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Por PolitikBr I Brasília, Em 14/10/2025, 18h:18, Leitura: 7 min
A pergunta feita pelo professor Glenn Diesen — especialista norueguês em Relações Internacionais e professor da Universidade do Sudeste da Noruega, conhecido por suas análises realistas sobre a multipolaridade e as tensões entre Rússia e OTAN — teve o peso de uma provocação histórica: “Como a Rússia interpreta o ingresso da Finlândia e da Suécia na OTAN?”
A resposta de Vladimir Putin foi longa, detalhada e, sobretudo, simbólica. Em tom calmo, mas firme, o presidente russo desmontou o discurso ocidental que tenta justificar a ampliação da aliança atlântica como “defesa preventiva”. Para Putin, se trata de puro absurdo estratégico: “Não tínhamos problema algum com a Suécia ou com a Finlândia. Nenhum. As relações eram normais, abertas e até amistosas.”
A verdade, disse o líder russo, é que Helsinque e Estocolmo optaram por trocar décadas de estabilidade e neutralidade — pilares de uma Europa pacífica — por uma posição subordinada à lógica belicista da OTAN.
O Erro Histórico da Escandinávia
Putin lembrou que, durante anos, os russos atravessavam a fronteira com a Finlândia para comprar e vender. Pagavam em rublos, frequentavam hotéis e mercados. “Os sinais nas ruas estavam em russo. Havia integração e respeito mútuo”, afirmou. O que, então, justificaria o ingresso de países neutros em uma aliança militar voltada contra Moscou?
Segundo o presidente, o movimento não se explica pela razão, mas pelo medo fabricado.
“O mundo é interdependente. Se há preocupações, resolvam por vias econômicas ou administrativas — não aderindo a blocos militares agressivos”, ironizou.
Putin sabe o que está em jogo: a expansão da OTAN para o norte transforma o Báltico em um lago da Aliança, comprimindo o flanco russo até Kaliningrado, enclave estratégico entre a Polônia e a Lituânia. E foi precisamente sobre Kaliningrado que Glenn Diesen direcionou sua pergunta — uma questão que toca o coração da doutrina militar russa.
A resposta veio como advertência: “Nós responderemos. Não somos nós que suspendemos frotas ou impomos bloqueios ilegais – a petroleiros russos em águas internacionais sob o falso pretexto de serem de “frota fantasma” – no mar. Mas se houver algo perigoso lá, também colocaremos algo perigoso lá.” A mensagem foi clara — dissuasão direta.
Da Neutralidade à Vassalagem
O mais simbólico na fala de Putin foi o sarcasmo de sua crítica em relação à Finlândia:
“Helsinque era o local perfeito para negociações de paz. Agora, quem vai querer ir a Helsinque? Para jogar golfe?” A frase expõe a ironia de uma Europa que renuncia ao papel diplomático e se entrega ao servilismo militar.
O “Ato de Helsinque”, – a Ata Final da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa, assinada por 35 países durante a Guerra Fria, visava promover a segurança na Europa ao estabelecer princípios como a inviolabilidade das fronteiras e a resolução pacífica de conflitos, enquanto a Declaração de Helsinque estabeleceu princípios éticos para a pesquisa médica envolvendo seres humanos – . marco da distensão Leste-Oeste em 1975, representava o espírito da coexistência pacífica. Hoje, esse legado está morto. A Finlândia e a Suécia não apenas abriram mão da neutralidade — abriram mão da própria identidade soberana.
Para Putin, essas decisões são resultado da submissão política ao eixo Washington-Bruxelas, um eixo que já nem disfarça seu declínio.
“Quem perguntará aos finlandeses antes de instalar armas nucleares em seu território? Ninguém. Eu sei como essas decisões são tomadas.”(Putin)
A fala de Putin denuncia o que há de mais perigoso na expansão da OTAN. O pequeno país nórdico (Finlândia), que antes servia como ponte de diálogo, se torna agora um posto avançado de risco — e alvo prioritário em caso de conflito.
O Novo Mapa da Confrontação
Ao responder a Diesen, Putin também fez questão de ressaltar que a Rússia nunca manteve forças militares expressivas na fronteira norte. Isso, porém, mudou. Com a adesão finlandesa, Moscou se vê obrigado a criar novas zonas militares no Ártico e no Báltico.
Questionado sobre o por quê dos aviões russos não ligarem seus transponders em voos sobre o Báltico, Putin ironizou ao lembrar que “os aviões da Aliança – OTAN – nunca usaram transponders no espaço aéreo do Báltico, mas agora reclamam dos nossos”.
Para um bom entendedor um pingo é letra: a OTAN provoca, cria o incidente — e depois culpa a Rússia pela escalada. Os líderes europeus estão tentando criar um ambiente de guerra entre a OTAN e a Rússia. Isso vem sendo denunciado faz muito tempo. E todos sabem que a OTAN não tem capacidade de se envolver em qualquer guerra aberta contra a Rússia. Seria um suicídio. E ainda há um agravante: a Europa Ocidental vive um colapso econômico e moral.
Putin citou a Alemanha e a França como exemplos de economias em declínio e sugeriu que a histeria militar é uma forma de desviar a atenção das crises internas.
“Para distrair o povo de seus próprios problemas, eles inventam ameaças externas e aumentam gastos militares” (Putin).
Trump e o Efeito Colateral da Verdade
A pergunta de Glenn Diesen e a resposta de Putin soam ainda mais contundentes à luz das declarações recentes de Donald Trump, que voltou a afirmar, em tom desafiador, que os EUA não deveriam mais proteger a Europa gratuitamente.
“Se os europeus não pagam, que se virem sozinhos”, disse Trump. Ele ainda vem exigindo que os países europeus aumentem seus gastos militares anuais para 5% do PIB. A Polônia, um dos países mais engajados no enfrentamento entre o Ocidente Coletivo (Ucrânia) x Federação Russa declarou que irá cumprir esse percentual de gastos, já países como a Espanha disseram que não.
A ironia é amarga: enquanto os países europeus se ajoelham perante os Estados Unidos, Trump tripudia, desdenha; os vê como peso morto.
O próprio criador do bloco duvida da utilidade do “projeto europeu”. Ele, com a sua habitual truculência das palavras, fala o que poucos têm coragem de dizer: a OTAN se tornou um fardo econômico e estratégico para os EUA.
Putin, ao contrário, oferece uma leitura pragmática: o mundo multipolar está se consolidando porque o Ocidente se esgotou moralmente. A Finlândia e a Suécia, ao aderirem à Aliança, não se fortaleceram — se tornaram peças em um tabuleiro que não controlam.
A miopia ocidental
As perguntas de Glenn Diesen e as respostas cuidadosas de Putin, refletem a percepção de como a Rússia vê o colapso de um modelo de arranjo militar, antes defensivo, mas há décadas não mais; e baseado na arrogância e na crença de que o ocidente ainda tenha poder militar que lhe garanta o jogo de igual para igual da geopolítica.
Ao incorporar países que antes simbolizavam a paz, a OTAN confirma sua transformação em uma máquina de instabilidade. A Rússia, diante desse cenário, apenas ajusta sua doutrina de defesa — e avisa: “Vocês foram avisados.”
A pergunta que permanece é simples: Quem realmente está provocando quem?
Esse artigo foi baseado em:
- Transcrição da entrevista: President Putin asked by Glenn Diesen – Russia’s Reaction to Finland and Sweden joining NATO (2025)
- Canal do YouTube – Glenn Diesen questiona Putin
- Frota fantasma’: um recurso da Rússia para driblar as sanções contra o setor de energia
- https://history.state.gov/milestones/1969-1976/helsinki




