de que o país não aceitará o que chama de “retaliação seletiva” e que a diplomacia brasileira deve se posicionar decisivamente para negociar saídas que garantam os interesses nacionais, evitando que a agenda externa do Brasil fique subordinada aos caprichos da política interna americana.
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Yang vê o tarifaço como um ataque político e comercial que obriga o Brasil a responder no mesmo tom, combinando medidas tarifárias, avanço na diversificação das parcerias nacional e internacional.
Bingo. É exatamente isso que achamos. Mas não tenho certeza se o melhor é uma retaliação recíproca de 50% o que pode prejudicar setores industrias que consomem produtos americanos em seu segmento de atuação ou somente retaliar os “serviços”. Vejamos o que dizem outros especialistas:
Retaliação do Brasil ao tarifaço dos EUA: produtos e/ou serviços?
A discussão sobre a melhor resposta do Brasil à tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros vai muito além de uma reação instintiva de reciprocidade. Especialistas em comércio internacional divergem sobre qual seria a forma mais eficaz e menos danosa ao próprio país.
Risso de retaliação tarifária sobre produtos
- Impacto sobre setores estratégicos: Medidas de retaliação na mesma moeda — via sobretaxa a produtos americanos — podem prejudicar empresas brasileiras que dependem de insumos importados dos EUA ou enfrentam concorrência global. O caso da Embraer é emblemático: cerca de 60% de sua receita vem dos EUA e a empresa já admite perda potencial de até 30% de faturamento, risco de demissões e fuga de engenheiros para concorrentes.
- Possível “tiro no pé”: Segundo a professora Luciana Mello, do IBMR, retaliar com tarifas pode prejudicar o próprio Brasil: “Aumentar tarifas para produtos americanos pode impactar cadeias produtivas e aumentar custos internos”.
Opções recomendadas: retaliação em serviços e propriedade intelectual
- Serviços digitais e BigTechs: Especialistas ressaltam que os Estados Unidos recolhem grande parte de seus impostos e acumulam superavit principalmente nos serviços (tecnologia, pagamentos, remessas, patentes). Medidas como taxação de BigTechs, aumento de impostos sobre remessas ao exterior e “quebra de patentes” têm aparecido como possibilidades reais no radar do governo brasileiro.
- Propriedade intelectual: A suspensão temporária de direitos de patentes, especialmente nos segmentos farmacêutico, tecnológico e audiovisual, teria potencial de causar impacto significativo e “incomodar os EUA de verdade”, segundo Marcus Vinicius de Aragão, CEO da Arko Internacional. Ele destaca que isso criaria um precedente perigoso para os americanos e pressionaria por uma solução negociada rápida.
- Menor impacto negativo para o Brasil: Essa via evitaria danos diretos a setores industriais exportadores ou integrados à economia americana, como a Embraer, que já declarou ser contrária à retaliação por tarifas e defende esgotar a negociação política antes de qualquer medida dura.
Outros pontos de vista
- Paul Krugman (Prêmio Nobel): Defende que o Brasil ganharia mais ao retaliar tarifas dos EUA do que se mostrar conciliatório, mas contextos específicos, como o impacto sobre a Embraer, fazem com que muitos economistas brasileiros prefiram cautela e ações mais seletivas.
- Planejamento do Governo Brasileiro: O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) já elaborou um inventário de possíveis medidas retaliatórias, dando prioridade à taxação de serviços, propriedade intelectual e tributação de multinacionais, em vez de atacar diretamente os produtos importados — considerados um risco para diversos setores nacionais.
Do exposto, a maioria dos especialistas e representantes da indústria sugere que o Brasil deve priorizar a retaliação política e econômica direcionada ao setor de serviços e propriedade intelectual americano, ao invés de adotar represálias tarifárias diretas sobre produtos americanos — medida que poderia causar danos colaterais graves, sobretudo à Embraer e outras empresas com forte integração no mercado dos EUA. O consenso tende para a busca de negociação diplomática, manutenção do foco em serviços e, se necessário, medidas contundentes que não prejudiquem setores estratégicos nacionais.
A ajuda do governo
O governo brasileiro vem elaborando um pacote de medidas para apoiar as empresas nacionais afetadas pela tarifa de 50% que os Estados Unidos vão aplicar sobre produtos brasileiros a partir de 1º de agosto de 2025. Se trata de um programa pensado para ser pontual e gradual, focado nos setores que sofrerem prejuízos mais expressivos, mas buscando sempre o menor impacto fiscal possível, para não comprometer o cumprimento da meta fiscal do país, que prevê déficit zero para 2025.
O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, informou que o plano aguarda a aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que a ideia é oferecer um apoio que minimize os danos econômicos sem onerar excessivamente o orçamento público. Parte do esforço passa por flexibilizar gastos e promover uma gestão orçamentária rigorosa para compatibilizar as necessidades do programa com a disciplina fiscal.
Dentre as medidas avaliadas estão a oferta de linhas de crédito subsidiado, subsídios direcionados e eventuais auxílios financeiros para setores estratégicos, além de iniciativas para preservar empregos e a competitividade das empresas no mercado internacional diante do tarifação americana.
Além disso, há movimentações políticas e empresariais para ampliar a interlocução com os EUA, inclusive com apoio de setores americanos contrários ao tarifaço, o que abre caminho para negociações e eventuais ajustes na taxação.
Esse pacote de incentivo e contenção reflete a preocupação do governo de mitigar os efeitos no agronegócio, indústria, comércio e especialmente nas empresas mais vulneráveis à sobretaxa, como a Embraer, que tem grande dependência do mercado americano.
O governo aposta em um mix de apoio financeiro temporário e diálogo político-diplomático, buscando blindar a economia nacional do impacto do tarifaço, enquanto mantém o foco no equilíbrio fiscal e na sustentabilidade econômica.