O Teatro do Absurdo: Por Que a “Guerra Iminente” com o Irã é um Blefe

Geopolítica, Economia, Internacional

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Por PolitikBr I Brasília, Em 14/02/2026, 20h:10, leitura: 11 min

Editor: Rocha, J.C.

A coreografia bélica encenada por Washington nas últimas semanas, com direito ao deslocamento de porta-aviões para o Golfo Pérsico, voos de bombardeiros stealth e uma retórica que oscila entre a ameaça e a súplica, não passa de um espetáculo grotesco. Um teatro do absurdo onde os protagonistas – Donald Trump e Benjamin Netanyahu – interpretam papéis que a realidade, teimosa e crua, se recusa a legitimar.

A entrevista do Professor Seyed Mohammed Marandi ao canal do professor Glenn Diesen, que serve como tema desta análise, é um antídoto necessário à enxurrada de histeria fabricada.

Marandi, com a lucidez de quem assessorou as negociações nucleares iranianas e vive em Teerã, desmonta a farsa encenada por Trump com elegância.

Ao ser questionado sobre a duplicidade americana – que negocia enquanto reforça seu aparato militar – ele aponta o óbvio: ou é uma tentativa de extorsão, ou um disfarce para a agressão.

A resposta iraniana, no entanto, não é a de uma presa acuada. É a de um jogador de xadrez que já previu os próximos dez lances. “Os iranianos estão se preparando para a guerra, não há dúvida disso”, afirma Marandi. Mas se preparar para a guerra, na complexa engenharia política do Irã, não significa desejar o conflito. Significa construir uma dissuasão tão robusta, tão dolorosa e tão existencial para o inimigo, que a opção pela paz se torne a única racionalmente possível. É o paradoxo da “paz pelo poder”.

Enquanto isso, as imagens que chegam do Irã contrastam violentamente com a narrativa fabricada nos estúdios ocidentais, de caos e queda iminente do regime. Marandi recorda as multidões que tomaram as ruas de Teerã no aniversário da Revolução Islâmica – números que a imprensa tradicional insiste em ignorar ou minimizar. Foram milhões de manifestantes comemorando a data por todo o Irã, segundo ele.

A Revolução Iraniana (ou Revolução Islâmica) completou 47 anos em 11 de fevereiro de 2026. A data marca a queda definitiva da monarquia do Xá, pró ocidente, Mohammad Reza Pahlavi em 1979, e a ascensão do sistema de governo teocrático liderado pelo Aiatolá Ruhollah Khomeini. 

O Irã é um país que, sancionado, ameaçado e vilipendiado há décadas, mantém uma coesão social que desarma qualquer estratégia de “mudança de regime” vinda de fora. A população, como ele descreve, segue com as suas vidas. Um povo que já internalizou a resistência como um traço cultural.

A primeira camada desta peça encenada por Trump, a pedido de Netanyahu, portanto, é a do erro de cálculo ocidental. A ideia de que o Irã se curvará diante da pressão máxima, abrindo mão de seus aliados regionais, de seu programa de mísseis balísticos ou de seu direito inalienável a um programa nuclear para fins pacíficos, é uma fantasia alimentada em think tanks que ainda operam com mapas da Guerra Fria.

Para Marandi, o ponto de partida para qualquer negociação é o respeito à soberania iraniana. E isso não está na mesa de negociações; é a própria mesa.

A Proposta do “Ataque Simbólico”

É aqui que a narrativa atinge um ponto de virada digno de um thriller geopolítico. Marandi revela um fato que, por si só, resume a impotência estratégica americana: Washington, através de canais não-oficiais, propôs a Teerã um “acordo de cavalheiros” para um ataque simbólico. A ideia, digna de um roteiro de cinema classe B, era que os EUA lançassem alguns mísseis contra alvos de menor importância, e o Irã respondesse com um gesto equivalente, e ambos pudessem declarar “missão cumprida” e salvar as aparências.

A resposta iraniana, segundo o professor, foi um “não” retumbante, seguido de um aviso desafiador: qualquer ataque, por menor que seja, será respondido com força total.

A razão para essa intransigência é dupla e profundamente lógica. Primeiro, porque um ataque é um ato de guerra, independentemente de sua escala. Segundo, e mais importante, porque os iranianos compreendem a tática do “cavalo de Troia”. Permitir um ataque simbólico seria abrir a porteira para futuras agressões, disfarçadas de “operações limitadas” ou justificadas por bandeiras falsas.

A negativa iraniana parece ter colocado os formuladores de política americanos, em um beco sem saída. Se atacar o Irã com força é suicídio, e atacar “de mentirinha” é inaceitável para o adversário, resta apenas a opção de não atacar. Mas como recuar, sem parecer derrotado, em um tabuleiro onde se inflou a ameaça iraniana a níveis estratosféricos?

Para entender a profundidade desse beco, é preciso recorrer à análise de Scott Ritter, ex-inspetor de armas da ONU e uma das vozes mais lúcidas sobre o complexo militar-industrial e geopolítica. Em entrevista recente, Ritter detalhou a anatomia da vulnerabilidade americana. Não se trata apenas de retórica; são fatos concretos.

Ritter lembrou que os iranianos, durante o ataque retaliatório contra Israel em junho de 2025 (a “Operação Promessa Verdadeira”), demonstraram a capacidade de saturar e penetrar o sistema de defesa antiaérea mais sofisticado do planeta – uma combinação do Domo de Ferro, Funda de Davi, Arrow 3 israelenses, baterias Patriot e THAAD americanas. Eles “escaparam“, nas palavras de Ritter. Os mísseis iranianos atingiram os seus alvos, e a aura de invencibilidade foi rompida.

O que aconteceria, então, se os EUA, e não Israel, fossem o alvo? Ritter descreve o Golfo Pérsico como um “lago iraniano”, em termos de capacidade de fogo. O país possui milhares de mísseis de curto e médio alcance, dedicados especificamente a essa tarefa, grande número deles alojados em bases subterrâneas, construídas ao longo de anos justamente para um confronto com os Estados Unidos. A esses, se somam mísseis de longo alcance, capazes de atingir qualquer base americana em um raio de 2.000 km, além de uma frota de drones de ataque e milhares de mísseis anti navios.

O porta-aviões USS Abraham Lincoln, peça central do imaginário bélico americano, navega atualmente a uma distância segura da costa iraniana – entre 800 e 1.600 km. Não é posição tática; é posição de fuga. É o reconhecimento implícito de que aquela joia da coroa naval, com seus 5.000 marinheiros e US$ 13 bilhões em tecnologia, é, nas palavras de Ritter, um “caixão flutuante” diante de um enxame coordenado de mísseis hipersônicos e drones de saturação.

A doutrina americana, especula-se, prevê uma resposta nuclear à perda de um porta-aviões. Mas usar armas nucleares contra um país, que tem a China e a Rússia como parceiros estratégicos, é garantir que 380 milhões de americanos se tornem reféns de uma retaliação nuclear em cadeia. O império se descobriu nu.

O Fator BRICS

A segunda camada do absurdo que descrevemos é a mudança tectônica na geopolítica global. O Irã de 2026 não é o Iraque de 2003. Não é o Afeganistão de 2001. O Irã é um pilar do mundo multipolar, um membro ativo dos BRICS, e as suas alianças estratégicas com a Rússia e a China não são mais uma abstração diplomática – é uma realidade operacional.

Marandi aborda isso ao falar sobre a unidade nacional iraniana, mas a dimensão internacional é ainda mais crucial.

Como detalhamos em artigos anteriores (ver referências), Moscou e Pequim já não se limitam à discursos de apoio. Há evidências robustas de transferência de tecnologia militar crítica.

A Rússia compartilhou com o Irã os segredos dos mísseis Tomahawk, capturados intactos na Síria, e auxilia na guerra eletrônica; inclusive na neutralização de sistemas como o Starlink, expertise aprendida nos campos de batalha da Ucrânia.

A China, por sua vez, forneceu radares 3D capazes de rastrear caças furtivos F-35 e, se especula, componentes para mísseis hipersônicos e de precisão, além de inteligência de satélite em tempo real.

Quando Marandi adverte que um ataque ao Irã seria respondido com a destruição de bases americanas e de interesses ocidentais na região, ele não está blefando. Ele está descrevendo um cenário onde o Irã teria, no mínimo, a capacidade de cegar e paralisar a máquina de guerra americana no Golfo.

O fechamento do Estreito de Ormuz, algo que os iranianos podem fazer em questão de horas com minas, mísseis e embarcações rápidas, não é apenas uma interrupção no fluxo de petróleo; é a implosão da economia global.

O preço do barril dispararia para patamares impagáveis, e a culpa – em um mundo saturado pelas revelações dos “arquivos de Epstein” e pelo crescente descrédito das elites – recairia inteiramente sobre a Casa Branca e o seu aliado israelense.

E os Preços do Petróleo?

A resposta é que os preços do petróleo se encontram atualmente em um patamar moderado, com o barril do tipo Brent cotado próximo a US 68 e o WTI por volta de US 63, se mantendo estável, apesar das tensões geopolíticas. O que isso significa? Significa que os players não veem risco de fechamento do estreito de Ormuz. Isto é, não acreditam que haverá qualquer ataque americano ao Irã.

O Pânico Silencioso de Israel

Chegamos, então, ao terceiro ato deste drama: a figura trágica de Benjamin Netanyahu. Para o público ocidental, ele é o grande incentivador do ataque, o falcão que não descansará até ver as cinzas de Teerã. A realidade, no entanto, é mais patética e perigosa.

Como Larry Johnson, ex-oficial da CIA, argumenta de forma brilhante, Netanyahu não está pressionando Trump para atacar. Ele está pressionando para que não o faça. E precisa fingir exatamente o contrário para sobreviver politicamente.

A guerra de 12 dias, em junho de 2025, deixou marcas profundas em Israel. Os mísseis iranianos caíram sobre Tel Aviv e Haifa. O Domo de Ferro se mostrou inútil contra a saturação. A economia israelense parou. As baixas, embora não divulgadas, foram significativas.

Os militares israelenses sabem, com a certeza dos números, que uma nova guerra, em escala real, significaria a obliteração de sua infraestrutura crítica – refinarias, usinas elétricas, portos, centros de alta tecnologia. As luzes de Israel se apagariam. E, em um cenário onde o Irã pode lançar milhares de mísseis nos primeiros dias de um novo conflito, a existência do regime israelense, como o conhecemos, estaria em perigo.

Netanyahu, portanto, está encurralado. A sua retórica genocida em Gaza e a pressão de sua base extremista o obrigam a parecer forte. Mas nos corredores de Washington, os seus emissários sussurram uma mensagem de pânico: “Não façam nada, a menos que tenham 100% de certeza de que podem decapitar o regime e eliminar toda a capacidade de retaliação”. Algo que a inteligência americana, em relatórios internos, já admitiu ser impossível.

Trump entende que atacar o Irã é assinar o atestado de óbito de sua presidência. As eleições de meio de mandato se aproximam, a economia doméstica tem problemas, há um conflito político interno de grandes proporções, e a última coisa que Trump precisa são sacos com corpos de soldados americanos voltando do Oriente Médio. O limite de 500 mortos, mencionado por Ritter, é uma linha vermelha política intransponível.

O Colapso da Narrativa

Mas talvez o aspecto mais fascinante e sintomático dessa crise seja o colapso da própria narrativa ocidental. Como Glenn Diesen pontua, o controle do discurso, antes uma máquina perfeita de propaganda, agora apresenta rachaduras profundas.

De um lado, Trump exige abertamente uma “mudança de regime”. De outro, J.D. Vance minimiza essa necessidade, focando apenas na questão nuclear. Enquanto Marco Rubio, como Secretário de Estado, exige o desmantelamento de todo o programa de mísseis balísticos iranianos – uma condição de rendição, não de negociação –. A cacofonia é ensurdecedora.

Marandi atribui essa confusão à perda do “soft power” americano. E está certo. A credibilidade, o ativo mais valioso de um império, foi dilapidada em guerras mentirosas (Iraque), em vigilância em massa revelada por Snowden, em interferências eleitorais expostas pelo WikiLeaks e, mais recentemente, pela podridão moral exposta pelos “arquivos de Epstein”.

O que nos resta, então, é um império que já não consegue projetar poder sem temer a própria aniquilação, que já não consegue fabricar consensos sem ser desmascarado, e que se agarra a um líder volúvel, instável, e a um aliado desesperado, em uma aposta final de pôquer. As cartas, porém, estão todas na mesa, e o adversário já mostrou que conhece o blefe.

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