Um mergulho crítico nas negociações do tarifaço entre o Brasil e os Estados Unidos.
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Por PolitikBr I Brasília, Em 28/10/2025, 19h:33, Leitura: 4 min
O recente encontro entre o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e autoridades americanas na Malásia marca o início das negociações oficiais para tentar reverter o aumento de tarifa de 50% imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.
Este momento deve ser analisado não apenas como um mero ajuste comercial, mas inserido no contexto maior da turbulenta relação política e econômica entre as duas nações, após a posse de Trump.
As raízes do conflito precisam ser dissecadas para que se compreendam as complexas dinâmicas e interesses envolvidos, assim como as implicações para o Brasil em seu papel crescente no cenário global.
A presença de figuras como Audo Faleiro e Márcio Rosa ao lado de Vieira reforça a importância dada pelo governo brasileiro a essa frente diplomática, assim como a participação do secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, e do representante comercial Jamieson Greer evidencia o peso que Washington atribui ao tema. Mas, por trás dessa composição, há um jogo de forças que transcende o simples comércio.
O tarifaço, que atinge de forma injusta e desproporcional as exportações brasileiras, especialmente de commodities, foram motivadas por questões políticas associadas aos processos do STF contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, e não por desequilíbrio entre a balança comercial entre os dois países, que é amplamente favorável ao lado americano.
A disposição de Trump em negociar com Lula é pragmática e não ideológica. Até porque o impacto do tarifaço pouco afetou o desempenho das exportações brasileiras, que foram direcionadas para novos mercados. O oposto ocorre internamente nos Estados Unidos, onde Trump enfrenta pressões para que produtos brasileiros como a carne, o café e outros, sejam retirados da lista de produtos taxados, por estarem levando a expressivos aumentos de custo para os americanos e mesmo a iminência de levar vários negócios à falência.
O fato do governo brasileiro querer enviar seus melhores negociadores a Washington antes da COP30 demonstra também pragmatismo, e uma tentativa de evitar que o impasse se eternize.

Lula e Trump trocaram elogios, numa cena até cordial, mas sabemos que tais manifestações públicas raramente refletem a totalidade das tensões nos bastidores. O presidente brasileiro, em seu discurso, atentou para a dificuldade de uma solução imediata após o primeiro contato, ao mesmo tempo em que mostrou otimismo sobre a possibilidade de um acordo definitivo em poucos dias. Essa cautela caracteriza a diplomacia atual, que se vê forçada a navegar entre pressões internas e externas.
Cabe ainda mencionar que durante o encontro entre os dois presidentes, o nevrálgico, até aqui, caso do ex-presidente Jair Bolsonaro – condenado a 27 anos e 03 meses de prisão – não fez parte da pauta oficial; apesar da influência do seu filho Eduardo Bolsonaro – acusado por Lula, por diversos jornalistas e por políticos do campo progressista, de ser traidor da pátria -, pela influência que, junto com Paulo Figueiredo, resultou no tarifaço e no emprego da lei Magnitsky contra o ministro do STF Alexandre de Moraes e outras autoridades do judiciário e do governo brasileiro, o que amplificou as tensões das relações bilaterais.
Lula deixou claro que prefere focar na superação do passado – o julgamento da trama golpista contra ele e Alckmin -, sem permitir que questões políticas internas continuem contaminando as negociações.
Por outro lado, o governo brasileiro mantém firme a demanda pela revogação das sobretaxas e das sanções impostas a figuras-chave, incluindo não só ministros do STF, o Procurador Geral da República, mas também o ministro da saúde Alexandre Padilha; sinalizando que o conflito também tem fortes questões políticas a serem resolvidas.
Se houver resistência dos Estados Unidos em ceder sobre a aplicação da Lei Magnitsky, provavelmente isso tenderá a complicar as negociações.
O tarifaço imposto ao Brasil, longe de ser um simples ajuste tarifário, simboliza uma disputa profunda e multifacetada, que mistura comércio, política, justiça e diplomacia. Uma metamorfose ambulante, como Lula definiu, que exige do Brasil não apenas habilidade para negociar, mas também uma clara estratégia geopolítica, em que o diálogo com os americanos deve ser equilibrado, com ênfase na afirmação da soberania e na pauta econômica.
O atual contexto geopolítico e econômico. O contencioso entre os Estados Unidos e o BRICS; as questões críticas envolvendo a Federação Russa, a China e o Irã, são fatores que se somam às dificuldades inerentes a qualquer negociação, o que exige que a política externa brasileira, em um cenário cada vez mais polarizado e protecionista, onde velhas alianças se testam e novas forças emergem, seja ainda mais assertiva para enfrentar esses novos desafios, o que definirá seu papel e poder de influência internacional para os próximos anos.
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