Internacional, Geopolítica
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Por PolitikBr I Brasília, Em 04/01/2026, 16h:21, leitura: 4 min
Editor: Rocha, J.C.
Pepe Escobar e o primeiro teste real do mundo multipolar
O dia 3 de janeiro de 2026 não amanheceu apenas sob o eco distante das explosões que sacudiram Caracas desde as 2h da madrugada. Ele se inaugurou como um marco de ruptura histórica, um ponto de não retorno no já frágil edifício do direito internacional.
Naquela madrugada, forças especiais dos Estados Unidos sequestraram o presidente constitucional da Venezuela, Nicolás Maduro e a sua esposa. O gesto não foi apenas militar ou diplomático: foi simbólico, brutal e revelador.
Para compreender a real dimensão desse acontecimento é indispensável recorrer à leitura geopolítica de Pepe Escobar, um dos analistas mais experientes do Sul Global.
Com décadas de cobertura em zonas de conflito e obras de referência sobre a transição sistêmica internacional, Escobar interpreta o episódio não como uma mera mudança de regime, mas como a encenação explícita daquilo que ele define como o “Corolário Trump”: a versão atualizada da Doutrina Monroe, segundo a qual as Américas permanecem sendo propriedade estratégica exclusiva de Washington.
O pretexto apresentado — o velho combate aos cartéis de drogas — soa risível para qualquer observador minimamente atento à história. Escobar desmonta essa narrativa com a frieza de quem já testemunhou o mesmo roteiro inúmeras vezes: Panamá, Guatemala, Chile, Nicarágua. A lógica permanece idêntica; apenas os personagens mudam. A diferença, agora, é qualitativa. A Venezuela de 2026 já não era um Estado isolado ou vulnerável, mas o laboratório vivo da ordem multipolar dentro do antigo “quintal” americano.
Sob Maduro, o país havia se tornado um nó estratégico sensível: ali a China experimentava o petroyuan e financiava corredores logísticos da Nova Rota da Seda no Caribe; a Rússia consolidava uma presença militar defensiva; o Irã estruturava alianças hemisféricas.
Nas palavras de Escobar, se tratava da primeira experiência concreta de desdolarização em solo americano. Para um império isso representava uma ameaça existencial.
A captura de Maduro, portanto, não foi um gesto de força confiante, mas um ato de pânico estratégico. Um império em declínio, ao perceber que perdia o controle dos mecanismos que sustentaram a sua supremacia por décadas, recorreu à ferramenta mais primitiva de seu arsenal: a violência direta, acompanhada da humilhação simbólica do inimigo.
O resultado, contudo, se revelou desastroso. A reação internacional acompanhada por Escobar em tempo real rapidamente transformou o episódio em um divisor de águas. Moscou classificou o ato como terrorismo de Estado. Pequim respondeu com algo ainda mais grave: uma declaração de guerra econômica não formal, criando fundos emergenciais de estabilização e iniciando um desacoplamento seletivo que abalou cadeias produtivas globais. O sistema SWIFT — pilar do poder financeiro ocidental — sofreu retrações abruptas.
Longe de provocar o colapso venezuelano, a prisão de Maduro galvanizou resistências e acelerou realinhamentos globais.
No terreno, a Venezuela demonstrou uma capacidade defensiva que desmentiu a caricatura difundida pela mídia ocidental. Tecnologia russa, logística iraniana e sistemas de comunicação criptografados chineses revelaram que o antigo quintal americano estava, agora, densamente ocupado por outras potências. A resistência interna, longe de se fragmentar, se consolidou em torno da rejeição à intervenção estrangeira.
Ainda mais reveladora foi a hesitação de países como o Brasil e a Colômbia, que oscilaram entre o desconforto diplomático e o silêncio constrangido, expondo o mal-estar profundo causado pela violação aberta da soberania venezuelana. Paralelamente, a fuga do dólar se acelerou, enquanto o BRICS+ emergia como polo de atração para Estados que passaram a temer serem os próximos alvos do mesmo expediente imperial.
A conclusão de Pepe Escobar carrega uma ironia histórica. Ao tentar reafirmar a sua autoridade por meio do gesto imperial mais arcaico — a captura do líder inimigo —, os Estados Unidos aceleraram a sua própria marginalização sistêmica. Demonstraram que já não possuem capacidade de liderança consensual, lhes restando apenas o uso da força bruta, agora claramente insuficiente.
As chamas que iluminaram Caracas na madrugada de 03 de janeiro não anunciaram apenas destruição. Elas expuseram o colapso de uma ilusão: a da onipotência imperial. Um presidente pode ser preso, mas a ordem que o prende já não comanda o mundo.
Como bem percebe Escobar, o planeta que emerge desse episódio não é mais unipolar. É um mundo multipolar, conflituoso e ainda instável, no qual a soberania deixou de ser retórica e passou a depender, inexoravelmente, da diversificação de alianças.
Esse artigo foi construído com base em:
- https://youtu.be/4IGsQa554sg?si=Xs0GtlrZ9exPkB-0
- https://politicaemdebate.org/2026/01/03/a-soberania-sob-fogo-o-desastre-geopolitico-e-a-licao-para-o-sul-global/
- https://noticiabrasil.net.br/20260104/analise-ataque-a-venezuela-e-apropriacao-do-petroleo-e-uma-tatica-de-intimidacao-a-america-latina-46708091.html
- https://www.cartacapital.com.br/mundo/lider-da-extrema-direita-francesa-marine-le-pen-repudia-ataque-dos-eua-a-venezuela/