O Direito à Dissuasão Nuclear: Por que o Argumento de Mearsheimer para o Irã é um Alerta para o Brasil

Internacional, Geopolítica, Economia

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Por PolitikBr I Brasília, Em 05/03/2026, 18h:34, leitura: 8 min

Editor: Rocha, J.C.

Se o assassinato do Aiatolá Khamenei expôs a estupidez triunfalista do Ocidente ao acender a chama de uma guerra santa, a sua consequência mais perversa e duradoura pode ser o colapso definitivo do já frágil tabu nuclear.

Ao eliminar o guardião da fatwa que impedia o Irã de buscar a bomba, Israel e os Estados Unidos não apenas unificaram o mundo xiita, mas podem ter fornecido o argumento final para que Teerã cruze o limiar nuclear.

E, se o fizer, sob a luz crua dos holofotes da hipocrisia internacional, irá expor uma verdade inconveniente para países como o Brasil: em um mundo governado pela lei do mais forte, a renúncia à dissuasão absoluta não é um ato de virtude, mas um exercício de vulnerabilidade estratégica.

É precisamente este o cerne da argumentação do Professor John Mearsheimer, um dos mais lúcidos e realistas analistas de relações internacionais da atualidade. Em suas discussões com o Professor Glenn Diesen, Mearsheimer desconstrói a fábula moral que cerca a questão nuclear iraniana, e a recoloca no terreno frio da geopolítica: o direito à dissuasão.

Mearsheimer parte de um princípio fundamental das relações entre Estados: em um sistema internacional anárquico, onde não há um poder central capaz de garantir a segurança de todos, a sobrevivência é o objetivo máximo de qualquer nação. É a partir dessa premissa que ele analisa o programa nuclear iraniano.

Para Mearsheimer, se o Irã resolver buscar desenvolver a capacidade de dissuasão nuclear, isto não será um ato de agressão irracional ou de messianismo religioso, mas uma resposta estratégica perfeitamente lógica a uma ameaça existencial clara e declarada.

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Para fins de contexto, do outro lado do Golfo Pérsico, existe um Estado, Israel, que possui um arsenal nuclear não declarado, mas estimado em centenas de ogivas, sendo a única potência nuclear do Oriente Médio. Este é um fato incontestável e, para Mearsheimer, o ponto de partida de qualquer análise honesta.

A hipocrisia ocidental exige que o Irã viva sob a constante sombra de aniquilação por um vizinho nuclearmente armado, enquanto qualquer movimento iraniano, em direção à busca da paridade, é tratado como uma crise existencial para a ordem global.

Não se trata apenas de uma disputa por influência regional ou de retórica inflamada. A política declarada de Israel, apoiada incondicionalmente pelos EUA, é de “mudança de regime” em Teerã.

É público e notório, que ao longo do tempo, as várias lideranças israelenses já discursaram sobre a necessidade de “eliminar a ameaça iraniana”. Para um país que já foi vítima de um ataque surpresa, e de uma guerra imposta pelo Iraque, com armas químicas, a ideia de que seu algoz possui armas de destruição em massa, e clama por sua destruição, é o gatilho definitivo para a busca da dissuasão, especialmente agora com o martírio do seu líder máximo: Ali Khamenei.

Some-se a isso o fato de que os ataques às instalações críticas iranianas, o assassinato de cientistas nucleares, e as incursões em território soberano são uma constante.

Esta agressão continuada, sempre com o beneplácito ou o silêncio cúmplice das potências ocidentais, ensinou ao Irã que a sua soberania só será respeitada, quando o custo de violá-la se tornar proibitivo.

A conclusão de Mearsheimer é o óbvio: diante de um inimigo que o ameaça de aniquilação, e que já possui as armas para fazê-lo, a aquisição de um arsenal nuclear próprio é a única garantia racional de sobrevivência que o Irã pode obter. A dissuasão nuclear, nesse contexto, deixa de ser uma opção ideológica e se torna uma necessidade existencial.

O argumento de Mearsheimer para o Irã transcende o caso particular, e ilumina a falência de todo o sistema de não proliferação nuclear.

O Tratado de Não Proliferação Nuclear se baseava em uma barganha: os Estados sem armas nucleares renunciariam a elas, em troca do compromisso das potências nuclearmente armadas de avançarem rumo ao desarmamento.

Décadas depois, o que vemos? As potências nucleares não apenas não se desarmaram, como modernizam seus arsenais e, no caso dos EUA, sob governos como o de Donald Trump, ameaçam abertamente nações soberanas que não se curvam aos seus desígnios.

Vivemos, portanto, em um mundo onde duas nações – Estados Unidos e Israel – se comportam como entidades acima da lei. Invadem países, derrubam governos, assassinam líderes e violam resoluções da ONU com a naturalidade de quem exerce um “direito divino” à força.

É neste cenário de neocolonialismo digital e militar, que nações como o Brasil precisam reavaliar as suas posições históricas. Honrar um tratado assinado de boa-fé, com potências que demonstram diariamente a sua má-fé não é estratégia; é ingenuidade.

A história ensina que o respeito internacional é conquistado não com discursos de paz, mas com a capacidade de impor custos inaceitáveis a qualquer agressor.

O Brasil, com a sua imensa extensão territorial, riquezas naturais cobiçadas, como a Amazônia, a Amazônia Azul, alguns dos maiores aquíferos do mundo, abundância de minerais críticos, e uma posição geopolítica singular, é um alvo potencial dessa sanha neocolonialista.

Não por acaso, essa discussão deixou de ser uma abstração acadêmica e chegou ao parlamento brasileiro. Em outubro de 2025, o deputado federal Kim Kataguiri, do União Brasil-SP, apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição, que visa autorizar o Brasil a desenvolver armas nucleares para fins de defesa e dissuasão.

A PEC de Kataguiri propõe alterar o artigo 21 da Constituição, que atualmente restringe as atividades nucleares à “fins pacíficos”. A justificativa do parlamentar é um eco direto do realismo de Mearsheimer aplicado à realidade brasileira.

Kataguiri argumenta que “as grandes potências utilizam o domínio do armamento nuclear não apenas como mecanismo de proteção nacional, mas também como instrumento de negociação política e econômica no cenário global” e que “manter-se desarmado frente à realidade nuclear global, significa permanecer em condição de vulnerabilidade estratégica”. Não há como contestar essa visão.

A proposta de Kataguiri, evidentemente, reacendeu um debate polarizado. Entidades científicas de peso, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, e a Academia Brasileira de Ciências, manifestaram o seu repúdio de forma veemente, classificando a medida como um “retrocesso civilizatório”.

Em nota conjunta, aquelas entidades alertam que a PEC violaria compromissos internacionais como o Tratado de Tlatelolco, que estabelece que a América Latina e o Caribe sejam zonas livres de armas nucleares; e que, ainda, desviaria recursos escassos das áreas sociais.

O argumento das entidades é nobre e eticamente consistente, mas não considera que estamos em um mundo em grau de extrema deterioração da ordem e do direito internacional. Defender a “tradição diplomática” e o “compromisso com a paz” é louvável, mas é uma defesa que se torna frágil, quando confrontada com a realidade de potências que não hesitam em bombardear escolas infantis, como denunciou Scott Ritter em sua análise sobre o ataque ao Irã. Um assassinato frio, premeditado, cruel, para aterrorizar a população iraniana. Mais de 170 meninas inocentes mortas.

A paz de um país não pode depender da “boa vontade alheia”, para usar as palavras do deputado Kataguiri. O tratado de Tlatelolco e o TNP são instrumentos valiosos, mas são tão fortes quanto a disposição de suas partes em honrá-los.

E quando as principais potências nucleares do mundo demonstram seu desprezo por qualquer ordem internacional que as limite, nos apegarmos a esses tratados, é um ato de fé, não de estratégia.

O que o caso do Irã, sob a lente de Mearsheimer, ensina ao Brasil é que a soberania não é um conceito abstrato ou um presente. É um fardo que exige que uma nação esteja disposta e apta a defendê-la por todos os meios necessários.

Viver sob o guarda-chuva da proteção de uma potência amiga é uma opção para satélites, não para um país que aspira a um assento como protagonista no concerto das nações.

A PEC de Kim Kataguiri não é uma declaração de guerra. Mas é o início de uma discussão que a sociedade brasileira não pode mais se dar ao luxo de evitar.

Em um mundo onde dois “Satãs” – um pequeno e um grande – se sentem no direito de decidir quem vive e quem morre, onde líderes ocidentais ameaçam a quem bem entendem, a pergunta que fica é: o Brasil prefere continuar sendo um observador passivo, confiando em tratados de papel e na “boa vontade alheia”?

A realidade nos força a discutir, sem hipocrisias, os custos e os benefícios de possuir o único instrumento que, até hoje, provou ser capaz de dissuadir as grandes potências: estar apto à dissuasão nuclear se a nação for ameaçada, de forma existencial.

A resposta a essa pergunta definirá não apenas a política de defesa do país, mas o seu próprio lugar no mundo nas próximas décadas. A inocência estratégica chegou ao fim.

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