Oreshnik: A Força Bruta da Geopolítica

Internacional, Geopolítica

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Por PolitikBr I Brasília, Em 13/01/2026, 09h:34, leitura: 5 min

Editor: Rocha, J.C.

O estrondo que sacudiu Lviv não foi apenas o de uma explosão. Foi o som de uma mensagem calculada para atravessar fronteiras, salas de comando e ilusões estratégicas. Pela segunda vez, a Rússia lançou o míssil hipersônico Oreshnik, dessa vez contra o oeste da Ucrânia, a menos de 100 Km da fronteira da Polônia — e, como observa o analista Scott Ritter em sua conversa com Nima Alkhorshid, no podcast Dialogue Works, o alvo real não estava apenas no mapa ucraniano, mas nas capitais do Ocidente.

Não se tratou de um gesto militar convencional. Foi um aviso em forma de cinzas, fogo e plasma, a pontuação final de uma longa sequência de advertências ignoradas.

Para Ritter, o Ocidente insiste em interpretar a contenção russa como fraqueza um erro recorrente da política externa americana — quando, na verdade, se trata de uma paciência estratégica que está chegando ao limite.

O que vemos hoje é o ápice de uma política deliberada. Segundo Ritter, Washington, especialmente sob a lógica de confronto inaugurado e radicalizado por Biden e Trump, adotou uma estratégia de cerco total à Rússia: sanções, guerra financeira, operações de inteligência, sabotagens, ataques cibernéticos e o uso da Ucrânia como instrumento de desgaste prolongado. O objetivo não é coexistência, mas submissão.

Ritter é direto ao ponto ao descrever a mentalidade que domina setores do establishment americano:

Tudo o que queremos são os recursos russos fluindo para os Estados Unidos em termos que nos sejam favoráveis.”

Essa frase não é retórica: é o núcleo de uma lógica imperialista que enxerga Estados soberanos como depósitos de matérias-primas a serem dilapidados para o bel prazer dos americanos e de sua sociedade perdulária. Viciada em ter “do bom e do melhor”, mesmo que isso, aliás, seja hoje para poucos, face à gritante e crescente concentração de renda na mão de poucos. Uma nação rica com milhões de miseráveis. Portanto, é nesse contexto que o Oreshnik deixa de ser apenas um míssil e passa a ser um símbolo geopolítico.

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O Oreshnik materializa a linguagem que Moscou sabe que Washington realmente compreende: a da dissuasão crua. Violenta.

Atacar Estados quase indefesos é fácil. E Trump se vangloria disso. Ensandecido pensa poder tudo: Venezuela, Cuba, Nigéria, Groenlândia. Quem sabe a Colômbia, O Brasil, a Noruega. E o Canadá? Sendo transformado, à força da coação ou das armas, em mais um estado americano. Com os russos e os chineses, isso é diferente.

Ao atingir Lviv, a poucos quilômetros da fronteira com a Polônia — e, portanto, do território formal da OTAN — a Rússia enviou um recado com clareza:

Vocês não estão fora de alcance.
As suas defesas não são invioláveis.
A sua superioridade tecnológica é uma ilusão.

Para Scott Ritter, isso não surgiu do nada. Ele relembra os ataques recentes com drones contra bombardeiros nucleares estratégicos russos — uma operação de sabotagem que, segundo ele, carrega a assinatura da CIA e do MI6: Aquilo foi um teste direto à doutrina nuclear russa. Moscou respondeu com contenção. Mas testes repetidos, em um ambiente de cerco contínuo, levam inevitavelmente a um ponto de ruptura.

“Oreshnik”, alerta Ritter, “é o momento em que a Rússia decide que precisa ser ouvida.”

E há um elemento ainda mais profundo por trás disso: o fator psicológico e civilizacional. Para Ritter, o Ocidente nunca perdoou a Rússia por ter se levantado após o colapso dos anos 1990. Sob Putin, o país reconstruiu a sua soberania, a sua autoestima e a sua autonomia estratégica — exatamente o tipo de independência que a lógica hegemônica americana não tolera.

O sistema de poder dos Estados Unidos, argumenta Ritter, não se sustenta apenas por armas, mas pela imposição cultural da inferioridade alheia. Outros povos devem aceitar que precisam ser moldados, orientados e, se necessário, punidos. Uma Rússia confiante, orgulhosa e tecnologicamente capaz rompe esse roteiro.

Por isso, a pressão não é para negociar, mas para esmagar.

O Oreshnik surge, então, como uma resposta a essa tentativa de apagamento. Ele sabe que Moscou possui capacidade de anular décadas de investimento ocidental em supremacia militar.

Ritter não é otimista. Ele denuncia o ambiente da russofobia sistêmica que domina grande parte da mídia, da academia e da política americana, criando uma elite que não entende a Rússia e, por isso, a subestima. Essa ignorância, alerta ele, é a matéria-prima das grandes catástrofes estratégicas da História.

O segundo disparo do Oreshnik – contra Lviv – não foi um episódio tático. Foi um ponto de exclamação geopolítico. A prova de que o diálogo diplomático foi substituído pelo diálogo balístico. Enquanto Washington continuar a pressionar sob a ilusão de que Moscou acabará cedendo, a resposta virá em ondas cada vez mais perigosas.

O silvo do Oreshnik sobre Lviv não foi apenas o som de um míssil.
Foi o som do fracasso da diplomacia.
Foi o rugido de uma Nova Guerra que já não é fria. Mas que pode se tornar Quente. Explosiva.

E a pergunta que fica, como na própria análise de Scott Ritter, e que permanece sem resposta:

Quantos avisos ainda serão necessários antes que o Ocidente escute?

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