Venezuela: A “Bola Fora” do Pretenso Rei do Mundo. Trump Mete os “Pés pelas Mãos”

Internacional, Geopolítica

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Por PolitikBr I Brasília, Em 05/01/2026, 15h:31, leitura: 7 min

Editor: Rocha, J.C.

O Combustível que os Democratas queriam.

Havia um combustível político pronto para ser aceso — e Donald Trump resolveu riscar o fósforo.

Da ala democrata nos Estados Unidos à extrema-direita europeia, passando por figuras tão distintas quanto Kamala Harris, o prefeito de Nova York Zohran Mamdani e até Marine Le Pen, o coro foi praticamente uníssono: a ação norte-americana contra a Venezuela ultrapassou todos os limites da legalidade internacional.

E isso diz muito.

A narrativa vendida às pressas — a de que o presidente venezuelano Nicolás Maduro seria um “narcoterrorista” cuja captura serviria à justiça global — não se sustenta por mais de alguns minutos sob exame sério.

O que está em jogo não é o combate às drogas. Nunca foi. O verdadeiro pecado da Venezuela, aos olhos de Washington, é outro: há mais de vinte anos, um país pequeno, pressionado e sancionado, insiste em não se curvar integralmente aos ditames dos Estados Unidos.

E isso Trump não tolera.

No seu primeiro mandato ele tentou submeter a Venezuela aos seus caprichos. No segundo mandato, diante de uma Venezuela conectada como hub da Rota da Seda no Caribe; com conexões e interesses geopolíticos com países “inimigos”, como o Irã, a Rússia e a China, em especial, para ele – um negociante fracassado na vida privada – foi demais.

Um roteiro antigo, um desfecho brutal

A operação militar do truculento Trump, que culminou no sequestro de Maduro, em 03 de janeiro de 2026, foi o desfecho previsível de um processo longo. Um rastilho de pólvora de décadas de sanções, sabotagens diplomáticas e tentativas fracassadas de asfixia econômica. Até a pura e simples pirataria os Estados Unidos se rebaixaram, apreendendo petroleiros venezuelanos em alto mar. Coisa de bucaneiros. De foras da lei. De um presidente que envergonha a história da sua pátria. Que envergonha o seu povo.

O discurso oficial, mais falso que uma nota de US$ 1.50, fala em “narco-Estado”. Mas basta um mínimo de honestidade intelectual para perceber o quanto essa acusação é frágil. Como revelam especialistas e ativistas que estudam o tráfico internacional de drogas, a Venezuela simplesmente não ocupa posição estratégica relevante nas rotas que abastecem o mercado consumidor norte-americano. O eixo real do narcotráfico passa historicamente pelo México e pela América Central, gente, aliás, das relações dos americanos — territórios onde a influência direta dos EUA é infinitamente maior.

Transformar a Venezuela no grande vilão das drogas é um expediente retórico velho, reciclado agora com urgência para encobrir o verdadeiro motivo da agressão: o controle das maiores reservas de petróleo do planeta e a guerra declarada à América Latina e ao BRICS. Um “narcoterrorismo” seletivo, que só se torna justificativa para guerra quando o país acusado ousa vender seu petróleo a russos, chineses ou iranianos.

Um ato de guerra — e sem autorização

O próprio sistema político norte-americano sentiu o impacto da arbitrariedade. O líder democrata na Câmara dos Representantes, Hakeem Jeffries, rejeitou as alegações do governo Trump de que a ação militar dos Estados Unidos foi uma operação policial, a classificando como um “ato de guerra” que exigiria autorização do Congresso. Tampouco, óbvio, – Trump se importa com a legalidade de seus atos? Certamente não – não houve aval do Conselho de Segurança da ONU, onde a China e a Rússia certamente vetariam a operação. Não houve consenso interno. Não houve sequer o cuidado mínimo de revestir a ação com algum verniz jurídico.

Foi uma decisão pessoal, truculenta e imperial, digna dos piores capítulos do século XIX.

A imagem de Maduro desembarcando algemado em Nova York, e sendo conduzido em uma van pelas ruas de Nova York, com a porta traseira aberta, foi cuidadosamente construída para o espetáculo midiático. Uma agressão vil. Asquerosa. Mas essa agressão diz mais do que Trump imagina: as algemas não estavam apenas nos pulsos do presidente venezuelano. Estavam também na credibilidade dos Estados Unidos perante o mundo.

Quando Trump violenta o sistema de regras, antes tão caro aos Estados Unidos, ele auto violenta o próprio país. Talvez seja isso que ele queira: chocar e fingir que Washington ainda pode tudo. Quando, na verdade, não pode mais. E Trump sabe disso.

E se pudesse Trump não precisaria recorrer ao sequestro de um presidente como método. Via Soft Power, – como os estadunidenses fizeram ilegalmente dezenas de vezes ou induziram seus cooptados a fazê-lo – os Estados Unidos teriam destituído Maduro há muito tempo. Mas a verdade não é mais essa. Sem o uso da violência extrema e ilegal, Trump está de mãos amarradas.

Quando até a extrema-direita diz “não”

Talvez o dado mais revelador desse episódio seja a reação internacional. Marine Le Pen, adversária ideológica histórica do chavismo, repudiou publicamente a ação dos EUA. Não por simpatia a Maduro, mas por princípio. Porque o que estava em jogo não era esquerda ou direita — era soberania nacional.

A direita nacionalista europeia, que costuma defender com fervor o conceito de autodeterminação, percebeu rapidamente o precedente perigoso: se uma potência pode sequestrar um chefe de Estado estrangeiro sob pretextos frágeis, ninguém está realmente seguro.

A China foi ainda mais direta, exigindo a libertação imediata de Maduro e denunciando a violação do direito internacional. O gesto deixou claro que Trump, em sua cruzada para se tornar — como avaliaram diplomatas brasileiros — “o imperador do mundo”, subestimou os limites políticos e estratégicos do cenário multipolar.

O petróleo sempre esteve no centro

A declaração de Kamala Harris, condenando a agressão e denunciando explicitamente a intenção do “roubo de petróleo venezuelano”, foi o momento em que a máscara caiu de vez. Quando até a oposição interna abandona o discurso moralizante sobre democracia e direitos humanos, é porque a realidade se impôs de forma incontornável.

Era sobre combustível. Sempre foi. Mas, se você já perdeu a supremacia do mundo unipolar, quer se agarrar com unhas e dentes ao que lhe resta: a América Latina, talvez a Groenlândia. O problema é que o tempo mudou, e esse jogo é extremamente perigoso, desestabilizante à enésima potência de um mundo já desestabilizado.

O editorial do New York Times, voz tradicional do establishment liberal norte-americano, também rompeu o silêncio confortável e criticou duramente a ação de Trump. O mal-estar atravessou o espectro político porque o ataque foi excessivo até para os padrões históricos do intervencionismo dos EUA.

O mundo não engole mais narrativas prontas

Trump e seus estrategistas erraram o cálculo fundamental: no século XXI, a informação é descentralizada. A velha narrativa já não cola. O mundo enxerga a contradição gritante de um país que diz combater o narcotráfico enquanto abriga o maior mercado consumidor de drogas do planeta. De um país que prega o respeito às leis internacionais enquanto sequestra um chefe de Estado estrangeiro.

A Venezuela, já exausta por décadas de pressão, virou palco de mais uma encenação imperial. Mas desta vez, o público global — de Pequim a Paris, de Buenos Aires a Berlim — reagiu com vaia, não com aplausos.

A lição amarga

O combate ao narcotráfico, uma tragédia real e complexa nas Américas, foi instrumentalizado como cortina de fumaça para uma tentativa de assalto geopolítico. A operação ilegal de Trump não enfraqueceu os cartéis. Não salvou vidas. Apenas reforçou uma mensagem perigosa: países que controlam recursos estratégicos e insistem em soberania plena, se tornam alvos prioritários na lógica de um bucaneiro desqualificado.

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