Um Soldado, Um Cabo e a Queda

“A queda é a fornalha. A decadência o fogo lento” (Viktor Hugo)

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Por Política em Debate I Brasília, Em 18/07/2025, 19h:10

“Um dia, um fanfarrão disse para uma plateia de estudantes em Brasília: ‘Se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo. Não quero desmerecer o soldado e o cabo. O que é o STF? Tira a caneta de um ministro do STF, e você acha que vai ter manifestação popular a favor dele? Milhões na rua?’.

Pode-se imaginar a cena. Depois de cruzar assobiando a praça dos Três Poderes, o soldado e o cabo chegam ao Supremo Tribunal Federal. Metem-lhe o pé na porta, adentram o plenário em sessão e, com uma simples ordem de ‘Passa fora!’, enxotam os ministros do recinto. De toga, tíbios, derrotados, eles saem um a um. O cabo bate a porta ao sair, passa-lhe um ferrolho e vai à Câmara entregar a chave a quem lhe dera a ordem: o deputado federal Eduardo Bolsonaro.

Isso foi em 2018, quando os Bolsonaros, já se vendo no poder a que de fato chegariam dali a meses, faziam seus planos para dominar o Brasil. O STF, em que pressentiam um inimigo, não seria um problema. Mas a realidade provou o contrário. O STF não dá expediente num prédio — como o descobririam os golpistas que tentaram depredá-lo no 8/1 —, mas nas entrelinhas de um livro: a Constituição Federal. A mesma onde residem as famosas quatro linhas que Jair Bolsonaro, e pai de Eduardo, dizia cinicamente respeitar, mas que não conhecia nem de vista e levou quatro anos querendo rasgar.

O fato é que, anos depois, o STF continua aberto, cumprindo do seu dever de guardar as instituições democráticas, habilitado inclusive a dar 43 anos de prisão para quem tentou destruí-las. E Eduardo Bolsonaro está foragido nos EUA, a prudente distância de Brasília e sob as asas de Donald Trump, que por enquanto vê nele alguma utilidade e o tolera. Eduardo sabe que, se descer a escadinha de qualquer avião em solo nacional, levará um par de algemas assim que chegar ao último degrau.

Ou no interior da própria aeronave, talvez até pelos mesmos soldado e cabo — sem jipe — com que se jactava de poder fechar o STF.”

Esse brilhante texto de Ruy Castro demonstra, com fina ironia, como a prepotência aliada à miopia política pode ser devastadora tanto para quem a professa quanto para uma nação inteira. O desconhecimento das regras do jogo democrático, o desdém pelas instituições e a aposta em bravatas fáceis cobram um preço alto: isolamento político, vergonha pública e derrota histórica.

A queda mencionada no título não é apenas das pessoas que ousam tentar burlar o Estado de Direito — é também a derrocada de um modo de fazer política ancorado na arrogância e no improviso. O STF segue firme, as instituições prevalecem, e resta aos fanfarrões o duro juízo da história e da Justiça.

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