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Por PolitikBr I Brasília, Em 07/03/2026, 19h:19, leitura: 8 min
Há discursos que iluminam. Há outros que, na sua obscenidade, apenas refletem a podridão que pretendem esconder.
O que vimos nas últimas semanas, saindo da boca de Donald Trump e ecoando nos corredores do poder em Washington, não foi um plano de governo, mas sim a confissão de uma cleptocracia em seu estertor mais belicoso.
O cenário é aquele que os profetas do caos sempre desejaram: o Oriente Médio em chamas, o sangue de crianças ainda fresco nos escombros de uma escola no Irã, e os Estados Unidos, outrora farol de uma ordem internacional – por mais imperfeita que fosse – , rebaixados à condição de pária; sócio menor de um projeto expansionista – A Grande Israel – e de extermínio, liderado por Benjamin Netanyahu.
Para entender a profundidade do abismo para onde o mundo foi empurrado, é preciso justapor duas peças fundamentais deste quebra-cabeça macabro: a reação do senador Bernie Sanders ao discurso do Estado da União de Trump, proferido dias antes do ataque, e a realidade brutal do pós-ataque, que já ceifou centenas de vidas e acendeu o pavio de uma guerra que ninguém — exceto os fabricantes de armas — pediu.
O testemunho indignado do senador Sanders, uma peça de retórica afiada e necessária, funciona hoje não como um alerta, mas como uma ata da catástrofe anunciada.
O Bilionário e a Farsa da “Nação Mais Forte”
No seu recente discurso à nação americana, Trump, com a empáfia de um vendedor de carros usados num palco de ópera, declarou que a “nação está de volta. Maior, melhor, mais rica e mais forte do que nunca”.
Bernie Sanders, com a elegância de quem conhece o valor do trabalho e o preço da exploração, tratou de desmontar a fachada. Trump acertou numa coisa, ironiza Sanders: ele e os seus amigos bilionários estão, de fato, mais ricos.
A fortuna da família Trump aumentou em US$ 4 bilhões desde que ele entrou na política. Por sua vez, os bilionários, em bloco, viram a sua riqueza saltar em US$ 1,5 bilhões.
Este é o primeiro e o mais importante vetor para se compreender a guerra que se segue. Não é sobre geopolítica. É sobre poder e sobre como se lucra com o caos.
Leia ainda:
O Martírio de Khamenei e a Guerra Santa Contra o Grande e o Pequeno Satã
Enquanto a elite americana nada em dinheiro, o senador Sanders recorda o que Trump “esqueceu” de mencionar: mais de 60% dos americanos vivem de salário em salário, 20 milhões de famílias gastam metade do seu rendimento em habitação, 800 mil estão sem abrigo, e quase metade dos trabalhadores mais velhos não tem um centavo para reformar as suas casas.
Esta é a verdadeira “nação mais forte”? Uma nação onde o cuidado humano é deixado ao abandono, para alimentar a máquina de guerra e os cofres dos oligarcas?
E segue Sanders…
E é neste contexto de desigualdade violenta que a administração Trump nos arrasta – EUA – para uma guerra igualmente violenta.
No seu discurso, Trump prometeu “acabar com o custo inflacionado dos medicamentos” e “reduzir os custos dos cuidados de saúde”.
A realidade, porém, é que o seu plano de saúde é um cavalo de Troia, para expulsar 15 milhões de americanos do Medicaid; cortando US$ 1 bilhão para oferecer, como incentivos fiscais, ao 1% mais rico.
Nos mesmos dias em que se preparava o ataque ao Irã, a indústria farmacêutica aumentava o preço de mais de 850 medicamentos. O financiamento da guerra tem de vir de algum lugar, e não é dos acionistas.
A Coreografia da Morte: A Escola de Meninas e a Mentira “Não Intencional”
Os EUA, uma nação fraturada e com um líder obcecado em mentir, e pela própria imagem, que os EUA e Israel lançaram, em 28 de fevereiro de 2026, a campanha militar massiva contra o Irã. O alvo oficial, como sempre, eram “instalações militares” e “líderes terroristas”. O resultado não oficial, mas previsível, foi, de imediato, um massacre.
No sul do Irã, na cidade de Minab, perto do Estreito de Ormuz, uma escola primária para meninas foi foi alvo de um ataque com mísseis. As imagens que correm o mundo são as que nenhum discurso político consegue esconder. Nem a mídia ocidental mainstream pode ocultar aquela monstruosidade: pequenos caixões envoltos em bandeiras iranianas, mochilas ensanguentadas, corpos de crianças, algumas com apenas 7 anos de idade, retirados dos escombros. O número oficial de mortos na escola chegou a 165, segundo as autoridades iranianas.
O total de mortos no país, nos primeiros momentos do ataque combinado EUA/Israel, de acordo com a Cruz Vermelha Iraniana, ultrapassou 555 pessoas, espalhando-se por 131 cidades .
Perante o mundo, a administração Trump tentou negar o massacre das 165 inocentes meninas, diante da repercussão horrorizada da comunidade internacional. O secretário de Estado, Marco Rubio, com cinismo, declarou: “Se isso foi realmente nosso ataque, o Departamento de Defesa investigará. (…) Posso garantir que os EUA não atacam escolas deliberadamente”. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, emendou: “Nós, claro, nunca visamos alvos civis”. Quem não lhes conhecem que lhes compre, diz o velho ditado.
As desculpas esfarrapadas foram indecorosas. Uma coreografia chinfrim, manjada: a “investigação” que corre em paralelo com as bombas, a promessa de que foi um “erro”, a garantia de que “não foi intencional”.
Mas a realidade, como sempre, é mais teimosa que a propaganda. Citando fontes oficiais, a agência Reuters noticiou que investigadores militares dos EUA acreditam ser “provável” que as forças americanas sejam responsáveis pelo ataque à escola.
A divisão de tarefas no ataque conjunto, confirmada por fontes israelitas e americanas, dava a Israel os alvos no oeste e aos EUA os alvos no sul — exatamente onde Minab se localiza.
A “investigação” de Rubio e Hegseth nada mais é do que uma tentativa mal sucedida de conter a onda de repulsa global, antes que ela afogue a narrativa oficial.
Atacar uma escola é, nos termos do direito internacional humanitário, um crime de guerra.
A ironia atinge níveis dantescos quando lembramos que, no dia 2 de março, quem presidia uma reunião do Conselho de Segurança da ONU, sobre “crianças em conflitos”, era a primeira-dama, Melania Trump, que não disse uma única palavra sobre as crianças iranianas mortas poucos dias antes.
Enquanto isso, a representante da China na ONU, Fu Cong, lembrava o óbvio: atacar escolas é uma das seis violações graves contra crianças, e é preciso investigar e responsabilizar .
Por Que os EUA Estão Nesta Guerra?
A resposta é um caleidoscópio de mentiras. Primeiro, Trump disse que era para travar o programa nuclear iraniano, apesar de no ataque em junho de 2025, também em combinação com Israel, ele ter declarado, de forma triunfal, que o programa de enriquecimento de urânio do Irã havia sido destruído. Agora, passados um pouco mais de meio ano, ele volta a justificar o ataque ao Irã pelo mesmo motivo. Isto é, para impedir o desenvolvimento iminente de um artefato nuclear: uma completa e grotesca mentira.
A verdade, nua e crua, é que Trump rasgou o acordo nuclear (JCPOA) negociado pelo EUA anos atrás, e que impedia o Irã de desenvolver artefatos nucleares para fins bélicos. Mesmo assim, o Irã, embora tenha prosseguido em seu programa de enriquecimento para fins pacíficos, chegando a 60% de enriquecimento do U235, nunca intencionou ter um artefato nuclear.
O guardião dessa Fatwa era justamente Ali Kahmenei, a quem eles assassinaram, unindo o mundo xiita e desencadeando uma guerra santa, como dito por Khamenei: contra o grande e o pequeno satã.
Não há, como denunciou a senadora Elizabeth Warren no plenário do senado, “um plano para acabar com a guerra”. Há apenas a fome de poder de um primeiro-ministro israelita em apuros, e a necessidade de um presidente americano de parecer “forte” enquanto desvia a atenção da falência interna do seu país.
Essa é uma guerra de apoio ao projeto genocida e expansionista de Israel, que, sem o poderio bélico e o escudo diplomático dos EUA, seria, a médio prazo, insustentável.
A votação no Senado sobre a resolução de poderes de guerra do senador Kaine, que visava travar este conflito, revelou a fratura profunda na alma americana. A moção foi derrotada, com a maioria alinhada com Trump; mas 47 senadores votaram contra a guerra.
A guerra no Oriente Médio não é um acidente de percurso. É a consequência lógica e inevitável de uma política que coloca os lucros dos bilionários acima da vida das crianças; que troca a diplomacia por bombardeamentos, e que prefere o caos ao consenso, em apoio à política ilegal, genocida e expansionista de Israel.
Esse artigo foi baseado em:
- The Truth About Trump’s State of the Union | Sen. Bernie Sanders (https://youtu.be/W2qpYkLZxeY?si=DQ7Nrn1XajgIiJo5)
- Análise: Gafes aumentam preocupação americana sobre capacidade mental de Trump | CNN 360º (https://youtu.be/HO0Y023xiZ8?si=6MGkPxpFlZokqFxl)
- Rubio também discutiu: As Forças Armadas dos EUA não fariam isso de propósito (https://youtu.be/vXDqZ6tGcOY?si=4S9fLO3wuIycFiv5)
- O ataque aéreo matou indiscriminadamente 165 pessoas em uma escola primária iraniana, e Rubio reclamou: O exército dos EUA não faria isso de propósito (https://news.ifeng.com/c/8rBmyG13CXM)
- US investigation points to likely US responsibility in Iran school strike, sources say (https://tribune.com.pk/story/2596084/us-investigation-points-to-likely-us-responsibility-in-iran-school-strike-sources-say)
- Hormuz blockage could trigger new LNG price highs – analyst (https://montelnews.com/news/a5ba5b3c-32d3-4667-b0c5-be4befc2efd9/hormuz-blockage-could-trigger-new-lng-price-highs-analyst)