O IMPÉRIO RACHADO: Chefe Antiterrorista dos EUA Renuncia e Denuncia a Mentira da Guerra

Internacional, Geopolítica, Economia

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Por PolitikBr I Brasília, Em 17/03/2026, 20h:53, leitura: 7 min

Editor: Rocha, J.C.

“O Irã não representava ameaça iminente. Fomos enganados por Israel.” A carta que abala Washington.

E não é que a farsa da guerra de procuração contra o Irã começa a desmoronar. Vamos entender essa historia.

Nessa terça-feira, 17 de março de 2026, Joe Kent deu um basta às mentiras deslavadas de um presidente ensandecido. Claro que nos referimos a Donald Trump.

E quem é Joe Kent? Ele era, não é mais, o principal responsável por analisar e detectar ameaças terroristas para os Estados Unidos.

Kent não saiu em silêncio. Na verdade saiu atirando, e derrubou a versão fantasiosa do governo Trump em atacar o Irã, em parceria com Netanyahu.

A carta de demissão de Joe Kent, endereçada a Donald Trump e tornada pública, é um documento que deveria gelar a espinha de qualquer americano que se preze. Com a sua renúncia ele derruba toda a narrativa mentirosa de Trump, reverberada através da sua rede social – Truth Social – e através das mídias tradicionais.

Joe Kent não é um ativista anti-guerra qualquer. Ele é um coronel reformado das Forças Especiais (Green Beret). Um oficial de inteligência da CIA com 11 missões de combate no currículo. E, crucialmente, é um Gold Star Husband — a sua esposa, a suboficial Shannon Kent, foi morta em 2019 em um ataque suicida na Síria, numa guerra que ele agora classifica, sem meias palavras, como“fabricada por Israel” .

A renúncia de Kent é a primeira de um alto funcionário da administração Trump contra esta guerra. Será ela a primeira a cair de um castelo de cartas? E as suas palavras são um murro no estômago da narrativa oficial.

A Carta que Diz o que Sabíamos

O peso das palavras de Kent é enorme. Ele desnuda a farsa de Trump, do “império do mal”, como se refere o analista em geopolítica Pepe Escobar, em relação aos Estados Unidos:

“Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irã. O Irã não representava nenhuma ameaça iminente à nossa nação, e está claro que começamos esta guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby americano.” 

Para quem acompanha as análises do PolitikBr, não há surpresa aqui. Já dissecamos como a estratégia da guerra nasceu em Mar-a-Lago, em dezembro de 2025, a partir de um plano israelense vendido a Trump como uma “vitória rápida” [Freeman, 09/03]. Já mostramos como John Mearsheimer, com a sua lucidez habitual, diagnosticou que os EUA caíram numa armadilha estratégica da qual não têm saída [Mearsheimer, 12/03]. E já detalhamos como a “ameaça iminente” do programa nuclear iraniano era uma farsa, pois o principal obstáculo a ele — o Aiatolá Khamenei — foi justamente o alvo do assassinato que deu início a tudo [Análise 07/03].

Mas ouvir isso da boca do diretor de Contraterrorismo dos EUA é de uma magnitude diferente. Kent descreve o que chama de “campanha de desinformação” orquestrada por “altos funcionários israelenses e membros influentes da mídia americana” que solapou a plataforma “America First” de Trump e semeou sentimentos belicistas .

Ele continua:

“Esta câmara de eco foi usada para enganá-lo, fazendo-o acreditar que o Irã representava uma ameaça iminente aos Estados Unidos e que, se atacasse agora, haveria um caminho claro para uma vitória rápida. Isso foi uma mentira e é a mesma tática que os israelenses usaram para nos arrastar para a desastrosa guerra do Iraque.” 

A referência ao Iraque não é acidental. Kent lutou lá. A sua esposa morreu numa guerra que ele considera uma consequência desse mesmo padrão de engano. E ele vê a história se repetindo diante de seus olhos.

O Enfraquecimento do Mito da “Ameaça Iminente”

A renúncia de Kent desmonta o principal pilar de justificativa para a guerra, repetido à exaustão por Marco Rubio, Pete Hegseth e pelo próprio Trump: a tal “ameaça iminente” representada pelo Irã.

O líder da maioria no Senado, Chuck Schumer, que tem acesso às mesmas informações ultrassecretas que Kent, já havia criticado a condução da guerra. Agora, a voz de Kent ecoa a do senador democrata Mark Warner, que disse: “Não havia evidências críveis de uma ameaça iminente do Irã que justificasse precipitar os EUA em outra guerra de escolha no Oriente Médio” .

A reação da Casa Branca e da direita republicana foi a esperada: o silêncio inicial do porta-voz da Inteligência , o ataque de figuras como o deputado Don Bacon, que chamou a carta de “antissemitismo” e comemorou a saída com um “good riddance” (bom que se foi).

O porta-voz da Câmara, Mike Johnson, tentou desqualificar Kent, afirmando que ele “não estava nas reuniões de inteligência” . Mas a verdade é que Kent, como diretor do NCTC, era uma das principais autoridades do assunto. Se ele diz que não havia ameaça, a narrativa oficial desaba.

O “America First” Devorado por Si Mesmo

A ironia é profunda. Joe Kent era um defensor ferrenho da agenda “America First”. Ele acreditava que Trump havia entendido, até junho de 2025, que as guerras no Oriente Médio eram “uma armadilha que roubava da América as vidas preciosas de seus patriotas e esgotava a riqueza e a prosperidade de nossa nação” . Ele foi nomeado justamente para implementar essa visão.

Agora, ele acusa o próprio presidente de ter caído na mesma armadilha. A sua renúncia não é apenas uma deserção; é a prova de que a guerra está fraturando a base mais leal a Trump.

Como observou Javed Ali, ex-diretor de contraterrorismo do Conselho de Segurança Nacional, esta é “a primeira deserção de alto perfil da equipe de segurança nacional da administração Trump” .

Enquanto isso, no terreno, a realidade que já descrevemos se impõe. O Irã vence a guerra assimétrica, de exaustão. As suas bases de mísseis, entrincheiradas em montanhas, continuam a lançar ataques [Starr, Postol]. O Estreito de Ormuz está aberto apenas para quem não é aliado dos Estados Unidos e nem de Israel; um xeque-mate diplomático que isola Washington e garante o fluxo de energia para o resto do mundo, menos para os seus agressores. A gasolina nos EUA disparou de preço, e a inflação corrói o bolso do americano médio, que Sanders descreveu como vivendo de salário em salário [Análise 07/03].

O Custo de uma Mentira

Joe Kent fez a sua escolha. Preferiu abandonar um cargo de poder a compactuar com o que chama de mentira. Em sua carta, ele implora a Trump: 

“O tempo para uma ação ousada é agora. Você pode reverter o curso e traçar um novo caminho para a nossa nação, ou pode permitir que escorreguemos ainda mais em direção ao declínio e ao caos. Você tem as cartas na mão.” 

É improvável que Trump, encurralado por Netanyahu e pela própria máquina de guerra que ajudou a criar, ouça o apelo. O declínio e o caos, infelizmente, parecem ser o destino escolhido.

A renúncia de Joe Kent não é o fim da guerra. Mas é o início do fim da ilusão de que ela era justa, necessária ou baseada na verdade. O império rachou. E pela fenda, começa a vazar a verdade que tantos outros, como nós, já conhecíamos.

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