O “Soft Power” Brasileiro: O Globo de Ouro de Wagner Moura e o Bobo de Ouro da Extrema Direita

Nacional, Geopolítica, Economia, Corrupção

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Por PolitikBr I Brasília, Em 14/01/2026, 19h:11, leitura: 8 min

Editor: Rocha, J.C.

O ator brasileiro Wagner Moura comemora o prêmio de melhor ator o Globo de Ouro edição 2026.

A conquista do Globo de Ouro de Melhor Ator por Wagner Moura, no último domingo, deveria ser um momento de celebração unânime no Brasil. Afinal, se trata de um reconhecimento internacional raro para um artista brasileiro, que projetou o nome do país no cenário global graças à sua atuação no filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho.

No entanto, o que se viu foi uma reação sintomática de um setor da política nacional: em vez de aplausos, uma enxurrada de ataques primários, fake news e críticas desonestas vindas de representantes da extrema direita.

Essa reação não é sobre dinheiro público ou boa gestão. É sobre ideologia, má-fé e uma profunda incompreensão – ou rejeição – do papel estratégico da cultura no desenvolvimento de um país.

Vereadora (SP) Janaina Paschoal se revolta do governo Lula comemorar a vitória do Globo de Ouro a Wagner Moura

A cena foi emblemática. Enquanto o mundo aplaudia, aqui dentro, figuras como a vereadora Janaína Paschoal (PP-SP) – conhecida por ser coautora do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff – tratavam a celebração do governo e de setores da sociedade como algo “próprio de ditaduras“.

A crítica, postada nas redes sociais, é um exemplo perfeito da miopia política em questão. Ela confunde e equipara o apoio estatal à cultura, comum em nações democráticas em todo o mundo, com propaganda autoritária.

O governo brasileiro celebrar um artista premiado é tão “ditatorial” quanto o governo francês celebrar um Cannes ou o governo americano festejar um Oscar.

A falácia revela um projeto: o de esvaziar o valor simbólico e material da produção cultural nacional quando ela não ecoa os valores de seu nicho ideológico. Primário, portanto.

O alvo preferencial desses ataques há anos é a Lei Rouanet. Ela se tornou um jargão, um slogan vazio repetido como um mantra por quem, nas palavras do próprio jornalista Octávio Guedes, “não tem a menor ideia do que seja“.

O jornalista Octavio Guedes confere o prêmio “Bobo de Ouro” a todos os extremistas que atacam a Lei Rouanet e a Wagner Moura.

Guedes, em sua fala ferina na GloboNews, concedeu o “Bobo de Ouro” a esses críticos, destacando a contradição: enquanto eles ficam presos numa ladainha contra um mecanismo de incentivo fiscal, a cultura brasileira “dá um banho”, conquista prêmios e mostra a sua face ao mundo.

A ignorância, porém, é só uma parte da equação.

Wagner Moura em entrevista a CartaCapital.

Como apontou Wagner Moura em entrevista à CartaCapital, há muita má-fé. “Tem gente que sabe exatamente o tanto de emprego e renda que [as leis de incentivo] geram, mas mesmo assim escolhe, de uma forma mentirosa, canhestra, intelectualmente desonesta, o ataque“, disse o ator.

E os números não deixam margem para a mentira. Um estudo recente da Fundação Getulio Vargas (FGV), encomendado pelo Ministério da Cultura, mostrou que para cada R$ 1 investido por meio da Lei Rouanet, retornam R$ 7,59 para a economia brasileira.

O mecanismo não é um “fundo” que o governo simplesmente entrega a artistas. É uma renúncia fiscal que permite que empresas destinem parte do imposto devido a projetos culturais previamente aprovados. O dinheiro, portanto, é privado, e seu direcionamento para a cultura gera uma cadeia produtiva intensiva: contrata atores, técnicos, cenógrafos, motoristas, gera hospedagem, alimentação, transporte e movimenta setores inteiros da economia.

Ninguém, como lembrou o ator, vai criticar os bilionários incentivos fiscais ao agronegócio ou à indústria automobilística, que proporcionalmente geram menos empregos. O ataque seletivo à cultura expõe o preconceito e a guerra ideológica.

O ridículo do fanatismo anti Lei Rouanet da extrema direita, e que receberam de Octávio Guedes o “Bobo de Ouro“, é que, disparado, os maiores beneficiados pelos subsídios da Lei Rouanet, no período de 2019 a 2025, são todos simpatizantes da extrema direita:

ArtistaValor Recebido (aproximado)Corrente Política Expressa Publicamente
Gusttavo LimaR$ 52 milhõesDireita/Extrema Direita
Bruno e MarroneR$ 45 milhõesDireita/Extrema Direita
LeonardoR$ 42 milhõesDireita/Extrema Direita
Chitãozinho e XororóR$ 38 milhõesDireita/Extrema Direita
César Menotti e FabianoR$ 35 milhõesDireita/Extrema Direita
Zezé Di Camargo e LucianoR$ 32 milhõesDireita/Extrema Direita
Eduardo CostaR$ 28 milhõesDireita/Extrema Direita
Amado BatistaR$ 23 milhõesDireita/Extrema Direita
Henrique e JulianoR$ 20 milhõesDireita/Extrema Direita
Fernando e SorocabaR$ 19 milhõesDireita/Extrema Direita

Para artistas de claro posicionamento progressista e de esquerda, os registros mostram que, no período de 2019 a 2025, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque de Holanda, por exemplo, não receberam qualquer recurso oriundo da Lei Rouanet.

Nenhum dos artistas frequentemente atacados como “comunistas” aparece no topo. Nesse levantamento, aliás, nem aparecem. A questão, portanto, nunca foi o dinheiro público. É sobre quem está sob os holofotes e que narrativa essa pessoa carrega.

Mais de Wagner Moura. O cinema nacional em festa.

E a coisa fica ainda mais surreal. Mais ridícula; afinal O filme “O Agente Secretonão recebeu patrocínio via Lei Rouanet. O filme teve um orçamento total de aproximadamente R$ 27 milhões e foi financiado, principalmente, por meio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que aportou cerca de R$ 7,5 milhões para a produção e R$ 750 mil para distribuição e comercialização. Além disso, a produção contou com recursos de coproduções internacionais com empresas da França, Alemanha e Holanda.

A irracionalidade e a histeria nesse caso distópico beira ao chulo, como visto no vídeo em que o deputado Paulo Bilynskyj (PL) chama Wagner Moura de “bosta” e alega que ele fez fortuna com dinheiro público. A alegação desconsidera completamente a trajetória internacional do ator, construída com sucesso em produções majoritariamente privadas e estrangeiras, como a série Narcos (Netflix) e o filme Guerra Civil – Civil War (produção estadunidense).

Por outro lado, artistas alinhados ideologicamente com a extrema direita, e que são, historicamente, os maiores beneficiários da Lei Rouanet, não sofrem o mesmo escrutínio maldoso. Um autêntico caso de Bullying Institucionalizado, já que esses ataques partem, em geral, de parlamentares extremistas ou de entes instigados por eles.

A projeção de poder sutil (soft power) e da força bruta (hard power).

É aqui que chegamos ao cerne da discussão: o Soft Power.

Enquanto a extrema direita brasileira recebe “Bobos de Ouro“, Wagner Moura conquistou um Globo de Ouro que vale muito mais do que uma estatueta. Ele projetou uma imagem positiva, complexa e talentosa do Brasil para o mundo. 

O Agente Secreto, que retrata os horrores da ditadura militar brasileira, coloca o país no debate global sobre memória, verdade e autoritarismo. Isso é soft power: a capacidade de um país influenciar outros, não através da força militar ou econômica (hard power), mas por meio de sua cultura, de seus valores e de sua atratividade.

Os Estados Unidos dominaram o século XX não apenas com seu exército, mas com Hollywood. Através do cinema, exportaram o “sonho americano”, um estilo de vida, valores (muitas vezes questionáveis) e a língua inglesa. Glorificaram seu heroísmo em guerras, moldaram percepções e criaram uma aura de inevitabilidade em torno de seu projeto.

O Brasil, com sua diversidade cultural imensa, tem um potencial de soft power incomparável. O carnaval já é um fenômeno global. O cinema, agora premiado em um dos eventos mais assistidos do mundo, é outro. Negar apoio a esse setor é como abrir mão de um campo de batalha crucial na geopolítica contemporânea. É aceitar que a imagem do Brasil seja definida apenas por notícias sobre violência, desmatamento e instabilidade política, e nunca por sua criatividade, resiliência e capacidade de contar suas próprias histórias.

A fala de Octávio Guedes foi profética: “Enquanto vocês ficam nessa ladainha aí, a cultura brasileira vai dando um banho”. E deu. 

O Agente Secreto não foi financiado pela Lei Rouanet, mas ele é fruto de um ecossistema que políticas públicas de incentivo ajudaram a construir. Wagner Moura mesmo atribui a sua formação às políticas culturais em Salvador nos anos 1990. Atacar esse ecossistema é atacar o futuro da imagem do Brasil. É preferir um país mudo, sem narrativa, sem autoestima, fácil de ser caricaturado.

A vitória de Wagner Moura e a reação patética da extrema direita representam um divisor de águas simbólico. De um lado, a sociedade viva, a cultura pulsante, que produz e conquista o mundo apesar dos pesares. Do outro, o atraso, a má-fé intelectual, a negação do óbvio e a distribuição de “Bobos de Ouro” para quem insiste em ser uma caricatura de si mesmo. O Brasil precisa escolher que poder quer exercer no mundo: o do deboche vazio e da ignorância orgulhosa, ou o do talento, da memória e da beleza complexa que só a sua arte é capaz de mostrar.

Esse artigo foi baseado em:

  1. Entrevista de Wagner Moura à revista CartaCapital: “Não dá para explicar a Lei Rouanet para quem não assimilou a Lei Áurea”.
  2. De onde veio o dinheiro para o filme O Agente Secreto? Spoiler: não teve Lei Rouanet – Seu Dinheiro
  3. https://youtu.be/Gj4MJ7cPPb4?si=W5_jW7EplLw8wQgS
  4. Notícia da Revista Fórum sobre a crítica de Janaína Paschoal: A reclamação inacreditável de Janaína Paschoal sobre a vitória de Wagner Moura.
  5. Dados econômicos da Lei Rouanet divulgados pelo Ministério da Cultura (Facebook): Para cada R$ 1 investido por meio da Lei Rouanet, R$ 7,59 retornam para a economia.

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