As Manobras no PL Antifacção e o Enfraquecimento da PF

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Por PolitikBr I Brasília, Em 19/11/2025, 20h:18, leitura: 6 min

A política brasileira vive, nas últimas semanas, um daqueles momentos em que os fios aparentemente soltos se entrelaçam para formar uma teia de intenções sombrias. No centro desse emaranhado está o Projeto de Lei (PL) antifacção apresentado pelo governo à Câmara dos Deputados e, literalmente, deformado pelo relator, o deputado Guilherme Derrite (PSD-SP), secretário licenciado de Segurança Pública de São Paulo, que foi aprovado ontem (18/11), em sua quinta versão, a toque de caixa, com o apoio maciço da extrema direita e do centrão. Uma versão do projeto original que agora, longe de ser uma mera peça técnica de combate ao crime organizado, se revela uma operação de bastidores para proteger interesses escusos e blindar figuras poderosas das garras da lei.

A trama começa a ganhar contornos nítidos quando se observa os resultados já revelados da Operação Carbono Oculto, considerada por muitos especialistas como uma das mais importantes da história recente do Brasil. Ela não apenas expôs a conexão entre o crime organizado e o sistema financeiro de alto nível, mas também revelou um ecossistema criminoso que opera na prestigiada Avenida Faria Lima, em São Paulo. Lá, de acordo com as investigações, sonegadores de impostos, operadores financeiros, representantes de apostas legais e ilegais (bets) e até políticos se encontram com o braço violento do Primeiro Comando da Capital (PCC).

Um dos dados mais impactantes dessa operação foi a extração de terabytes de dados de uma única instituição financeira, trabalho que durou 20 horas e revelou um verdadeiro mapa do crime organizado no Brasil: e-mails, mensagens privadas, organogramas e, crucialmente, os nomes por trás de fundos de investimento e offshores até então opacos.

Dois nomes saltam aos olhos nesse contexto: Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, e Mohamed Hussein Murad, o “Primo”. Eles são apontados como líderes de um núcleo investigado na Carbono oculto, com suspeitas de atuação em esquemas bilionários de sonegação fiscal e fraude em combustíveis. Ambos estão foragidos do Brasil. E é aqui que a trama se revela: há fortes indícios, ventilados por investigadores e pelo deputado estadual Antônio Donato (PSOL-SP), de que Beto Louco estaria disposto a fechar uma delação premiada.

Uma delação desse porte seria uma bomba de efeito retardado no establishment político e econômico de São Paulo e do Brasil. Ela poderia fornecer o “nexo” que os investigadores tanto buscam para dar sentido aos terabytes de dados apreendidos, acelerando brutalmente as investigações e alcançando figuras até então intocáveis.

É nesse cenário de pânico entre certos setores que surge a missão atabalhoada do relator Derrite. Seu relatório, apresentado poucas horas após sua nomeação por Hugo Motta, continha, em suas versões iniciais, pontos que chamaram a atenção pela flagrante desconexão com o objetivo de combater o crime organizado:

  1. Tentativa de Afastar a Polícia Federal: A versão original praticamente impedia a atuação da PF no combate às facções, subordinando suas investigações à autorização do governador do estado. Isso, na prática, criaria um mecanismo de veto político sobre as operações federais.
  2. Corte de Recursos: Versões subsequentes buscavam limitar o financiamento da PF e interferir na recuperação de bens fruto de atividades ilegais, um golpe direto na capacidade operacional e financeira da corporação.
  3. Inserção da Figura do “Terrorismo”: Sob pressão da ala mais radical, se tentou equiparar as facções do narcotráfico a organizações terroristas, uma manobra arriscada que, segundo especialistas, poderia isolar o Brasil internacionalmente e criar um “festival de nulidades” no Judiciário, anulando futuras operações e expondo o país a sanções econômicas e mesmo confisco de ativos, além de limitar ou impedir aplicações de fundos soberanos em ativos nacionais, uma autêntica sabotagem ao Brasil.

A pergunta que se impõe é: por que tanta pressa e tanto empenho em aprovar um projeto claramente mal elaborado? A resposta, embora ainda careça de provas cabais, aponta para uma direção alarmante: se trata de uma operação de blindagem.

A hipótese, sustentada por análises como as do deputado Donato e de jornalistas que acompanham o caso, é que setores do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), do Centrão (encabeçado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta), e até mesmo o relator Derrite estariam aterrorizados com o avanço da Operação Carbono Oculto. O temor é que uma delação premiada de Beto Louco e a análise dos dados da Faria Lima exporiam relações perigosas entre o poder político paulista e o esquema de sonegação que, por sua vez, teria se fundido com o PCC para lavagem de dinheiro fruto das operações criminosas.

Derrite, um capitão reformado da Polícia Militar de São Paulo (PMSP), com histórico de ressentimento contra a cúpula de sua corporação por ter sido expulso da Rota, a tropa de elite da polícia paulista, por excesso de mortes, e ainda conhecido por um discurso agressivo nas redes sociais, seria a peça ideal para, sob o manto do combate às facções, promover um desmonte estratégico da capacidade investigativa da Polícia Federal.

A atuação desastrada de Derrite e a reação negativa generalizada – incluindo a de juristas, promotores experientes no combate ao crime organizado, como o gaúcho Linh Kogakia, setores da sociedade mais engajados, e até de governadores de direita – mostram o desespero por trás da manobra.

O projeto, no entanto, sob protestos da bancada governista, acabou sendo aprovado na Câmara, em sua quinta versão, que amenizou alguns dos pontos mais críticos, mas a mensagem foi clara: há um grupo de poder no país disposto a enfraquecer instituições-chave de controle para proteger seus interesses.

A luta não é sobre ser a favor ou contra o endurecimento de penas para criminosos; é sobre não permitir que o Estado seja instrumentalizado para criar um escudo legal e eficaz ao combate das quadrilhas mafiosas e aos criminosos de colarinho branco, gente normalmente influente e bastante poderosa.

A Operação Carbono Oculto revelou, com a apreensão de R$ 30 bilhões em ativos do PCC, que operava 40 fundos de investimentos, que o crime organizado no Brasil não está mais confinado às periferias. Ele se infiltrou no coração do sistema financeiro e estabeleceu simbioses perigosas com a política. A tentativa – e de certa forma o sucesso – em desfigurar o PL antifacção do Ministério da Justiça é um sintoma de que essa simbiose está enraizada e em expansão, como um câncer.


Esse artigo foi baseado em:

  1. https://youtu.be/eYoV61Ajbbg?si=8x8npzWgVP_ADtl0
  2. https://www.cartacapital.com.br/politica/camara-aprova-relatorio-de-derrite-para-o-pl-antifaccao-com-370-votos-a-favor/
  3. https://youtu.be/sbxviClgCfA?si=O4K2NakoO3kgNPEJ
  4. https://youtu.be/VZmNqVof3S4?si=w5RdZnHZff3n3x2a
  5. https://youtu.be/gai6CBm5LE8?si=mSe2ZxjfEOPaH8Nn
  6. https://youtu.be/sbxviClgCfA?si=86v5EunaFZhqvCpe
  7. https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/sp/pcc-na-faria-lima-faccao-geria-40-fundos-de-investimentos-diz-receita/
  8. Afastado da Rota por excesso de mortes, Derrite fecha os olhos para a violência policial e colhe letalidade recorde – Política – CartaCapital

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