Desnudando Michelle (Bolsonaro), segundo Joice Hasselmann
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Por PolitikBr I Brasília, Em 03/10/2025, 18h:44, Leitura: 5 min
A recente briga pública entre Michelle Bolsonaro e Joice Hasselmann colocou, em praça pública, as fissuras e ressentimentos que marcam os bastidores da extrema-direita brasileira. O confronto não se limita apenas ao campo da política, mas se projeta sobre as esferas de caráter, moralidade e, sobretudo, sobre a imagem cuidadosamente construída (e protegida) por Michelle ao longo dos anos ao lado do clã Bolsonaro.
Desde o auge do bolsonarismo, Michelle cultivou a persona de modelo evangélica, dedicada à família e às causas humanitárias. O choque se dá quando o verniz começa a rachar: Joice Hasselmann, ex-deputada federal e ex-aliada da família, resolveu expor aquilo que, segundo ela, “o público não sabe” sobre Michelle, ao conceder uma entrevista a um podcast que já soma dezenas de milhares de visualizações.
As críticas de Joice — agora com trechos retirados diretamente de suas falas — ultrapassam a mera especulação e avançam na desconstrução da narrativa moral de Michelle, até então tida como figura central do marketing familiar do clã Bolsonaro.
Entre os principais comentários — profundamente irônicos e de tom devastador — se destacam: “A Michelle também é uma grande de uma farsa, eu conheço ela pessoalmente, não é nada daquilo, aquela mocinha, santinha, que vai lá pregar. A Michelle é um horror, de baixíssimo nível, vem de uma família de baixíssimo nível… a mãe processada, a avó presa por tráfico, tios presos”.

Joice revela assim que o arquétipo evangélico de Michelle seria totalmente fabricado para consumo da base conservadora: “Todo esse arquétipo de evangélica é tudo inventado… pode ser que ela tenha se arrependido, se convertido e tal, mas essa que se apresenta não é a Michelle que se conhece em Brasília, é outra coisa”.
Joice vai além e afirma que Michelle, ao contrário do que o núcleo bolsonarista divulgava sobre sua origem e relação familiar, era amante de Jair Bolsonaro enquanto ele ainda estava casado. Expõe também que a primeira filha de Michelle foi fruto de outro relacionamento extraconjugal, e que ela teria escondido essa história durante a campanha pública, fato supostamente conhecido “por todo mundo no PP (Progressistas), por quem é próximo aos grandes partidos, pelos bastidores”. Não falta sarcasmo com o comportamento da ex-primeira-dama: “O linguajar é muito baixo, o linguajar nível Jair Bolsonaro. Pessoas que chegavam lá pra abraçar, tirar foto, ela virava os olhos e falava: ai, que saco, vou ter que atender essa gente”.
Joice sintetiza o tom da disputa: “Micheque – uma referência ao escabroso escândalo envolvendo o recebimento de cheques no valor de 89 mil reais, que teriam sido feitos por Fabrício Queiroz para a então primeira-dama do país, descoberto em uma investigação de um esquema fraudulento conhecido por “rachadinha” – , toma vergonha na sua cara… Você tem um passado mais sujo do que pau de galinheiro, né?”. O deboche se soma à postura desafiadora de quem promete revelar mais: “Eu vou ter oportunidade de abrir a caixa de ferramenta se ela assim quiser vir… Quer brigar comigo, Micheque? Pode vir quente, que eu tô fervendo”. E há espaço para ironizar ainda as ações judiciais movidas por Michelle, acusada de tergiversar sobre seu próprio passado enquanto posa de “Santinha do Pau Oco”.
O contra-ataque de Michelle não surpreendeu: processou Joice por difamação, exigindo a retirada dos vídeos das redes sociais e uma indenização de R$ 20 mil por danos morais. A resposta judicial, repleta de argumentos sobre liberdade de expressão e a limitação da privacidade para figuras públicas, não cedeu ao pedido liminar, atestando: “A vida privada e a intimidade dos agentes públicos sofrem natural mitigação frente à liberdade de informação e de opinar e criticar”.
No embate, se destaca a recusa de Joice à intimidação, afirmando com todas as letras estar “disposta a abrir minha caixa de ferramentas sobre a santa do pau oco”. Ela promete aprofundar as revelações caso Michelle insista na perseguição judicial, como já frisamos, ampliando a temperatura da disputa que avança para o campo pessoal sem pedir licença: “Pode vir quente que estou fervendo”.
Há ainda espaço para ironias e ressalvas: Joice colou na rival a alcunha de “caloteira” e levantou dúvidas sobre o escândalo das joias, disparando: “Quantas joias Michelle não embolsou que eram do Poder Público? Ficamos sabendo só do conjunto de diamantes porque a Receita pegou. E os que não foram pegos?”. No mesmo tom, não poupa Jair Bolsonaro — para ela, “falso cristão” que apenas instrumentalizou a aproximação com o universo evangélico.
A relevância do episódio cresce ao considerar que Michelle, antes tida como aposta do PL para disputar a presidência em 2026, viu sua posição desabar em meio ao escândalo e à exposição do passado pessoal e familiar pelas mãos, ou lábios, de Joice. A blindagem de sua candidatura evaporou, com o partido recuando da ideia e o “projeto Michelle 2026” se tornando radioativo demais até para aliados pragmáticos.
O caso deixa claro o modus operandi do bolsonarismo nos bastidores: construção artificial de figuras públicas, escamoteamento de informações inconvenientes, confinamento de adversários ao “caráter” e “origem” — tudo revertido agora, por quem já esteve do mesmo lado, numa briga que expõe o avesso de toda estratégia. O público assiste à implosão do mito doméstico, enquanto o presente cobra, na moeda ácida das revelações, cada mentira cuidadosamente cultivada no passado.
Vejam os vídeos envolvendo essa disputa entre as duas ex-amigas, se tanto foram.





