Só uma sociedade doente aplaude chacina
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Por PolitikBr I Brasília, Em 03/11/2025, 18h:43: 6 min
Está claro que a recente megaoperação policial autorizada pelo governador Cláudio Castro, que resultou na morte de 134 pessoas — entre elas quatro policiais — não é um ato de bravura ou justiça, mas a expressão do sintoma de uma doença social grave: o desprezo pela vida de pobres e negros, muitos deles inocentes.
O choque brutal que tomou os Complexos do Alemão e da Penha, mais do que um golpe contra o crime, expôs as raízes apodrecidas de um sistema corrompido e seletivo na aplicação da violência, que reproduz a desigualdade e alimenta a barbárie institucionalizada.
O que nos tentam vender como “sucesso” — a operação mais letal da história do Rio de Janeiro— não passa de um banho de sangue espetacular que não alterou a dinâmica do controle territorial das milícias e do tráfico.
Conforme denunciado pelo deputado e pastor Otoni de Paula, a polícia não ocupou o terreno após a ação policial. Ou seja, não houve continuidade nem combate estruturado: apenas uma operação estéril de extermínio, seguida pelo abandono da área, que voltou a ser dominada pelo crime como antes. Essa omissão estratégica não é um erro, é uma escolha crua e consciente que favorece, paradoxalmente, as milícias que o Comando Vermelho estava tentando expulsar.
A farsa da “vitória”
Há algo profundamente errado quando uma sociedade vibra diante do sangue. Quando os tiros são transformados em aplausos e o Estado, em vez de garantir a vida, celebra a morte.
As manchetes dos jornais falaram em “sucesso da operação”, e o Datafolha revelou que 57% dos moradores do Rio aprovaram a chacina. Já o Correio Braziliense mostrou que 52% da população se sente agora menos segura do que antes. Uma contradição flagrante. O retrato de um povo aterrorizado, mas condicionado a aplaudir o terror.
Entretanto, a crueldade simbólica atingiu o auge quando Cláudio Castro foi aplaudido em uma missa — um ato religioso de celebração da vida — como se fosse herói. Em um templo onde se louva Cristo, se prega a compaixão e o amor ao próximo, o governador que comandou o banho de sangue foi ovacionado. É o retrato de uma sociedade doente, incapaz de distinguir justiça de vingança.
O silêncio conveniente
Enquanto o governo exibia armas apreendidas como troféus, a mídia independente começou a conectar os fios que o poder tenta esconder.
A Revista Fórum revelou que os fuzis apreendidos do Comando Vermelho eram fabricados em Minas Gerais e em São Paulo, estados governados por Romeu Zema e Tarcísio de Freitas — dois aliados políticos de Cláudio Castro que, imediatamente, se solidarizaram com o banho de sangue promovido pela polícia de Castro.
A retórica de “combate ao crime” colapsa diante da realidade da cadeia de produção da violência, que nasce da aparente omissão dos próprios aliados do governador fluminense em combater, de forma eficaz, a produção clandestina e a comercialização de armas. As mesmas armas que mataram 04 policiais e 130 supostos bandidos.
E se não bastasse, o jornalista Reinaldo Azevedo trouxe à tona o que parece ser a verdadeira engrenagem do massacre: o Comando Vermelho não estava apenas “dominando” o território — estava expulsando as milícias, formadas por policiais e ex-policiais. Em suas palavras:
“Eles estavam avançando em áreas comandadas pelas milícias. Que não devem ser violentas, suponho, não. Bando de fofo.”
O sarcasmo de Reinaldo revela a ironia cruel: a operação não combateu o crime — apenas escolheu um lado. E o lado escolhido, ao que tudo indica, foi o da milícia; aquela que há décadas mantém laços promíscuos com setores da polícia e da política.
Corrupção e promiscuidade
As mensagens interceptadas pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes, citadas por Reinaldo Azevedo, mostram traficantes negociando pagamentos de R$15 mil a policiais para libertar comparsas presos.
Em outro episódio, um major da PM pediu ajuda ao “síndico da Penha”, um chefe do Comando Vermelho, para recuperar um carro roubado. Dias depois, o veículo foi “devolvido”.
Esse é o Estado que comanda a “guerra ao crime”: um Estado com agentes parceiros do crime.
Enquanto o governo Claudio Castro posa de linha dura, as milícias seguem cobrando taxas, controlando o comércio e executando quem resiste. Os traficantes, por sua vez, se adaptam, recuam, avançam. Uma guerra híbrida entre bandidos e com muito interesse em jogo, inclusive eleitorais.
O status quo permanece. A pobreza permanece. A morte permanece. O que muda é o slogan do governador de plantão.
A manipulação do medo
O fenômeno político que explica aplaudir um massacre é o mesmo que explica a ascensão do bolsonarismo: a exploração do medo como ferramenta de poder.
Quando o Estado falha em garantir segurança, ele vende violência como solução. E a sociedade, anestesiada, compra — acreditando que a cada corpo abatido a paz está mais próxima. Mas o resultado é o inverso: a cada morte, a barbárie se normaliza.
Quando a missa transforma o algoz em herói, a religião deixa de ser espiritualidade e se torna ritual de adoração à força bruta.
Quando a imprensa celebra a operação mais letal da história como “vitória”, ela abandona o jornalismo e adere à propaganda.
E quando o povo aplaude, o ciclo se fecha: a sociedade se torna cúmplice do seu próprio algoz; da sua falência humana e moral. E isso é devastador.
O falso combate e o verdadeiro projeto
A operação de Castro foi apresentada como “contenção” do Comando Vermelho. Mas, como lembrou Reinaldo Azevedo, o próprio relatório judicial reconhece que o Comando Vermelho estava avançando sobre os territórios dominados pelas milícias. Logo, a operação que supostamente “enfrentava o tráfico” serviu, na prática, para defender a estrutura miliciana, cada vez mais integrada a políticos, policiais e empresários.
Não é coincidência que o principal fornecedor do arsenal do Comando Vermelho seja dono de um clube de tiro e de uma loja de armas — símbolo da simbiose entre o discurso armamentista e a economia da morte.
A política do “bandido bom é bandido morto” alimenta o comércio de armas, reforça as milícias, legitima a corrupção e enfraquece o Estado de Direito.
Aplaudir a barbárie é participar dela
Quando a sociedade aplaude a chacina, ela já não é apenas vítima — é parte da engrenagem.
Aplaudir o governador em uma missa após 134 mortos é negar o Evangelho que se professa. É legitimar o assassinato de inocentes, como as quatro vítimas identificadas pelo Pastor Otoni de Paula, que nada tinham a ver com o tráfico — mortas por serem negras e pobres.
O que resta de humanidade em uma sociedade que se regozija com a execução dos seus próprios filhos? O que resta de civilização quando o Estado tira proveito eleitoral de assassinatos extra judiciais?
O Rio de Janeiro está doente. E só a verdade — dita em voz alta, como fez Reinaldo Azevedo, como fez Otoni de Paula, como fizeram as mães que enterraram seus filhos — pode começar a curar esses corações e almas que confundem vingança com justiça e poder com salvação.
Esse artigo foi baseado em:
- https://revistaforum.com.br/brasil/2025/11/3/fuzis-do-cv-so-feitos-em-minas-gerais-de-zema-em-so-paulo-de-tarcisio-diz-globo-191170.html
- https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2025/11/7283865-52-da-populacao-se-sente-menos-segura-apos-operacao-no-rio.html
- https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2025/11/7284041-claudio-castro-e-aplaudido-em-missa-apos-megaoperacao-no-rj.html
- https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-11/mae-denuncia-execucao-em-operacao-e-cobra-politicas-para-juventude
- https://www.em.com.br/politica/2025/11/7283832-aprovacao-de-claudio-castro-dispara-10-pontos-apos-operacao-no-rio.html
- https://noticiabrasil.net.br/20251029/operacao-do-fracasso-no-rj-acao-com-centenas-de-mortes-nunca-e-bem-sucedida-dizem-analistas-44707479.html
- https://www.diariodocentrodomundo.com.br/dono-de-clube-de-tiro-e-de-loja-de-armas-o-principal-fornecedor-do-arsenal-do-cv/
- https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2025/11/datafolha-operacao-mais-letal-foi-sucesso-para-57-dos-moradores-do-rio.shtml
- https://politicaemdebate.org/2025/10/31/a-chacina-da-penha-quando-a-direita-denuncia-o-proprio-sistema/
- Vídeo de Reinaldo Azevedo: https://www.youtube.com/watch?v=m9qhmmVAWHY