Deputada Júlia Zanatta e a Galinha Pintadinha
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Por PolitikBr I Brasília, Em 25/10/2025, 08h:51, Leitura: 5 min
Há momentos em que a fronteira entre o trágico e o cômico se dissolve completamente. O episódio protagonizado pela deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC), ao afirmar que o desenho infantil “A Galinha Pintadinha” seria uma espécie de “agente ideológico do PSOL” e faria “apologia à União Soviética”, entra para o anedotário político nacional com méritos próprios.
O problema é que, por trás do ridículo, há algo muito mais sério: o uso sistemático da paranoia ideológica como instrumento de mobilização e manipulação das massas mais suscetíveis ao medo e à desinformação.
Um exemplo dessa estratégia do medo e da desinformação foi o que vivenciei em 2018, antes ainda da eleição em que Jair Bolsonaro foi vencedor, em grande parte apoiado em fake news e ataques sistemáticos aos adversários, para lhes destruir a reputação e a credibilidade.
O mesmo aconteceu com Hilary Clinton nos Estados Unidos, que acabou perdendo a eleição, em que era francamente favorita, para Donald Trump. O mesmo método. As mesmas táticas de Steve Bannon foram empregadas nos Estados Unidos e no Brasil. Ele é um dos principais ideólogos da extrema direita.
Mas falando do que vivenciei, o caso não foge ao que já se sabe. Manipulação. Discursos de ódio e medo. Muito medo. E foi justo no “medo” que um dos porteiros do prédio me disse, quando lhe perguntei em quem ele votaria. Se em Bolsonaro ou em Fernando Haddad. Ele respondeu: Bolsonaro. Eu perguntei o porquê. Ele disse: Eu tenho medo do comunismo (atribuído aos petistas, de forma massiva, até os dias de hoje). Eu voltei a perguntar: O senhor sabe o que é o comunismo? Ele respondeu: Não. Eu não sei; mas eu tenho medo.
A fala de Zanatta, reproduzida em portais de notícias, chega a ser um caso de estudo. Não apenas por sua desconexão com a realidade — afinal, a União Soviética deixou de existir em 1991 e a atual Federação Russa é um Estado capitalista com economia de mercado — mas pelo padrão discursivo que ela revela. Se trata de mais uma tentativa de fabricar inimigos imaginários para manter viva a retórica do “nós contra eles” que sustenta a base emocional da extrema direita.
A extrema direita usa o recurso da dúvida, do medo, de forma perversa. Incutir nas pessoas o conceito distópico da “terra plana” faz parte disso. Assim como que as vacinas contém “chips” para vigiar e controlar as pessoas – algo totalmente falso – faz parte dessas estratégias de manipulação. Mas que resultaram, e ainda resultam, na diminuição dos índices de vacinação da população, o que coloca em risco a saúde da sociedade.

O alvo da extrema direita, desta vez, é um desenho infantil. A “Galinha Pintadinha“, criado por produtores brasileiros independentes, cujos personagens coloridos, músicas simples e conteúdo lúdico já atravessaram gerações.
A “acusação” da deputada Zanatta é que o programa seria “militante do PSOL”, o que soa como um delírio, mas que serve ao propósito de manter o discurso conspiratório em circulação — o mesmo que vê comunismo em logotipos, escolas, campanhas de vacinação e até em personagens animados.
A paranoia
O fenômeno não é isolado. A extrema direita, no Brasil e no mundo, baseia a sua estratégia de comunicação na produção de narrativas tendenciosas, mentirosas e, não raro, paranoicas. O comunismo, embora morto como sistema político na maior parte do mundo, é ressuscitado constantemente como um espantalho útil. Ele se torna um símbolo difuso de “ameaça” contra valores conservadores, fé religiosa ou liberdade individual.
Essa construção simbólica é essencial para sustentar a ideia de que há uma “guerra cultural” em curso — um conflito imaginário entre o “bem” (representado pelos conservadores) e o “mal” (os supostos comunistas, globalistas, feministas, ambientalistas e progressistas, e etc).
O discurso de Zanatta, portanto, não é apenas uma bobagem individual, mas parte de uma engrenagem ideológica mais ampla.

Na postagem, ela usou uma camiseta com o desenho de uma mão com quatro dedos alvejada por três tiros, além de imagens de armas e os dizeres “come and take it” (“venha pegar”)
A deputada se tornou conhecida por posar com uma carabina na mão, em uma foto agressiva à Lula; disseminar discursos de ódio e fazer do mandato uma plataforma de provocação e autopromoção. Ela é, de certo modo, a caricatura viva do que a política se tornou sob a influência bolsonarista: uma arena de performance e histeria moral, em que o escândalo é mais valioso do que a razão.
Da galinha à tortura
Enquanto Zanatta acusa um desenho de ser comunista, uma vereadora bolsonarista de Sorocaba (SP) promoveu, através de um vídeo dentro de uma escola pública, um livro que exalta o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, conhecido torturador da ditadura militar. A diferença entre os casos é de gravidade, mas não de essência. Ambos revelam um mesmo sintoma: a tentativa de moldar a percepção das novas gerações por meio de narrativas distorcidas e símbolos de violência ou medo.
No episódio de Sorocaba, o absurdo ultrapassa o campo do ridículo e adentra o terreno do perigoso. Ustra foi reconhecido oficialmente pela Justiça como torturador. Celebrá-lo em ambiente escolar é tentar reescrever a história. Transformar o opressor em herói. É a negação da dor de milhares de brasileiros que sofreram nas mãos do regime militar.
A deputada e a vereadora, portanto, operam na mesma lógica de inversão simbólica.
A sociedade paga a essas pessoas para serem nossos representantes. Falarem e agirem em nosso nome. E é dessa forma que elas exercem a delegação a elas dada, de boa fé, pelo voto. E antes de ser cômico é, na verdade, trágico.

