Evangelismo: Manipulação, Controle, Medo e Ódio

Política, Nacional, Religião

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Por PolitikBr I Brasília, Em 18/02/2026, 11h:18, leitura: 6 min

Editor: Rocha, J.C.

Há algo de profundamente podre no reino da “teologia” moderna. Não nos referimos à fé genuína, aquela que habita no coração anônimo de milhões de brasileiros, mas sim ao seu palco principal: o espetáculo grotesco encenado por uma legião de líderes midiáticos que transformaram o Evangelho em um balcão de negócios, e o púlpito em um palanque de intimidação.

A mais recente pérola desse circo de horrores nos chega pelas palavras de um pastor que, ao invés de pregar o perdão e a compaixão, se sentiu no direito de amaldiçoar. A notícia, veiculada pelo portal em.com.br, relata a “oração” de um líder religioso, dirigida aos membros da escola de samba, que ousaram homenagear o presidente Lula no Carnaval de 2026.

A “oração” não pedia iluminação ou arrependimento para os foliões; pedia, com a frieza de um algoz, que eles fossem acometidos por câncer na garganta.

O raciocínio é torpe, mas didático: “Tripudiaram em cima da nossa fé […] A hora que esses homens estiverem com câncer na garganta, eles vão lembrar com quem mexeram“. É a lógica do “pau que bate em Chico” aplicada à divindade, uma tentativa sórdida de transformar Deus em um capanga pessoal, para acertar contas com quem os desagrada.

Este episódio, repugnante por si só, é na verdade um sintoma, uma febre que revela a doença profunda que corrói as entranhas de um certo segmento do evangelicalismo brasileiro. Uma doença que tem nome e sobrenome: manipulação pelo medo.

Não é sobre Deus, sobre Cristo ou sobre o amor. É sobre controle, poder e, acima de tudo, sobre a manutenção de um sistema que lucra com a miséria espiritual e a ansiedade humana.

A fala do pastor não é um desvio de caráter isolado; é a expressão crua da doutrina que ele e seus pares vendem diariamente. Uma doutrina que, para funcionar, precisa de um Deus à imagem e semelhança do homem vingativo do Velho Testamento, e não do Cristo que pregou o perdão na cruz.

Como bem observa o teólogo Caio Fábio em uma de suas pregações sobre Isaías 35, existe uma diferença abissal entre o “evangelho da graça no reino das punições” e a mensagem original de Jesus. Ele aponta que a base da pregação contemporânea, infelizmente, se ancora num “Deus semítico dos judeus” – rancoroso, punitivo – em detrimento da figura de Jesus, que se mostra à “antítese” a tudo isso.

Citando o Sermão do Monte, Caio Fábio recorda que Jesus repetidamente dizia: “Ouvistes o que foi dito aos antigos […] Eu, porém, vos digo”, estabelecendo uma nova ordem, um novo caminho. O “caminho santo” de Isaías, que ele interpreta não como uma geografia, mas como um “lugar mental, emocional, psicológico“, onde “não haverá leão, animal feroz” e onde “o imundo não passará”.

Ora, o que vemos nessa “oração” punitiva, objeto da reflexão desse artigo, é exatamente o oposto. É o “imundo” – no sentido de impuro de espírito – tomando o púlpito. É o “leão” do ódio rugindo em nome de Deus. É a negação completa do caminho santo.

O pastor em questão, ao invés de seguir o exemplo de Cristo que, na cruz, intercedeu “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem, preferiu o papel de acusador, de juiz. Por que essa escolha? Porque o medo é um combustível muito mais eficiente para o controle do que o amor.

binômio medo-punição é a engrenagem mestra dessa máquina de dominação. Ele opera de forma simples e perversa:

  1. Cria-se a ameaça: O “mundo”, o “diabo”, a “escola de samba”, o “comunista”, o “diferente”. Tudo que está fora do controle daquele líder é pintado como uma ameaça existencial à fé do rebanho.
  2. Oferece-se a “proteção”: O pastor se coloca como o único escudo, o intercessor poderoso, aquele que tem a “chave” para afastar as maldições e garantir a prosperidade. Mas essa proteção tem um preço: obediência, dízimos, ofertas, lealdade inquestionável.
  3. Aplica-se a “punição” simbólica: Quando a ameaça externa se manifesta (como uma homenagem a Lula), a resposta não pode ser o diálogo ou o perdão cristão. Seria a falência do modelo. A resposta deve ser a intensificação do medo. A “oração” por câncer é uma demonstração de poder aos fiéis: “Vejam como nosso líder tem intimidade com Deus para pedir vingança“. É a versão gospel do “eu vou dar um jeito nele“.

Como Caio Fábio ironiza, esse é o Deus que “basta uma resvaladinha no pé […] e tudo desce ribanceira abaixo“. Uma teologia primitiva que reduz a divindade a um mero executor de vingancinhas pessoais.

A contradição é tão evidente que chega a ser cômica, não fosse trágica.

Prometem prosperidade, mas vendem medo. Pregam um Cristo que acolhe, mas constroem muralhas de exclusão. Falam em “guerra espiritual” contra o mal, mas são eles mesmos os maiores semeadores da discórdia, da desinformação e do ódio.

Como bem definiu o Pastor Zé Barbosa Jr., em artigo para a Revista Fórum, ao comentarmos ontem sobre o Carnaval – Carnaval 2026: Homenagem à Lula – o Operário do Brasil – e o Choro da Extrema Direita Inconformada“o que realmente ridiculariza o Evangelho é uma gama de pastores midiáticos ávidos por dinheiro e sacrificando o povo mais humilde”.

Não há pregação mais eficaz para o ódio do que aquela que se traveste de piedade. A fala do pastor que deseja câncer aos foliões não é um ato de fé; é um ato de terrorismo psicológico. É a tentativa de silenciar a voz do outro, não pelo convencimento, mas pela intimidação. É a confissão pública de que seu Deus não tem poder para convencer, apenas para coagir.

A triste ironia final é que, ao agirem assim, esses líderes não apenas se distanciam do Cristo que dizem seguir, mas também revelam a profunda fragilidade de sua própria fé. Uma fé que precisa de inimigos para existir, que se alimenta do sofrimento alheio, e que só se sente poderosa quando pode apontar o dedo e amaldiçoar.

E é contra essa deturpação, contra esse “cristianismo religioso” – como chama Caio Fábio – que se faz necessário um debate público, racional e implacável. Pois enquanto o medo for o guia, a verdade continuará sendo a maior herege.

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