Gleen Diesen: Manipulação da Mídia na Guerra da Ucrânia ( Comentários Adicionais)

Geopolítica, Internacional

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Por PolitikBr I Brasília, Em 24/02/2026, 20h:19, leitura: 12 min

Editor: Rocha, J.C

A mídia desempenha um papel fundamental na forma como o público compreende — ou deixa de compreender — os conflitos internacionais.

No caso da guerra na Ucrânia, o professor Glenn Diesen, analista político e especialista em segurança europeia e política externa russa, oferece uma valiosa análise sobre como as narrativas midiáticas têm sido manipuladas, para moldar a percepção pública e inviabilizar qualquer caminho em direção à paz.

Diesen é professor na Universidade do Sudeste da Noruega e autor de diversos livros e artigos sobre geopolítica, relações entre a Rússia e o Ocidente e sobre segurança europeia.

Com uma carreira dedicada ao estudo da política externa russa e da arquitetura de segurança no continente europeu, ele é uma voz respeitada — e também controversa — justamente por insistir em um ponto que a grande mídia evita: é preciso compreender as motivações do outro lado para evitar a guerra.

Em seu discurso no Conselho de Segurança da ONU, em Nova York, Diesen alertou para os perigos da demonização do adversário, e da simplificação moral dos conflitos.

Nós publicamos esse discurso em nosso artigo anterior – Glenn Diesen: Manipulação da Mídia na Guerra da Ucrânia

Nesse artigo – sequência do anterior mostramos os comentários adicionais do Professor Gleen sobre o mesmo assunto.


Comentários Adicionais de Glenn Diesen

“Permitam-me acrescentar alguns comentários para os quais não houve tempo durante o meu discurso.

Resolver conflitos e guerras pode ser extremamente difícil, porque a natureza humana e as condições para a resolução de conflitos muitas vezes entram em choque.

Os seres humanos são animais sociais. Somos amplamente organizados em grupos, em busca de significado e segurança. Também faz parte da nossa natureza nos dividirmos entre o grupo interno, “nós”, e o grupo externo, “eles” ou “os outros”.

Quando as pessoas enfrentam uma ameaça externa, é natural buscar solidariedade dentro do grupo para garantir segurança e sobrevivência.

E, por isso, criamos divisões claras entre o grupo interno e o grupo externo, contrastando nossa própria virtude, com a suposta natureza maligna do oponente.

Quando o branco fica mais branco e o preto fica mais preto, a área cinzenta desaparece. É isso que impede os indivíduos de se desviarem demais do grupo.

Essencialmente, as pessoas se conformam com o seu próprio grupo e nem sequer discutem as preocupações ou interesses do grupo externo, já que isso poderia ser visto como demonstração de simpatia pelo adversário.

Esse instinto da natureza humana pode ser ainda mais explorado pela propaganda política, que, em grande parte, se organiza em torno do desenvolvimento de estereótipos para o grupo interno, em oposição ao grupo externo.

Todas as complexidades de um conflito são simplificadas em uma mera luta entre os mocinhos e os vilões. Isso é da natureza humana. O problema é que essa forma de enquadrar a situação impede a resolução do conflito.

Como eu disse em meu discurso, o ponto de partida na segurança internacional é reduzir a competição por segurança. E para fazer isso, precisamos reconhecer as preocupações de segurança do oponente. Especialmente quando se está lutando contra uma potência nuclear, que se vê diante de uma ameaça existencial e travando uma guerra pela sobrevivência.

Um estudo de caso fundamental é a Primeira Guerra Mundial, quando o governo dos Estados Unidos retratou a Alemanha como o mal absoluto para mobilizar um público relutante para a guerra. Isso foi vendido ao público como uma guerra contra o mal supremo, o adversário alemão desumanizado. Foi chamada de “a guerra para acabar com todas as guerras”, a guerra para tornar o mundo seguro para as democracias.

Essencialmente, com esse enquadramento, apenas a vitória total poderia criar a paz. E é por isso que pessoas como Walter Lippmann, passaram de apoiadores da propaganda à críticos. Porque isso levou a ignorar possíveis soluções diplomáticas para encerrar a guerra, o que Lippmann chamou de “paz viável”. Mesmo depois de a Alemanha ter sido derrotada, vimos que isso impediu uma paz duradoura.

Porque quando se luta contra o mal puro, não é possível restaurar um equilíbrio de poder, como quando a França foi trazida de volta à mesa após as guerras napoleônicas. Em vez disso, vimos que os alemães precisavam ser devidamente derrotados. Foi uma derrota humilhante depois da Primeira Guerra Mundial, e também uma derrota planejada para manter a Alemanha permanentemente enfraquecida. Como aprendemos mais tarde, isso criou as condições para outra guerra mundial.

Portanto, embora possa parecer muito patriótico apresentar o adversário como o mal absoluto para demonstrar lealdade ao próprio grupo, isso, na verdade, vai contra os nossos próprios interesses, na medida em que enfraquece a capacidade de construir uma paz duradoura.

Agora, permitam-me citar parte do trabalho de Raymond Aron, que advertiu, em 1962, sobre dividir os estados entre bons e maus. Ele escreveu: “A diplomacia que nossos frequentes homens de Estado tecem, divide os estados em bons e maus, em amantes da paz e belicosos. Ela imagina uma paz permanente por meio da punição dos últimos, e do triunfo dos primeiros. O idealista, acreditando ter rompido com a política de poder, exagera seus crimes.”

Pois bem, essa também tem sido a minha principal preocupação após a Guerra Fria, quando o Ocidente se estabeleceu como um hegemônico coletivo, e insistiu que era uma força do bem.

Todos os conflitos passaram então a ser enquadrados como democracias liberais versus autoritários, o que basicamente equivale a mocinhos versus vilões.

De fato, depois que fiz meu discurso no Conselho de Segurança da ONU, alguns comentários críticos, como era de se esperar, vieram das delegações europeias. E, em resumo, isso foi essencialmente interpretado como eu arranjando desculpas para a Rússia. O Ocidente não é o problema, e a decisão de ir à guerra foi tomada unicamente pela Rússia.

Em outras palavras, toda a avaliação é: “O que você está dizendo? Quais narrativas está promovendo?” A única forma de avaliação é perguntando: “Você está nos legitimando ou a eles?”

Mas o meu ponto é que isso não se trata de tomar um lado ou outro. Trata-se da incapacidade de sequer discutir as preocupações de segurança dos nossos oponentes.

Levar essas preocupações em conta é necessário para prever suas reações, e calibrar nossa política externa de forma adequada, a fim de maximizar nossa própria segurança.

Tem sido muito difícil convencer alguém, de que as políticas que promovemos realmente aumentaram nossa segurança, ou trouxeram algum benefício para a Ucrânia.

Há também essa suposição de que o Ocidente não faz propaganda, porque o Ocidente é formado por democracias liberais, e propaganda é algo que estados autoritários fazem.

Agora, isso é uma demonstração impressionante da própria propaganda, porque a propaganda costumava ser considerada uma parte normal da diplomacia. As pessoas até se referiam a si mesmas como propagandistas, e só se tornou uma palavra pejorativa depois que os alemães a usaram na década de 1930.

Edward Bernays, que é considerado o principal autor da literatura inicial sobre propaganda política, basicamente ajudou a rebatizá-la como “relações públicas”. Porque o que nossos adversários fazem é chamado de propaganda, enquanto o que nós fazemos é chamado de relações públicas. E isso, em grande medida, é o que a propaganda também faz. Ela muda a linguagem para convencer o público, em vez de depender de argumentos racionais.

Então criamos um conjunto de linguagem para o que fazemos e outro para o que nossos adversários fazem.

Mais uma vez, isso ajuda a reforçar a legitimidade do grupo interno e a deslegitimar o grupo externo, o que é bom para a solidariedade interna, mas péssimo para resolver conflitos, se nem conseguimos comparar nossas políticas com as de nossos oponentes.

Também se pode dizer que havia um consenso quase total entre os estudiosos originais da propaganda política, há um século, de que as democracias liberais eram, na verdade, mais dependentes da propaganda, porque quando a soberania é transferida para o povo, torna-se mais necessário gerenciar as massas. De Edward Bernays a Walter Lippmann, essa não era uma afirmação controversa.

De fato, havia uma correlação clara entre a ampliação dos direitos de voto e a necessidade de simplificar o discurso político, de apresentar a complexidade da política como uma luta simples entre o bem e o mal. Observamos essa correlação à medida que se tornava mais desafiador administrar as massas.

Mesmo durante a Guerra Fria, muitos estudiosos reconheceram que os Estados Unidos e o Reino Unido possuíam uma propaganda mais eficiente, porque um componente essencial da propaganda é a credibilidade da fonte.

Enquanto os soviéticos dependiam apenas do aparato estatal e todos podiam ver quem transmitia as mensagens, os britânicos e os americanos conseguiam disfarçar ou canalizar a sua propaganda por meio de instituições não governamentais e indústrias privadas. E, de fato, é assim que a propaganda é feita hoje. Usamos organizações não governamentais, e outras instituições, para fazer com que pareça mais credível.

E por fim, deixe-me apenas dizer que é extremamente frustrante para um acadêmico como eu, que há mais de 20 anos vem alertando contra esta guerra, que agora vemos na Ucrânia, alertando que ela destruiria a Ucrânia e possivelmente desencadearia uma guerra direta entre a OTAN e a Rússia, que poderia então escalar para um confronto nuclear. Em um cenário assim, todos nós perderíamos.

Ainda assim, todas as vezes que levantei esses alertas ao longo dos últimos 20 anos, basicamente batiam numa parede. Isso é interpretado unicamente como estar do lado da Rússia, porque ao reconhecer as preocupações de segurança russas, e como ela poderia reagir, isso é simplesmente descartado como estar do lado do grupo externo, e até visto como uma traição ao grupo interno.

Então, é isso que tenho observado ao longo dos últimos anos. Os alertas sobre a expansão da OTAN, minando a arquitetura de segurança paneuropeia foram descartados como sendo pró-Rússia. Os avisos de que o apoio à Revolução Laranja em 2004 levaria apenas a um conflito com a Rússia, e à guerra, também foram denunciados como pró-Rússia.

Em 2008, quando a OTAN prometeu se expandir para a Ucrânia e a Geórgia, mesmo que apenas uma pequena minoria de ucranianos quisesse ingressar na OTAN, e sabendo que isso provavelmente desencadearia uma guerra, e possivelmente até fragmentaria a Europa, isso novamente foi visto como pró-Rússia.

Em 2014, quando os países da OTAN apoiaram o golpe para transformar a Ucrânia em uma linha de frente contra a Rússia, o desastre já era evidente. Mas isso também foi visto como pró-Rússia, algo que poderia legitimar o oponente.

Durante os sete anos de sabotagem do Acordo de Minsk, isso também foi rotulado como pró-Rússia, porque se você apoia o seu próprio país, então deve sempre culpar a Rússia, mesmo que a consequência seja a guerra.

Em 2019, criticamos a sabotagem do mandato de paz de Zelensky pelos países da OTAN. Isso também foi chamado de pró-Rússia.

Em 2021, quando os alertas de que a guerra estava chegando se tornaram cada vez mais evidentes, foi a mesma coisa. Eu até escrevi um artigo em novembro de 2021 com um título mais ou menos como “A guerra em breve será inevitável”. Isso foi simplesmente denunciado como uma tentativa de legitimar as ações militares da Rússia.

Então, novamente, não pode haver reconhecimento do oponente, porque isso é considerado apoio.

Em 2022, muitos países ocidentais foram criticados por sabotarem as negociações de Istambul. Isso também foi visto como pró-Rússia e anti-Ucrânia, embora tenha resultado, de forma previsível, na destruição da Ucrânia, algo que o próprio Zelensky havia alertado.

Nos últimos anos, vi mentira após mentira sendo usada para criar as condições de uma guerra longa, enquanto centenas de milhares de ucranianos foram sacrificados em uma guerra que não podia ser vencida, tudo sob o lema de “ficar ao lado da Ucrânia”.

Ouvi líderes argumentarem que as armas são o caminho para a paz, enquanto criminalizavam a diplomacia. Não há como explicar isso como sendo do nosso interesse ou mesmo do interesse dos ucranianos. Mas ainda assim, tudo opera sob a bandeira de ser “pró-nós”, e se você discordar, então é pró-Rússia.

Para que foi tudo isso? De forma totalmente previsível, a Ucrânia está sendo destruída, com consequências humanitárias horríveis.

No enquadramento estratégico mais amplo, vemos que as relações com a Rússia estão destruídas por décadas, justamente neste momento crítico, em que o mundo está se tornando multipolar. Teria sido, sem dúvida, do nosso interesse manter a Rússia do nosso lado.

Agora vemos a Europa em declínio sistêmico, com problemas econômicos que não podem ser resolvidos sem acabar com a divisão do continente, problemas de segurança e, é claro, fragmentação política, que veremos nos próximos meses.

Agora, também vemos que o sistema internacional está se desintegrando, o próprio direito internacional está se desfazendo, e o futuro da ONU já não é mais claro.

Repetidas vezes, surgiram muitos caminhos possíveis para uma paz viável, mas todas as vezes isso é rejeitado, pois Putin é apresentado como Hitler e a Rússia como um adversário maligno, com quem não se pode sequer fazer a paz. Tudo remonta ao mesmo problema original: a incapacidade de sequer discutir as preocupações de segurança do oponente.

E isso, como mencionei em meu discurso, também se aplica à China, ao Irã ou a qualquer outro país, que agora consideramos o vilão.

Então, obrigado pela atenção.”

Assista ao discurso completo de Glenn Diesen no link abaixo:

🔗 https://youtu.be/g0-kYyVjFG8?si=oGCOpQuclp0quIHg

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