Trump, Pete Hegseth e a convocação dos generais: um espetáculo de arrogância e degradação institucional

Presidente Donald Trump e Pete Hegseth

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Por PolitikBr I Brasília, Em 02/10/2025, 18h:48, Leitura: 6 min

Há momentos na história em que os sinais de decadência política e moral de uma nação não vêm de fora, mas de dentro. O que ocorreu faz poucos dias (30/09) nos Estados Unidos — uma convocação extraordinária de generais, almirantes e oficiais de alta patente, por Donald Trump e pelo “secretário da guerra” Pete Hegseth — é um desses sinais. O encontro dos dois chefes com seus subordinados se mostrou inútil sob o aspecto da oportunidade e acima de tudo, foi um show de mediocridade e de arrogância da dupla de trapalhões dispostos a humilhar, perante o mundo, os seus próprios militares. Aliás, de forma similar ao que Trump adora fazer quando recebe um líder submisso de um país estrangeiro, cachorrinho, como Zelensky. E os dois ainda, claramente, mostraram o seu desprezo pelas instituições e afrontaram o próprio conceito de civilidade militar, bem ao gosto do que costumam fazer os extremistas de direita.

Hegseth, numa performance que oscilava entre o histrionismo e a grosseria, atacou diretamente os oficiais presentes, os acusando de estarem “gordos”, como se a função do comando militar se reduzisse a um padrão físico caricato. Não satisfeito, ainda avançou contra os princípios básicos da decência e do direito humanitário, ao afirmar que os militares não deveriam se preocupar com convenções ou protocolos contra crimes de guerra, como a Convenção de Genebra. É preciso sublinhar o óbvio: essas convenções são o alicerce jurídico e moral que impede que exércitos se transformem em máquinas de extermínio indiscriminado. Quando uma autoridade política desdenha desse pacto, se abre o caminho para a barbárie.

O espetáculo, promovido pelo recém-rebatizado “Departamento de Guerra” e não mais “de Defesa” — dispensou qualquer verniz institucional. Bandeira americana ao fundo, serviu de palanque para o show de arrogância dos dois chefões autoritários, com consequências que ressoaram muito além das fileiras fardadas.

Filmado e transformado em mecanismo de propaganda, admoestação, só se prestou a constranger , intimidar e desmoralizar, ao máximo, novos e velhos generais e comandantes. Um capítulo grotesco e perturbador da história militar americana.

O espetáculo da decadência

Em seu programa da MSNBC Lawrence O’Donnell destacou como os comandantes militares que ouviram o discurso “perturbado” de Donald Trump

E a repercussão do espetáculo dos dois chefes dando “esporro”, reprimenda aos seus militares de alto escalão, se transformou em debate público. Em seu programa da MSNBC Lawrence O’Donnell destacou como os comandantes militares que ouviram o discurso “perturbado” de Donald Trump precisam agora se perguntar “quão mais perigosos seus trabalhos se tornaram agora, após testemunharem o quão perdido e doente está seu Comandante-em-Chefe.”

Logo na abertura, Lawrence denuncia: “A emergência que os EUA enfrentam esta noite – 30/09- é que o Presidente da República, em sua aparição pública, provou ser mental e emocionalmente incapaz de cumprir seus deveres constitucionais… Não existe presidente como conhecíamos”.

O cronista descreve a cena dos oficiais obrigados a ouvir “um palhaço coberto com uma mistura caseira de maquiagem laranja, porque acha que isso lhe cai melhor”. Em outra estocada ele diz: “O presidente que segura os códigos nucleares e é, para horror de seus comandantes militares, o chefe supremo do poderio militar mais poderoso da história do mundo (?), demonstrou que não há mais inteligência funcional nem mecanismo de juízo operante em sua mente”.

O trapalhão Hegseth também virou alvo de sarcasmo feroz: “O secretário da guerra, que prometeu não beber mais para ser aprovado pelo Senado, insulta os oficiais dizendo que é ‘inaceitável ver generais e almirantes gordos nos corredores do Pentágono” — apenas para ser exposto, em seguida, à hipocrisia do próprio Trump: “Como ficam os presidentes gordos? Todos os generais conseguem abotoar seus uniformes. Todos!”. E, de forma irônica: “O presidente Pillsbury Dough quer que você faça pilates. O único “push-up” de Trump é no caminhão de sorvete”.

A insanidade protocolar

A análise nua e crua de Lawrence O’Donnell mostra, de fato, o que foi a reunião: “um arranjo para Trump discursar de forma inútil, sem sentido prático, para a sua plateia militar – na verdade, até lembrou Jair Bolsonaro, ex-presidente do Brasil – condenado como chefe da quadrilha que tentou um golpe de estado contra o atual presidente do Brasil e seu vice – , dizer que era “comandante supremo das Forças Armadas” de forma que poderia fazer tudo, até a revelia da constituição. E por causa disso quase recebeu voz de prisão do comandante do exército – general Freire Gomes -à época.

Quanto a Trump, sua fala reuniu elementos dignos de ficção distópica. Ao se referir aos “inimigos internos”, convocando os oficiais a darem o “exemplo” contra os adversários políticos, classificando algumas cidades americanas, em especial as governadas por democratas, como “campos de treinamento para a tropa”, sugerindo, por várias vezes, que a missão das Forças Armadas se estende à repressão doméstica e à imposição da ordem em território nacional. “Estamos sob ataque de dentro de casa. O inimigo está entre nós. Chicago, Nova York, Los Angeles — esses lugares precisam de vocês para pôr ordem”, vociferou Trump.

Esse apelo à quebra do juramento constitucional — que deveria garantir neutralidade política das forças armadas — foi recebido com silêncio constrangedor por grande parte da cúpula militar. “Se alguém não gostar do que estou dizendo, está livre para sair. E sua carreira vai junto”, ameaçou o presidente, sob risos nada cordiais. Hegseth — ecoando o chefe — declarou que qualquer comandante incomodado com as novas diretrizes deveria pedir demissão. O que é isso se não coação? Vexatório um presidente se portar dessa forma.

O constrangimento foi público, nítido. Basta um olhar atento aos diversos vídeos mostrando a cena de militares sendo objeto de “palmatórias verbais”: “Trump nunca pareceu fisicamente tão fraco ou esgotado. Fraco em todo sentido: físico, mental; porque é ineducável… Ainda não entende por que foi recebido com silêncio pelos comandantes”. E a constatação: “Eles sabem que o comandante-em-chefe está perdido”, terminou Lawrence.

A erosão da autoridade e a humilhação internacional

Essa tragicomédia, que foi a reunião de Trump mais Hegseth, com o chamado de mais de 800 militares do alto escalão para ouvir inutilidades e agressões estúpidas e desrespeitosas, sintetiza a tragédia institucional dos EUA: O presidente dos EUA é hoje uma víbora cansada e raivosa, um espetáculo de perversidade política. Os comandantes militares agora conhecem a extensão do perigo que enfrentam — não do inimigo externo, mas do chefe supremo descontrolado a quem devem obediência formal, e que faz do cargo veículo de delírios e humilhação pública”. “Quando o chefe de Estado expõe seus generais à humilhação pública, expõe também a fragilidade de sua própria liderança. Os inimigos externos só precisam assistir ao espetáculo”.

O prejuízo à imagem dos EUA foi imediato. Observadores e especialistas em geopolítica acompanharam cada detalhe da autodepreciação institucional encenada por Trump e Hegseth. A questão ainda é que no imaginário de quem pensa ou pensava em seguir a carreira militar, talvez tenha se instalado um pensamento dialético: “Quem vai quer se voluntariar para uma instituição cuja liderança celebra o ódio e despreza seus próprios valores”.

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