Política, Nacional
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Por PolitikBr I Brasília, Em 17/02/2026, 08h:40, leitura: 6 min
Editor: Rocha, J.C.
O carnaval de 2026 já entrou para a história não apenas pela beleza plástica das escolas de samba, mas pela potente narrativa política que desfilou na Marquês de Sapucaí.
A estreia da Acadêmicos de Niterói no Grupo Especial, com o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, foi um marco.
Ao celebrar a trajetória de um presidente em exercício, a agremiação fluminense jogou luz sobre as contradições de um país que, enquanto samba, também tenta silenciar a memória e a cultura popular.
A reação foi imediata e orquestrada.
O que vimos nos dias que antecederam e que se seguiu ao desfile, não foi um debate democrático sobre os limites da arte em ano eleitoral, mas um verdadeiro festival de chororô da extrema-direita, que, inconformada por ver a história ser contada pelo prisma do povo, apelou para o velho manual de gritar “crime eleitoral” onde há apenas legítima expressão cultural.
Como noticiado pelo Portal G1, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já havia liberado o desfile, ciente de que a homenagem não configurava propaganda antecipada.
A ministra relatora, Estela Aranha, seguiu a jurisprudência que entende o carnaval como manifestação artística e cultural. Mas, para a direita e a extrema direita, a decisão da Justiça é um mero detalhe, quando o objetivo é criar factoides e tumultuar o processo democrático.
A retórica fácil ignora solenemente que a escola de samba não é um órgão partidário, mas sim uma entidade cultural que exerce a sua liberdade de criação.
Flávio Bolsonaro se doeu ao ver a arte ridicularizar a figura de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e 03 meses de prisão, por tentativa de golpe de estado contra Lula.
O desfile, de fato, satirizou o ex-presidente – e o bolsonarismo – como o palhaço Bozo, em uma referência direta à sua persona política.
Em outro carro, uma figura com tornozeleira eletrônica danificada remetia diretamente à situação jurídica de Bolsonaro, que tentou, inutilmente, violar a tornozeleira eletrônica com um “ferro de soldar”, enquanto ainda estava em prisão domiciliar, o que foi interpretado pela Polícia Federal, e pela justiça, como uma provável tentativa de fuga.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), por sua vez, protagonizou uma das cenas mais surreais desse teatro. Em um vídeo divulgado em suas redes sociais , a senadora afirmou que o desfile era um “crime eleitoral”, e que havia ingressado com medidas judiciais para impedi-lo: O que não aconteceu.
Não satisfeita, Damares partiu, ainda, para um delírio interpretativo ao ver uma ala chamada “neoconservadores em conserva”. Segundo ela, a fantasia, em formato de lata com a imagem de uma família tradicional, era uma tentativa de “ridicularizar a igreja evangélica”.
O UOL ainda mostrou que Michelle Bolsonaro ecoou o mesmo discurso de Damares, afirmando que a “fé cristã foi exposta ao escárnio”.
Na verdade, se trata de uma interpretação, no mínimo, conveniente. A crítica não era à fé, mas à mercantilização da crença, e à aliança espúria de certos líderes religiosos com o projeto de poder da extrema-direita, que sempre usou a “família” como escudo para práticas duvidosas, e a “moral” como biombo para a corrupção.
Como bem ironizou o Pastor Zé Barbosa Jr., em artigo para a Revista Fórum, “o que realmente ridiculariza o Evangelho é uma gama de pastores midiáticos ávidos por dinheiro e sacrificando o povo mais humilde”.
Damares e Michelle viram um ataque à fé, onde havia apenas uma sátira política a seus aliados. Uma leitura, bastante conveniente, aliás.
Já o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), mestre em vitimismo e desinformação, usou a sua plataforma para postar: “Se esse desfile fosse em 2022: Bolsonaro estaria preso, busca e apreensão no PL, apreensão no barracão da escola, apreensão dos carros alegóricos e inelegibilidade vitalícia”. O que mais poderia se esperar de Nikolas?
A declaração de Nikolas parece um primor de projeção. Talvez o deputado esteja descrevendo, exatamente, o que ele e os seus pares gostariam de fazer com os adversários. Nos parece, talvez, uma expressão subliminar do confessionário do autoritarismo, travestido de preocupação com a justiça.
Enquanto a extrema-direita chora, o país assiste a fatos concretos. O desfile aconteceu. Foi lindo, criativo e emocionante.
A trajetória de Lula — o retirante que virou torneiro mecânico, líder sindical, fundador de um partido, presidente por três mandatos, e que sobreviveu a uma prisão política, para retornar ao poder — é, inegavelmente, uma epopeia digna de enredo.
Chamar Lula de “maior líder mundial” pode ser um exagero para alguns, mas é inegável o seu protagonismo, tanto no cenário nacional, quanto no internacional; recolocando o Brasil no centro das discussões sobre as mudanças climáticas, fome, justiça social, multipolaridade e paz.
A acusação dos adversários de “campanha antecipada” cai por terra quando confrontada com a lei e com a opinião de especialistas.
O advogado Alberto Rolo, cita o artigo 36-A da Lei 9.504/97: “Não configura propaganda eleitoral antecipada […] a menção à pretensa candidatura, a exaltação das qualidades pessoais dos pré-candidatos, desde que não envolvam pedido explícito de voto”.
E, como lembrou o ex-juiz Marlon Reis, idealizador da Lei da Ficha Limpa, em entrevista ao UOL: “Assisti ao desfile e não observei pedido de voto, nem tentativa expressa de indução do eleitorado”.
O que incomoda a direita e a extrema direita não é a legalidade, mas a força simbólica. É ver Lula sendo amado por uma parcela significativa da população, que se vê representada na sua história de superação. É ver a arte a serviço da memória popular, enquanto eles dependem de lives e factoides para tentar pautar o debate.
E quanto a uma possível tentativa de impugnação da candidatura de Lula a 2026?
Embora o TSE tenha dado parecer favorável, e liberado a homenagem à Lula, em junho de 2026, a presidência do TSE mudará de mãos. A ministra Cármen Lúcia passará o bastão para o ministro Kassio Nunes Marques, que terá como vice André Mendonça. Ambos foram indicados ao Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro. Nunes Marques, que foi voto vencido, ao defender que Bolsonaro não se tornasse inelegível em 2026, será o responsável por conduzir as eleições desse ano.
O Estadão revelou que os planos do ministro Kassio são o de “despolarizar a política“, mas a sua própria história e as suas conexões políticas geram desconfiança sobre que tipo de “ponderação” e “isenção” que ele aplicará . O choro de hoje pode ser a tentativa de criar o pretexto para a ação de amanhã.
A direita e a extrema-direita perderam no mérito e no imaginário popular. Lhes resta o caminho judicial, isto é, tentar impugnar o que não conseguem derrotar nas urnas ou na avenida. Mas a voz do povo, que ecoou no samba-enredo e na arquibancada, não se cala com liminares. Como diz um trecho do samba: “Ele é doce, ele é bom“. A eles, resta o fel do ódio e o gosto amargo da derrota iminente.
Esse artigo foi baseado em:
- https://oglobo.globo.com/opiniao/editorial/coluna/2026/02/homenagem-a-lula-na-sapucai-teve-ar-de-campanha-antecipada.ghtml
- https://youtu.be/eNlB-KQC-n4?si=A-lRRiSOGJn9yBzy
- https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2026/02/7355983-enredo-sobre-lula-abre-desfiles-na-marques-de-sapucai-acompanhe.html
- https://www.em.com.br/politica/2026/02/7356041-janja-desiste-de-desfilar-em-homenagem-a-lula.html
- https://www.em.com.br/politica/2026/02/7356120-nikolas-critica-desfile-em-homenagem-a-lula-se-fosse-em-2022.html
- https://www.diariodocentrodomundo.com.br/planalto-ve-cautela-em-desfile-sobre-lula-e-diz-que-choro-da-oposicao-era-previsto/
- https://diariodorio.com/camarote-de-lula-na-sapucai-vira-ponto-de-encontro-de-ministros-banqueiro-e-empresarios/
- https://g1.globo.com/jornal-hoje/video/tse-libera-desfile-em-homenagem-a-lula-14341200.ghtml
- https://revistaforum.com.br/opiniao/carnaval-o-que-a-globo-nao-quis-mostrar-e-damares-fez-questao-de-inventar/
- https://portalnorte.com.br/noticias/nacional/2025/12/30/tse-de-2026-tera-presidencia-e-vice-ocupadas-por-indicados-de-bolsonaro/
- https://www.poder360.com.br/poder-congresso/ridicularizar-evangelicos-e-inadmissivel-diz-damares-sobre-desfile/
- https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/02/16/michelle-e-evangelicos-bolsonaristas-criticam-ala-de-desfile-sobre-lula.htm
- https://www.estadao.com.br/politica/carolina-brigido/os-planos-de-nunes-marques-para-despolarizar-a-politica-em-ano-eleitoral/
- https://www.poder360.com.br/poder-justica/saiba-quais-sao-as-reclamacoes-de-propaganda-eleitoral-antecipada-para-lula/
- https://www.cnnbrasil.com.br/politica/eleicoes-pela-primeira-vez-indicado-de-bolsonaro-assumira-comando-do-tse/