Trump Quer o Fim do Pix: Intimidação e Ataque à Soberania Tecnológica Brasileira

Trump, apoiado pelos bolsonaristas, está em uma guerra híbrida contra o Brasil, que faz parte do BRICS. A sanção de 50% e o pedido de fim do pix se insere nessa ofensiva.

Política em Debate é uma mídia independente. Sem lado. Informar não é “torcida”. Não é distorcer, manipular ou mentir.

Por Política em Debate I Brasília, Em 17/07/2025, 18h:03

A recente decisão do governo dos Estados Unidos de abrir investigação formal contra o Brasil, mirando não só exportações e commodities, mas também o sistema de pagamentos Pix, revela um movimento que ultrapassa a mera disputa comercial: explicita as tensões pela supremacia tecnológica, pela imposição de padrões estrangeiros sobre o desenvolvimento nacional e pelos limites que as grandes potências desejam impor à autonomia digital das nações emergentes. Se trata claramente de um ataque não só ao Brasil, mas ao BRICS. Não é à toa que a OTAN declarou recentemente que pode taxar o Brasil, a China e a Índia por negociarem com a Federação Russa.

Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul são os fundadores do bloco, que hoje inclui mais 4 países membros, além de 10 países na qualidade de parceiros.

O que está por trás da ofensiva americana?

O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) lista o Pix, o comércio digital, a proteção de propriedade intelectual e até iniciativas ambientais e anticorrupção brasileiras como potenciais “práticas desleais” que restringiriam a concorrência de empresas americanas. O relatório, encomendado pessoalmente pelo presidente Donald Trump, defende que o Brasil estaria favorecendo suas próprias soluções governamentais em detrimento dos tradicionais intermediadores globais de pagamentos, como Mastercard e Visa, que perderam espaço após a ascensão meteórica do Pix como padrão nacional de pagamentos eletrônicos.

Pix: inclusão financeira e irritação no exterior

Criado pelo Banco Central do Brasil, o Pix se consolidou como um instrumento poderoso de bancarização, inclusão digital e redução de custos para consumidores e pequenos negócios. Hoje, o sistema já movimentou R$ 60 trilhões e, inclusive, passou a ser aceito em outros países sul-americanos em transações cotidianas, o que diminui a dependência do dólar e incomoda os interesses financeiros internacionais ligados ao controle cambial. A ofensiva dos EUA representa não só uma reação corporativa, mas também política: há desconforto com o avanço do Pix internacional, das discussões no BRICS sobre alternativas ao dólar, e da possibilidade de outros países latino-americanos buscarem modelos similares.

Cabe lembrar que a maior fonte de impostos dos EUA vem da conta serviços, isto é, impostos pagos na “Terra do Tio Sam” por empresas multinacionais como o Mastercard, Visa, Google, Meta e outras. A conta Bens tem menor expressão nos EUA, uma vez que eles renunciaram a produzir bens em um movimento que se iniciou com a financeirização da economia na década de 1970 (Neoliberalismo). Hoje os EUA amargam essa estúpida decisão de décadas atrás. Se os BRICS quiser quebrar os EUA, em uma visão bem simplista, é só taxar as empresas de serviços americanas, em resposta às tarifas sobre bens que Trump, louco, tenta impor ao mundo; e parar de comprar títulos de rolagem da dívida pública americana.

O Pix então é um “baita” incômodo aos financistas que faturam alto em cada transação realizada por cartões de débito e crédito. Se você faz um pix ao invés de usar o seu cartão, eles – Mastercard, Visa, governo americano – não faturam.

Vamos às novidades. Trump e os gananciosos de sempre do financeirismo parasita, realmente devem estar incomodados não com o Pix em si, mas com o Pix Parcelado. Entenda um pouco:

O que é o Pix Parcelado?
O Banco Central anunciou que o Pix Parcelado será lançado a partir de setembro de 2025, trazendo uma nova possibilidade para quem utiliza o sistema de pagamentos instantâneos. Com essa modalidade, será possível parcelar compras e pagamentos via Pix, de forma semelhante ao que acontece hoje com o cartão de crédito parcelado com juros. Dessa forma estará liquidada, na prática, a necessidade de se ter cartão de crédito, pelo menos para as compras nacionais.

Como vai funcionar?
O consumidor poderá dividir uma compra em prestações mensais, contratando um crédito junto ao banco ou instituição financeira no momento do pagamento. O recebedor do pagamento (loja ou pessoa) recebe o valor total da transação de forma imediata, enquanto o pagador quita o valor em parcelas. Os juros cobrados variam conforme a instituição financeira, mas a expectativa do Banco Central é que a concorrência favoreça taxas menores ou iguais às do cartão de crédito parcelado. Entenderam? Mastercard e Visa, por exemplo, vão deixar de ganhar muito dinheiro. Está aí a grande motivação de Trump querer acabar com o nosso Pix. E isso com o apoio de brasileiros, bolsonaristas, é claro.

O Pix Parcelado estará disponível para qualquer tipo de transação Pix, tanto em compras no varejo quanto em transferências entre pessoas físicas.

Benefícios esperados
1- Amplia o acesso a formas de parcelamento, especialmente para quem não possui cartão de crédito.

2- Pode estimular o uso do Pix para compras de valores mais altos e aquecer o comércio.

3- Proporciona ao lojista ou prestador de serviço o recebimento imediato do valor integral da venda.

O objetivo do Banco Central é tornar o Pix cada vez mais competitivo e acessível, facilitando a vida do consumidor e incentivando a modernização do varejo brasileiro. Trump não aceita isso.

Narrativa de “práticas desleais”: o argumento imperialista de sempre

Sob o pretexto de combater práticas “desleais”, os EUA tentam submeter o desenvolvimento tecnológico brasileiro a interesses externos. O mesmo dossiê que condena o Pix e cita a Rua 25 de Março, tradicional centro popular paulistano, como problema de falsificação, também se vale de alegações de proteção insuficiente à propriedade intelectual e combate ineficiente à corrupção e ao desmatamento para justificar seu “tarifaço” de 50% sobre produtos brasileiros a partir de agosto.

O uso da Seção 301 do Ato Comercial de 1974 para habilitar retaliações unilaterais já foi arma dos EUA contra China e União Europeia. Agora, o Brasil vira alvo justamente quando alcança autonomia em soluções estratégicas que pode inspirar outros países em desenvolvimento.

Consequências e riscos: o que está em jogo?

  • Risco de retrocesso na bancarização e inclusão financeira com possíveis barreiras a um sistema que virou referência mundial pela eficiência e baixo custo.
  • Ameaça de novas tarifas comerciais, impactando o agronegócio e a balança comercial brasileira.
  • Desestímulo à inovação nacional diante do “patrulhamento” das potências – qualquer solução pública pode ser rotulada como “prática desleal” se for competitiva demais diante de empresas multinacionais.

O papel da diplomacia e da resistência política

A resposta do governo brasileiro, endossada por setores do Congresso, tem sido buscar o diálogo internacional e defender que não há base para as acusações de “deslealdade” tecnológica. O vice-presidente Geraldo Alckmin classificou o Pix como um modelo de sucesso e defendeu que o problema real reside nas tarifas injustificadas americanas.

No Senado, uma missão foi aprovada para dialogar diretamente com parlamentares norte-americanos na expectativa de mitigar as sanções. No entanto, permanece a dúvida: até onde o discurso de proteção às empresas americanas disfarça um movimento para impedir a autonomia tecnológica do Sul Global?

Essa investida dos EUA sobre o Pix é didática: ela revela que a soberania passa também pelo domínio sobre sua própria infraestrutura digital. A disputa não é só pelo comércio de mercadorias, mas pelo direito das nações de pensarem seus próprios sistemas – mesmo diante da pressão de potências acostumadas a ditar, e não a negociar, padrões globais.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *