O Cerco de Krasnoarmeisk: Renda-se ou Morra

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Por PolitikBr I Brasília, Em 30/10/2025, 20h:49, Leitura: 8 min

A guerra que hoje se desenha na Ucrânia não é apenas um confronto de blindados, artilharia e drones e brutais ataques com mísseis. É, em essência, uma guerra por procuração entre uma Federação Russa decidida e uma aliança ocidental — a OTAN — que aposta em prolongar o conflito por meios financeiros, políticos e de propaganda.

Nesse teatro, a cidade de Krasnoarmeisk (Pokrovsk em ucraniano) se tornou símbolo do ponto de ruptura: um cerco implacável, um comando político pressionado por narrativas, e milhares de vidas humanas penduradas entre a rendição e a aniquilação.

Não se trata aqui de repetir slogans. Se trata de conectar fatos e seguir suas implicações com frieza analítica: analistas independentes — e alguns jornais estrangeiros que ainda ousam distinguir esperança de ilusão — sabem que o exército ucraniano perdeu a iniciativa estratégica de ataque desde a fracassada investida de 2023. A consumação desse colapso aparece em Krasnoarmeisk como um fragmento iluminador de um quadro maior: linhas logísticas esgarçadas, financiamento ocidental em declínio e uma liderança política que, sob pressão de aliados e de um aparato de legitimidade internacional, hesita entre salvar vidas e manter uma imagem de resistência heroica, mas fadada a ceifar mais algumas milhares de vidas de combatentes ucranianos, de forma perversa, criminosa, inútil.

O analista Alexander Mercouris não é um mero comentarista sensacionalista. Ao afirmar que “a coisa mais humana que Zelensky e Syrsky podem fazer é ordenar aos soldados em Pokrovsk que deponham as armas”, ele aponta para uma decisão brutalmente prática: aceitar a rendição coletiva para preservar a vida dos combatentes.

A alternativa oferecida pelas forças russas — de permitir corredores para jornalistas e, sustentada no anúncio de prorrogação temporária do cessar-fogo para facilitar a circulação de meios de comunicação — é um espelho da complexidade moral e tática da situação. Ou se cede ou se insiste na continuidade de uma resistência inútil estrategicamente que, sem suprimentos e apoio, caminha direto para o sacrifício.

Há, contudo, uma camada de teatro geopolítico que dificulta decisões lógicas. Zelensky vive sob o peso de promessas feitas a seus parceiros europeus e norte-americanos: munir, formar, treinar e manter a Ucrânia como um pilar de contenção ao avanço russo. Admitir publicamente que milhares de seus soldados está cercado e deve se render, equivaleria a reconhecer que parte da narrativa da capacidade de resistência foi exagerada ou simplesmente inventada em busca de mais armas, apoio financeiro e político. Em política, a admissão de fraqueza tem custo; o preço aqui, porém, é em vidas.

A economia de guerra também se impõe. O alerta do jornalista Roger Boyes, no The Times, é explícito: sem um fluxo estável de recursos até a primavera europeia de 2026, a Ucrânia não resistirá. A oferta de fundos oriundos de ativos russos congelados — centenas de bilhões mantidos em contas europeias — poderia alterar esse cenário. Mas as resistências na UE, a preocupação com precedentes legais e o receio de provocar contestações judiciais e financeiras transformam essa alternativa em uma miragem institucional. Em outras palavras: a máquina ocidental tem limites pragmáticos, econômicos e geopolíticos que se chocam brutalmente com a urgência no front.

Um confisco pelos europeus dos ativos russos seria um duro, e talvez definitivo, golpe na credibilidade do sistema financeiro ocidental, do euro e do dólar. O que impulsionaria, cada vez mais, o sul global na direção do BRICS e das trocas comerciais em moedas próprias, no yuhan e mesmo no rublo. Além do abandono do sistema de compensação SWIFT para o CIPS, por exemplo. Nós estamos falando de furto institucionalizado explícito. Ponto.

A história da guerra ensina que rendições coletivas não são desonra — variam conforme o acordo de capitulação, as garantias negociadas e o poder de fiscalização internacional. Ainda assim, para que essa rota de preservação seja adotada, é necessário que o comando político — e, acima de tudo, o comando militar — tenham autonomia para proteger seus homens acima da teatralidade das mensagens públicas. Quando a percepção internacional vale mais do que a vida de soldados, se cede à lógica da desinformação e do espetáculo; quando as vidas importam de fato, prevalece a lógica prática.

Krasnoarmeisk, dito em russo, não é apenas um ponto no mapa; é uma lente que expõe a fragilidade ucraniana em uma estratégia que confiou demais em expectativas externas, e de uma coalizão ocidental cujos compromissos são fluídos, especialmente em um momento em que a derrocada da Ucrânia se torna cada vez mais difícil de negar, de esconder da opinião pública. Não adianta mais censurar os conteúdos da RT ou da Sputnik. Não funciona mais.

O anúncio de Putin sobre as unidades ucranianas bloqueadas em Kupyansk e Krasnoarmeisk, junto à oferta russa de facilitar o acesso de jornalistas, são gestos calculados: por um lado, solidificam o argumento russo de superioridade material e operacional; por outro, forçam a comunidade internacional a encarar as consequências de suas hesitações.

O mais cruel da situação é que as vítimas imediatas são e serão soldados jovens, homens já de meia idade, mal treinados, em grande parte dos casos forçados a lutar; reduzidos a peças num tabuleiro onde os grandes atores desenham estratégias e retóricas. A decisão de resistir até o fim é respeitável em sua retórica — mas, na prática, transforma homens em somente corpos, já previamente tratados pela retórica da bravura. Uma morte anunciada. Mas evitável. A alternativa, a rendição negociada ou não, carrega estigmas, mas preserva aquilo que toda política razoável deveria proteger: a vida. A vida de pais, de jovens que sonham com um futuro sem guerras. Uma vida além da dor e do sofrimento. Afinal, a Ucrânia precisará ser reconstruída.

Do ponto de vista militar, o cerco é um clássico problema de linhas de abastecimento e quebra da massa combativa. Sem reforços, alimentos, munições e suprimentos médicos, uma guarnição perde rapidamente sua capacidade psicológica e operacional. Do ponto de vista político, porém, existe um cálculo distinto: admitir a derrota pode comprometer ainda mais os apoios e justificativas internacionais. Assim se constrói uma tragédia em duas camadas: um cálculo de curto prazo que extingue vidas para manter a imagem; e um cálculo de longo prazo que ignora que a preservação do capital humano é a condição número 01 para a reconstrução de qualquer nação destruída.

A mídia ocidental, no seu conjunto, flerta com uma versão fraudulentamente otimista que funciona como cola moral para que as populações continuem a pagam pelo preço do apoio: narrativas que afirmam avanços, vitórias e resiliência.

Quando colunas do The Times e outros jornais apontam para o esgotamento do financiamento, a fissura aparece; quando analistas externos — muitas vezes marginalizados pelos jornais hegemônicos — apontam para a falha estratégica, o que antes era esperança vira diagnóstico. A credibilidade ocidental, portanto, também está em jogo: manter uma versão romantizada do conflito é, por vezes, preferível a abrir espaço para políticas de paz amargas e pragmaticamente necessárias.

É aqui que a responsabilidade moral retorna ao primeiro plano: a liderança ucraniana, se optar por manter a luta até o fim em Krasnoarmeisk, estará determinando, com plena consciência, o destino daqueles cercados. Se escolher a rendição, fará o que muitos comandantes no passado fizeram para preservar forças e capital humano.

A negociação de uma retirada de todo o Donbass seria provavelmente aceita de bom grado pelos russos, até porque soldados russos também estão morrendo. A questão, para além do moralismo fácil, é estratégica: qual é o objetivo final? Se o objetivo é sustentar a narrativa de resistência a qualquer custo, a tragédia humana será inevitável.

O leitor deve perguntar, então, qual é o papel da OTAN nessa equação? A tentativa de impor uma derrota estratégica aos russos treinando e formando soldados e homens de comando, modernizando e armando a Ucrânia desde 2014, quando da anexação da Criméia, se mostrou um completo fracasso. As perdas ucranianas em pessoal – tratada como “mão de obra” – passa fácil de 2.000.000, e do lado russo – no começo da guerra – entre 1/10 e 1/7 das baixas ucranianas. Analistas hoje citam números de até 1/25 em favor dos russos.

Quando Roger Boyes adverte que o “dinheiro está secando” e que “a vontade do Ocidente está evaporando”, ele não diz que o apoio cessará imediatamente — mas que existem limites palpáveis e que as políticas de prolongamento do conflito podem colidir com cálculos eleitorais, econômicos e judiciais na Europa e na América do Norte.

Krasnoarmeisk é, portanto, um ponto de inflexão para a Ucrânia e para a Rússia. A possibilidade oferecida pelos russos — de cessar-fogo temporal e corredores para jornalistas, somada à oferta de rendição humanitária — confronta a comunidade internacional com uma escolha prática e humana. Manter a luta à custa de corpos é sustentáculo de uma narrativa que procura justificação; aceitar a rendição porá à prova a capacidade de reconstrução política e moral de um país humilhado, mas vivo.

Há uma pergunta desconfortável, mas necessária: em que ponto a coesão simbólica de uma narrativa de resistência se torna uma sentença de morte?

Quando lideranças políticas priorizam o mito de invencibilidade sobre a vida de seus cidadãos, a legitimidade dessas lideranças deveria ficar sob escrutínio. O que se espera de um comando sensato não é a celebração do martírio, mas a defesa da nação em seus termos essenciais — com homens vivos e um futuro possível.

Esse artigo foi baseado em:

https://noticiabrasil.net.br/20251030/analista-kiev-deve-ordenar-a-seus-soldados-que-se-rendam-em-krasnoarmeisk-se-quiser-que-eles-vivam-44714996.html; https://noticiabrasil.net.br/20251030/sera-o-ultimo-inverno-midia-britanica-faz-uma-alerta-sobre-a-ucrania-44721835.html https://noticiabrasil.net.br/20251030/44726061.html; https://noticiabrasil.net.br/20251030/analista-kiev-deve-ordenar-a-seus-soldados-que-se-rendam-em-krasnoarmeisk-se-quiser-que-eles-vivam-44714996.html

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