A Engrenagem do Poder: Banditismo, Dosimetria e o Preço de uma Candidatura

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Por PolitikBr I Brasília, Em 10/12/2025, 16h:02, leitura: 6 min

O que se viu na Câmara dos Deputados nesta terça-feira, 9 de dezembro de 2025, não foi apenas mais uma sessão conturbada. Foi a peça teatral final de um acordo político cínico; a materialização de um banditismo institucionalizado que, sentindo-se impune, decidiu afrontar abertamente o Judiciário e a própria democracia.

O projeto que reduz drasticamente as penas dos condenados pelo 8 de janeiro, aprovado a toque de caixa, pode ser visto como moeda de troca de uma negociação suja. E a chave para entender esse episódio pode estar em uma frase dita nos bastidores: o “bom preço” que Flávio Bolsonaro cobraria para desistir da corrida presidencial de 2026.

Vamos por partes. O Supremo Tribunal Federal (STF), após um julgamento histórico de mais de um ano, condenou Jair Bolsonaro, ex-comandantes militares e outros civis por seus papéis no atentado golpista de 8 de janeiro de 2023. A sentença do ex-presidente, de 27 anos e 3 meses, representava um marco na tentativa de fazer a lei valer para todos. Mas para uma parcela do Congresso, essas condenações não eram um acerto de contas com a Justiça; eram um problema político a ser contornado.

Entra em cena o “Projeto de Lei da Dosimetria“. Na teoria, um ajuste técnico sobre cálculo de penas. Na prática, uma manobra de anistia disfarçada, aos condenados pelo golpe. A proposta, que pode reduzir em até 25 anos a pena de Bolsonaro, foi pautada e aprovada com velocidade assombrosa pelo presidente da Câmara, Hugo Motta — ato que, por si só, foi classificado pelo ministro Flávio Dino (STF), como uma “afronta” ao tribunal. Mas por que a urgência? Por que agora?

Aqui entram os bastidores e os fios que parecem ligar os acontecimentos. Depois de meses em que se aguardava a quem caberia a “benção de Bolsonaro” para 2026, Flávio Bolsonaro, seu filho, foi o nome indicado para a disputa presidencial de 2026.

No entanto, esse anúncio causou pânico em setores do centrão e, principalmente, no chamado “mercado”, que viu na figura do senador, um risco de continuidade do mesmo projeto radical e turbulento do pai. A preferência desses setores é claramente por nomes como Tarcísio de Freitas, visto como mais palatável e estável.

É aí que surge a peça do quebra-cabeça. Conforme apurado por veículos de imprensa e comentado em redes por perfis políticos, Flávio Bolsonaro teria condicionado sua desistência da candidatura a um “bom preço“.

No vocabulário político, “preço” raramente significa dinheiro vivo; significa poder, influência, benesses. E qual benesse maior para a família Bolsonaro, neste momento, do que livrar o patriarca da cadeia?

A conexão se torna clara. A votação relâmpago da PL da Dosimetria na Câmara, ignorando todos os trâmites e oposições, não é um ato isolado de bondade parlamentar. É a contrapartida. É o “bom preço”.

Em troca de não lançar uma candidatura que desestabilizaria alianças e assustaria eleitores de centro, o bolsonarismo recebe, de presente embrulhado pelo Congresso, a redução da pena de seu principal líder. É a política em sua forma mais pura e perversa: um acordo de cúpula que troca o futuro político do país pela impunidade de condenados por tentativa de golpe de Estado.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, rapidamente anunciou que colocaria a matéria em votação, demonstrando que o combinado não era apenas na Câmara. Apesar da resistência imediata de senadores como Otto Alencar, que afirmou que a pauta não andaria “a toque de caixa” na Comissão de Constituição e Justiça do Senado e só seria vista em 2026, o objetivo principal já estava cumprido: criar o fermento do caos político, colocar o STF contra a parede e mostrar força. O gesto em si, a aprovação, já é a mensagem. É o banditismo político se sentindo autorizado. E quem foi escolhido o relator de tal excrescência no senado? Claro…O senador Espiridião Amim, um defensor ferrenho da anistia aos condenados pela tentativa de golpe fracassada.

E por que se sentem autorizados? Porque a história recente mostra que a impunidade é a regra. O texto que serve de base a esta análise enumera: as rachadinhas não foram punidas; as alianças com milícias não foram punidas; os ataques às instituições em 8 de janeiro, até então, só puniram os soldados de infantaria, não todos os generais. Como bem disse o tenente coronel Mauro Cid: Só estão presos os “bagrinhos”.

O ex-presidente Jair Bolsonaro passou décadas pregando golpes, elogiando torturadores, sendo responsável, segundo acusações como as do presidente Lula, por centenas de milhares de mortes na pandemia; e sempre escapou ileso. O Congresso, por sua vez, está sempre ocupado em garantir suas próprias benesses, como as obscuras emendas PIX´s — um sistema de distribuição de dinheiro público sem transparência; e que assim vê na defesa de Bolsonaro uma forma de autodefesa. Se um ex-presidente pode ser punido, quem dirá um deputado por suas emendas?

A fala do ministro Flávio Dino, repetida no discurso-base, é um farol que ilumina o papel do Judiciário nesse cenário: “Nós cuidamos do trilho, para que o trem efetivamente chegue e não suma no meio do caminho”.

O STF tem sido esse trilho, tentando garantir que os recursos públicos não “sumam” e que os crimes graves não fiquem impunes. É exatamente por isso que se tornou o alvo principal. A PEC da Dosimetria é mais do que um projeto de lei; é um tiro de canhão contra os trilhos. É uma tentativa de descarrilar a última instituição que ainda insiste em aplicar a lei a poderosos.

O que une, portanto, a suposta barganha de Flávio Bolsonaro e a votação assoberbada da dosimetria? Uma negociação espúria que coloca o interesse de um grupo político acima do Estado de Direito. É a confirmação de que, para essa elite política, cargos e poder são moedas de troca negociáveis, e a Justiça é apenas um obstáculo a ser contornado por manobras legislativas.

O “mercado” pode respirar aliviado com a possível saída de Flávio da disputa, mas o preço pago por esse alívio é a erosão catastrófica da Justiça e a mensagem de que tentar um golpe de Estado sai barato, desde que você tenha aliados no Congresso.

O banditismo político não é uma metáfora. É uma prática. E nesta terça-feira, ele não apenas agiu; ele desfilou. E o fez porque, por muito tempo, foi acariciado, e não punido.

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