A Chacina da Penha: Quando a Direita Denuncia o Próprio Sistema

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Por PolitikBr I Brasília, Em 31/10/2025, 20h:23, Leitura: 5 min

É realmente revelador quando a máscara cai do lado inesperado. E foi exatamente o que aconteceu quando o deputado federal Pastor Otoni de Paula, aliado do bolsonarismo e figura tradicional da direita fluminense, subiu à tribuna da Câmara para dizer — com todas as letras — o que os progressistas e analistas isentos vêm denunciando há décadas: as chacinas nas favelas do Rio de Janeiro são espetáculos políticos. São peças de marketing travestidas de “combate ao crime”, encenadas por governantes que almejam votos, e não, de fato, combater o crime.

A coincidência entre o discurso do deputado e o artigo que publicamos ontem — Mais uma Chacina: Caem os Peões, Poupam-se os Chefões” — é mais que simbólica: é um ponto de inflexão. Quando até um político de direita, pastor e autodeclarado não petista, esquerdista, reconhece o mesmo que denunciamos — que o governo de Cláudio Castro faz da morte um instrumento de campanha — algo se moveu na consciência pública.

O teatro da segurança pública

O que o povo brasileiro viu nada mais é do que um teatro espetacular proporcionado pelo governador do Estado do Rio de Janeiro para dar a falsa impressão de que algo está sendo resolvido.

Com essas palavras, Otoni de Paula desmontou o discurso oficial de Castro, o mesmo que a imprensa conservadora ecoou sem pudor: o de que a operação no Complexo da Penha, que matou 134 pessoas, seria uma “vitóriada polícia sobre o tráfico.

Otoni de Paula, de forma corajosa, em dissonância com seus pares conservadores, apontou o óbvio: não há vitória nenhuma quando o Estado entra, mata e sai, deixando o território novamente sob domínio das facções no dia seguinte. A operação, segundo ele, não ocupou o território, não mudou a estrutura do crime, não quebrou a espinha financeira do tráficocomo feito pela Polícia Federal esse ano contra o PCC (que lavava dinheiro fruto de atividades ilegais de adulteração de combustíveis, usando fintechs) – .

A polícia entrou e saiu. A polícia não ocupou território. A polícia não ficou lá.” disse o deputado.

O que ele descreve — e o que o nosso artigo já havia publicado — é a política do “espetáculo da morte”: o governo usa o sangue dos pobres como cortina de fumaça para esconder sua incompetência estrutural e a sua negligencia em combater os verdadeiros “donos do crime” — os brancos de olhos claros, de contas milionárias, os lavadores de dinheiro nas fintechs e nos bancos, como disse Otoni.

O racismo estrutural revelado por um negro conservador

A parte mais desconcertante do discurso do deputado veio quando ele falou como homem negro. Com a voz embargada, Otoni de Paula rompeu a bolha ideológica e traduziu em linguagem viva o racismo estrutural que o Estado insiste em negar:

Preto, correndo em dia de operação, na favela, é bandido. Preto, de chinelo, sem camisa, pode ser trabalhador. Correu, é bandido.

A frase revela uma verdade amarga. É o reconhecimento de que o Estado — mesmo aquele que ele próprio ajuda a sustentar — trata o negro como alvo presumido.

Otoni revelou seu medo de pai: disse que orienta o filho a “andar de roupa bonita”, porque teme que ele morra “antes que saibam que é filho de um deputado preto”.

Essa fala, vinda de um político da direita, é fruto da experiência de quem vive o paradoxo de ser negro em um Estado racista, mas inserido em uma estrutura política que alimenta o racismo.

Quando a direita começa a sangrar por dentro

Não há, portanto, dissonância entre o que o deputado disse e o que denunciamos ontem. Há, sim, uma ironia histórica: um conservador acusa um extremista da direita de transformar a polícia em máquina de prévia propaganda eleitoral.

Já se dá como certo que Cláudio Castro irá concorrer a uma vaga de senador nas eleições do próximo ano.

Este mesmo governador que financiou a operação é o mesmo cujo Estado é o penúltimo colocado no ranking de educação.

Ao dizer isso, Otoni expôs o elo entre ignorância e barbárie, algo que a elite política fluminense domina há décadas. O pobre sem escola e, em consequência, sem oportunidades, vira presa fácil a ser cooptada pelo tráfico. O policial sem preparo vira o executor do espetáculo. O governador vira o maestro de uma ópera sangrenta encenada.

O ciclo da farsa

O crime está lavando dinheiro nas fintechs, nos bancos, nos combustíveis. Cadê o Ministério Público? Cadê a polícia?”, indagou o deputado.

É o ponto central que já havíamos explorado: os verdadeiros chefões não estão nas vielas, mas nos escritórios climatizados; no asfalto. A salvos.

A cada operação que exibe cadáveres, as quadrilhas financeiras respiram aliviadas. Porque o Estado, ao matar meninos de chinelo, protege seus patrocinadores engravatados.

Uma convergência improvável

Otoni de Paula não se tornou progressista, tampouco renunciou ao conservadorismo. Mas, em sua fala, desnudou a retórica da hipocrisia e expôs a dura verdade: o que a esquerda denuncia há décadas — o genocídio da juventude negra — hoje ecoa até nos púlpitos da direita. Isso não é sinal de mudança ideológica, mas de colapso moral. Quando a barbárie ultrapassa a linha da conveniência política, até os cúmplices sentem o cheiro da morte.

O silêncio conveniente

Enquanto o governador Cláudio Castro se cala, a mídia corporativa faz o que sempre faz: normaliza a matança. Usa as palavras “suspeitos” e “traficantes” como eufemismos para corpos sem nome. Mas, desta vez, o silêncio institucional encontrou um ruído incômodo — vindo de dentro da própria base de apoio de Castro. Otoni rompeu o script da obediência e disse: “O que o Estado está fazendo é espetáculo. E a vítima é o povo, massa de manobra para político safado e incompetente.

Essa última frase poderia ter saído, literalmente, de nosso artigo anterior. E é por isso que a reflexão se torna ainda mais urgente: a guerra nas favelas não é contra o tráfico, é contra os pobres. O tráfico é o pretexto. O alvo é social.

Esse artigo foi baseado em:

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