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Por PolitikBr I Brasília, Em 08/01/2026, 20h:16, leitura: 7 min
Editor: Rocha, J.C.
A Justiça que Veio no Aniversário do Caos: O Veto que Salva a Democracia
Oito de janeiro de 2026, hoje, não é uma data qualquer no calendário da jovem democracia brasileira. É uma cicatriz aberta, um marco de violência e insanidade que, a cada ano que passa, exige mais do que simples lembrança: exige resposta.
No terceiro aniversário da tentativa de golpe de Estado que viu hordas enfurecidas depredarem os símbolos máximos da República em Brasília, o Palácio do Planalto foi palco de um ato de simbolismo profundo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em cerimônia pública, vetou integralmente o Projeto de Lei da Dosimetria, uma proposta que, sob um verniz técnico, buscava abreviar as penas dos condenados por aquele ataque, parte da tentativa de golpe de Estado contra Lula e Geraldo Alckmin.
O projeto não surgiu do acaso. Nasceu na calada da noite, literalmente. Na madrugada de 10 de dezembro de 2025, a Câmara dos Deputados, sob a liderança de Hugo Motta, aprovou o texto em uma sessão com transmissão suspensa e imprensa expulsa. Era um “golpe dentro do golpe”, uma tentativa de, através de uma manobra legislativa, conceder um atalho para a liberdade – ou redução drástica das penas impostas aos condenados em julgamentos no STF – daqueles que tentaram tomar o poder pela força. O alvo principal era evidente: beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão, e toda a sua cúpula golpista.
O jornalista Jamil Chade foi direto ao apontar o absurdo: o próprio Bolsonaro, de dentro da prisão, teria aprovado o esboço do projeto apresentado por seu filho. Ou seja, o condenado virou legislador fantasma.
A farsa, no entanto, ganhou contornos de tragicomédia quando o projeto chegou ao Senado. Em gravações que circularam, o próprio presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), senador Otto Alencar, alertou que o projeto estava cheio de brechas e poderia beneficiar até condenados por crimes sexuais. Apesar disso, a máquina política seguiu adiante.
O senador Jaques Wagner, líder do governo, costurou um acordo de tramitação rápida, o que gerou uma crise aberta com a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, que classificou a atitude como um “erro lamentável”. O governo, que se dizia contra, via a sua liderança no senado facilitar a votação.
O resultado foi um texto aprovado às pressas, mas com vícios formais gravíssimos: uma emenda de mérito foi classificada como “de redação” para evitar seu retorno à Câmara, e prazos regimentais foram reduzidos de dias para meras horas.
As Bancadas governistas impetraram, então, um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a suspensão do processo, alegando “fraude ao processo legislativo”.
Enquanto isso, nas ruas, a sociedade brasileira reagia. Desde setembro de 2025, manifestações massivas tomavam as principais cidades do país contra qualquer tentativa de anistia ou blindagem de golpistas. Artistas como Daniela Mercury, Gilberto Gil e Wagner Moura se juntaram ao coro popular. Pesquisas do Datafolha deixavam claro o sentimento nacional: a maioria esmagadora dos brasileiros era contra reduzir penas daqueles que atentaram contra a democracia. O povo não dormia no ponto.
A celebração do veto por Lula no dia 8 de janeiro de 2026 é, portanto, muito mais do que uma decisão de governo. É a resposta a uma demanda social cristalina. É o reconhecimento de que a democracia, ferida há três anos, não se cura com indulgência para com seus algozes.
O veto é um marco necessário, um freio de arrumação contra um Congresso que, em parte, ainda flerta com a impunidade. A batalha, porém, não terminou. O veto volta ao Congresso, que pode derrubá-lo. E o STF ainda terá a palavra final sobre a constitucionalidade de todo esse processo.
Um Veto que Encerra um Ato — e Abre a Batalha
O ato de força simbólico do veto presidencial à chamada Lei da Dosimetria está consumado. A batalha política, no entanto, apenas recomeça. O tema retorna agora ao Congresso Nacional, onde deputados e senadores enfrentarão uma decisão que vai muito além de uma avaliação jurídica ou partidária. Se trata de um cálculo político de alto risco em pleno ano eleitoral, sob o olhar atento de uma opinião pública majoritariamente contrária a qualquer forma de perdão a golpistas, como já frisamos.
Derrubar o veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não será um gesto neutro. Será uma escolha com custo eleitoral potencialmente devastador para quem assumir o patrocínio dessa pauta.
O Dado que Assombra o Plenário
Aqui reside o cerne do dilema para o chamado centrão e a extrema direita. As pesquisas são categóricas e consistentes. Levantamento do Datafolha (setembro de 2025) indicou que 54% da população rejeitava o perdão a Bolsonaro, enquanto 61% se opõem à anistia aos envolvidos no 8 de janeiro. O PoderData confirmou a tendência: 64% dos brasileiros são contra a anistia aos presos dos atos golpistas.
Não se trata de pauta de nicho nem de militância organizada. É um consenso democrático pós-trauma, consolidado na sociedade.
As Ruas falam — e Observam
2026. A opinião pública não se limita aos números. Hoje, 8 de janeiro de 2026, enquanto o veto era anunciado, uma grande manifestação na Cinelândia – Rio de Janeiro – reuniu centrais sindicais e movimentos sociais para lembrar a data e rejeitar o que um sindicalista definiu como “a estratégia de fingir que não é anistia; a dosimetria é apenas o genérico da anistia”.
O recado foi direto: a sociedade está vigilante e organizada, pronta para transformar a defesa da impunidade em marco eleitoral negativo para quem insistir nela.
2026: o Ano em Que Todo Voto Pesa
Este não é um ano político qualquer. 2026 traz eleições gerais, mudança garantida no Palácio do Planalto, renovação integral do Senado e da Câmara, além das disputas por governos estaduais e assembleias legislativas. Cada voto será escrutinado.
Para o centrão — bloco pragmático cuja sobrevivência depende de se equilibrar entre o governo e a oposição — , mas sempre de mãos dadas com os extremistas da direita, levantar a mão para beneficiar golpistas condenados é um risco existencial. Significa assumir uma etiqueta política tóxica, justamente quando moderação e defesa da ordem democrática se mostram valores eleitorais decisivos.
A armadilha da extrema direita
Para a extrema direita – bolsonarismo -, o cálculo é distinto, mas não menos perigoso. Ao transformar a derrubada do veto em bandeira central, o movimento se reafirma como a facção política dos golpistas. Embora mobilize o núcleo duro, esse rótulo afasta indecisos e amplia a rejeição do eleitorado moderado.
Não vamos nos esquecer também que Lula vai usar politicamente as sanções patrocinadas pelo deputado cassado da extrema direita, Eduardo Bolsonaro, junto ao governo americano contra o Brasil, como trunfo eleitoral. Afinal, qual eleitor vota em alguém acusado de trair a sua Pátria? Ao seu próprio povo? Ao mesmo tempo em que arrota um patriotismo de araque?
Há ainda o fator Trump e o ataque à Venezuela que, embora ainda imprevisível, certamente será usado por Lula em seu palanque de 2026, em defesa da nação contra uma potência agressiva e imperialista.
Em uma eleição presidencial altamente polarizada, carregar o estigma de “partido da anistia aos que atacaram a democracia” ou que “celebra uma agressão contra a própria pátria” pode ser um fardo pesado demais para quem almeja ser eleito.
Um lance de xadrez bem calculado
O veto presidencial funcionou como um lance preciso de xadrez político. O ônus da decisão foi deslocado para o Congresso, colocando a oposição contra a parede. Se mantiverem o veto, frustram a base mais radical e o projeto de até vir a libertar em poucos anos o seu principal líder. Se o derrubarem assumem, perante o país, a pecha de defensores da impunidade em pleno ano eleitoral.
Ao vetar, o governo se alinha à vontade majoritária da população e captura a bandeira da defesa intransigente da democracia — posição confortável e eleitoralmente vantajosa.
Após a votação apressada, os vícios formais do texto e o conflito nos bastidores, o Supremo Tribunal Federal segue como árbitro potencial. Mas, antes dele, serão os parlamentares — um a um — os verdadeiros juízes de seu próprio destino político.
Derrubar o veto é assumir um custo que, nas urnas de 2026, pode se revelar incalculavelmente caro.
Esse artigo foi baseado em:
- https://noticiabrasil.net.br/20260108/lula-veta-pl-da-dosimetria-que-beneficia-bolsonaro-em-evento-do-8-de-janeiro–46860152.html
- https://noticiabrasil.net.br/20260108/lula-avalia-projeto-que-reduz-penas-de-golpistas-enquanto-stf-ja-contesta-a-proposta-diz-midia-46859518.html
- https://politicaemdebate.org/2025/12/18/pl-da-dosimetria-tese-uma-peca-de-teatro-politico/
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- https://politicaemdebate.org/2025/12/19/o-conflito-nos-bastidores-a-crise-que-levou-a-dosimetria-ao-stf/
- https://politicaemdebate.org/2025/09/21/blindagem-e-anistia-o-brasil-reage/
- https://www.cnnbrasil.com.br/politica/datafolha-54-rejeitam-anistia-a-bolsonaro-aprovacao-e-de-39/
- https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-01/manifestacao-no-rio-lembra-8-de-janeiro-e-rejeita-anistia-golpistas
- https://www.infomoney.com.br/politica/64-dos-brasileiros-rejeita-anistia-aos-presos-do-8-de-janeiro-mostra-poderdata/